Entre os chinas tudo, ou quasi tudo, apresenta singularidades

Johannes Vingboons, 1665 
Johannes Vingboons, 1665
vista de Macau do lado do mar (olho de pássaro) e
mapa da cidade de MACAU 
Johannes Vingboons, 1665

(…) E já me havia feito varios obsequios, o que me animou a pedir-lhe, quizesse fazer-me mais outro favor, qual era o de ir comigo visitar minuciosamente o kampeng China, e explicar-me os seus usos, costumes, etc., fim este que me levou a sua casa. Achei-o todo vestido de branco, signal de luto, entre elles, e tirou logo o casquête da cabeça, como prova do seu respeito, porque é esse o costume para com uma pessoa de consideração ou que se deseja obsequiar, e como fosse hora de tiffin, ou merenda entre o almoço e o jantar, levou-me para a mesa, onde segundo outro estylo, china, não só me fez sentar á sua esquerda por ser o lugar principal, mas tambem vi com não menos admiração, que servem primeiramente as fructas e dôces, vindo depois disto as viandas, e por ultimo a sôpa! E diz-se que estão ainda atrazados os chinas! Pois não será mais bem entendido comer-se