Ex-governador de Macau bateu-se em duelo

duelo de ex-governador de Macau
A capital, 11.set.1915

Só ha poucos dias poude regressar a Lisboa, depois de ter assistido na Haya, como delegado do nosso governo á conferencia internacional do opio, o sr. Major Sanches de Miranda. Não tardou que começassem, em circulos reservados, a correr misteriosamente boatos de uma pendencia em que o illustre official se achava envolvido: mas nem os mais intimos amigos, entricheirados n´uma reserva de ferro, deixavam escapar um só pormenor a tal respeito. Ante-homtem encontrámol-o casualmente e a nossa indiscrição de reporter revelou-se n´uma pergunta impulsiva:
-Então, Vae bater-se? …
Elle encarou-nos com manifesta admiração, e retorquiu, tranquillo:
-Não sei uma palavra a tal respeito.
-Constou-me que ha mesmo já testemunhas nomeadas …
Um sorriso amplo, d´estes sorrisos sem malicia, um «shake-hands» nervoso e a resposta breve:
- Não, meu amigo. Estiveram a mystifical-o. Commigo não ha duello algum.

Foi completo o mysterio. Comtudo homtem á noite, subitamente, adquirimos a certeza de que ia de facto realisar-se o encontro. Aonde? Com quem? Testemunhas?

N´esses assumptos por sua natureza excessivamente melindrosos é mister o reporter servir-se de um tacto infinito para averiguar qualquer coisa. Depois, ninguem sabia. O duello ia realisar-se sem exhibicionismo, sem jornalistas, sem photographos, sem a presença de «habitués», sem galeria, emfim. Era excessivamente grave. Cautelosamente, aproveitando indicios colhidos em fontes diversas, deduzimos a seguinte rapida historia da pendencia: o sr. capitão-tenente Freitas Ribeiro nomeara ha mais de um anno duas testemunhas para exigir do sr. major Sanches Miranda, segundo a phrase sacramental, «cabaes explicações ou uma reparação pelas armas» a proposito de um apontamento encontrado no gabinete do governador de Macau, onde se continha uma grave injuria ao illustre official da armada. Ora esse apontamento era attribuido, nem mais nem menos, ao sr. major Sanches Miranda, ex-governador de Macau. 

As testemunhas do sr. Freitas Ribeiro deviam, conforme está preceituado nos codigos de honra, notificar ao sr. Sanches Miranda o cartel de desafio no prazo maximo de 48 horas. Infelizmente ignoravam n´essa occasião a residencia d´este official, com quem só conseguiram avistar-se em 30 do mez passado. O sr. Sanches de Miranda nomeia logo as suas testemunhas, a questão é rapidamente negociada, com dois recursos de arbitragem por não apparecer o apontamento injurioso, mas o sr. Mello Barreto, arbitro escolhido decide que a pendencia pode proseguir mesmo sem esse documento. O duello marcou-se para hoje, ás 6 horas da manhã.

Renunciamos á tarefa de narrar as correrias de automovel pelos arredores de Lisboa, a maneira habilissima como foram desquitados os curiosos, e a satisfação com que, tendo finalmente adquirido a certeza do local do duello, nos installámos ás 5 e meia da manhã nas proximidades da Senhora da Rocha, afamado local de romarias no largo de Carnaxide, dispostos a colher a enervante impressão de um combate entre dois rudes adversarios e de um combate sem publico, sem «badauds», só com a intervenção das individualidades indispensaveis. 

É interessante: quatro antigos ministros de estado figuravam na pendencia. Por uma questão de methodo e para elucidação dos leitores, eis estas pessoas: Capitão-tenente da armada Freitas Ribeiro, deputado, antigo ministro das colonias e da marinha. Testemunhas: o sr. dr. Sousa Junior, senador, ex-ministro da instrucção e actual director geral da Estatisttica; e o sr. Capitão de fragata Camara Leme. Major Sanches de Miranda, ex-governador de Macau. Testemunhas: o sr. capitão de engenharia Herculano Galhardo, ex-ministro das finanças e director dos caminhos de ferro do sul e do Sueste, e o sr. dr. José de Abreu, deputado e director geral do Supremo Tribunal de Justiça. Medicos: o sr. José Jorge Pereira, distincto medico da armada e ex-ministro das colonias, e o sr. dr. Alberto de Mac Bride, habilissimo cirurgião dos hospitaes. Juiz de campo, o mestre de armas sr. Capitão Veiga Ventura, professor de esgrima do sr Freitas Ribeiro. 

Assistia também ao rencontro o sr. Carlos Gonçalves, de quem foi discipulo o sr. Sanches de Miranda, depois da sua chegada a Lisboa. As condições de combate eram severas. A arma, escolhida pelo offendido, o sabre. Quinze metros para recuar a cada adversario; armas e terreno escolhidos á sorte (…). Traje dos combatentes: camisola sem mangas e luva de passeio. Assaltos de dois minutos com um de intervallo. Prohibidos os «corps-à-corps» e desqualificação do combatente que sahisse fóra do terreno de combate.

Manhã limpida, cheia de bucolismo, com uma luz purissima a doirar a paisagem (…). Occultamo-nos discretamente n´um tufo de hortenses, de onde vigiamos a curva da estrada, junto da fonte. Deve ser ali o combate. Ás 6 horas menos dez minutos um automovel pára no largo junto da egreja. É o sr. Sanches de Miranda, que acompanham as respectivas testemunhas, o dr. Mac Bride e o sr. Carlos Gonçalves. Conversam. Adivinha-se o bom humor. Um duello sem publico (…), é de facto uma raridade. Falta o segundo automovel. Do nosso esconderijo, com impaciencia, notamos que os minutos parecem seculos. Finalmente, depois das 6 e meia, apparecem a pé, vindas pela estrada, as restantes pessoas. O grupo desce em direcção do Jamor; e é em baixo, quasi na orla da ribeira, que vae representar-se o ultimo acto, o acto solemne que porá termo á pendencia. 

Dois ou tres lapuzes que apparecem casualmente param, attonitos e sem comprehender ainda bem o que se passa, encostam-se ao gradeamento de ferro que domina o local do combate. Magnifica suggestão! É d´ali que vamos assistir ao duello. Não nos escapa um unico preparativo. A moeda atirada decide que sirvam os sabres do sr. Sanches Miranda, duas magnificas armas novas em folha, cujos copos nickelados scintillam com estranho brilho. Escolhem-se os logares. Os adversarios collocam-se em frente um do outro: o sr. Sanches de Miranda de camisola «Jager», com os braços nus; o sr. Freitas Ribeiro, de camisola azul da qual previamente se corta á thesoura a manga direita. São 7 horas da manhã. O momento é solemne. Ouve-se:
- Em guarda!

O combate começa com violenta impetusidade. O sr. Sanches de Miranda, cujo ferro se agita vigoroso sobre o seu adversario, avança um tinir rapido de espadas, que faiscam lampejos, e o sr. Freitas é ferido n´um braço, de onde immediatamente o sangue jorra em abundancia. Esta scena decorre em poucos segundos. 

Interrompido o duello para desinfecção dos ferros e tratamento sumario do ferido, alguem observa ao sr. Sanches de Miranda que o seu sabre se entortou com a violencia do golpe. N´um gesto rapido, este senhor passa a mão ao longo da lamina, explicando:
- É muito simples! Endireito-o eu mesmo.

É claro que o sabre tem de soffrer novo contacto com a tintura de iodo antes que principie o segundo assalto. De novo os dois contendores se collocam na guarda. O combate é fulminante, o sr. Sanches de Miranda carrega vigorosamente sobre o sr. Freitas Ribeiro que defendendo-se com energia, recua comtudo quasi até o limite do terreno. Quando faltam tres metros, avisam-no. Elle recua ainda um pouco, os sabres agitam-se furiosos no ar, e o juiz de campo intervem verificando-se que o sr. Sanches de Miranda acaba de receber um ligeiro ferimento no pescoço, na altura da carotida. 

Entretanto, o ferimento que o sr. Freitas Ribeiro recebera no primeiro assalto é novamente pensado com tintura de iodo e perchlorelo de ferro mas a chaga sangra com abundancia. 

Começa o terceiro assalto. A impressão que n´esse momento sentimos é verdadeiramente tragica. Nas phisionomias das testemunhas lê-se uma apprehensão tremenda. O combate tem agora, nitidamente, o aspecto de um duello de morte. 

Então, como o braço do sr. Freitas Ribeiro, a despeito dos pensos applicados, continua a sangrar, gottejando ao longo do ante-braço, o assalto é interrompido de novo. Os dois adversarios ficam sós, em face um do outro, testemunhas, medicos e juiz de campo agrupam-se a um lado, sob os eucalyptos e discutem um pouco. Não ouvimos o que se passa. Adivinhamo-lo, porém. O estado do sr. Freitas Ribeiro, cuja ferida o colloca em manifesta inferioridade, impede que o duello prosiga. Ao todo, o combate não deve ter durado mais de dois ou tres minutos, mas nunca nos foi dado assistir a tão violento ataque, em que ambos os contendores manifestaram raras qualidades de decisão e coragem. Não houve reconciliação.

Entretanto, como o automovel do sr. Freitas Ribeiro, estivesse já no local, seguiram os carros para Algés. Soubemos depois, quando passavamos ás portas que se tinham demorado ali algum tempo, entrado na casa da guarda fiscal as quatro testemunhas com os medicos a fim de ser redigida a ultima acta, que em seguida reproduzimos:

Acta nº 2

O encontro realisou-se na estrada de Carnaxide, pelas 7 horas, segundo as condições estipuladas, e assistindo (….). Houve tres assaltos. No primeiro assalto, o ex.mº sr. José de Freitas Ribeiro recebeu uma ferida em bisel na face externa do braço direito, na extensão de 4,5 centimetros e interessando partes molles. No segundo assalto, o ex.mº sr. Annibal Augusto Sanches de Sousa Miranda recebeu uma ferida incisa de 3 centimetros de extensão na região carotidiana, interessando a derme. A hemorragia do ferimento do ex.mº sr. Freitas Ribeiro continuou sem cessar durante os dois ultimos assaltos, facto este que motivou o termo do combate. Os adversarios não se reconciliaram. - Lisboa, 11 de setembro de 1915. - Antonio Joaquim de sousa Junior, Luiz da camara Leme, Herculano Jorge Galhardo, José de Abreu, José Jorge Pereira, Alberto Mac Bride Fernandes e José Firmino da Veiga Ventura.

As condições do duello eram, na integra, as seguintes: As quatro testemunhas tendo accordado que o encontro se realisasse esta manhã nos arredores da Cruz Quebrada, indicaram os representantes do sr. Freitas Ribeiro fosse o sabre a arma do combate e por accordo dos quatro foi sujeito ás seguintes condições (…). O combate terminará quando os medicos reconhecerem a manifesta inferioridade de qualquer dos adversarios.

A capital, 12 de Setembro de 1915

A Noticia, 15.set.1915 
A Noticia, 15.set.1915
12.set.1915, el noroeste 
El Noroeste, 12.set.1915

Os duelos de pistola ou florete fizeram parte parte da vida da fidalguia (as pessoas honradas, as que tinham privilégios) e, depois da instauração da República, de uma elite política, talvez ciosa de se destacar dos demais, dos tais lapuzes a que se refere este artigo, que não entendiam tanto aparato na reparação da ofensa à honra, visto tratarem com o punho e imediatamente, nas ruas e nas tabernas, os desaforos recebidos. 

A tal elite, não havendo ou não sendo acatadas as «cabais explicações» e ainda que o seu discurso versasse o humanismo e o racionalismo em todas as causas que defendiam, e apesar de conhecidos certos resultados trágicos, pretendiam bater-se até à morte e faziam questão que ficassem registados os seus duelos, incluindo escritores de nomeada, porque fizeram publicamente o desafio e divulgaram as escolha de armas e hora e local dos combates, bateram-se na presença de testemunhas e não só as previstas no Código de Honra, e defenderam a legitimidade dos desafios nos jornais, em livros, em encontros de intelectuais. A verdade é que eram um acontecimento e tanto, e também a este foi dada muita publicidade, constando até em jornais espanhóis e brasileiros. O que diriam os chineses se tivesse tido lugar em Macau?

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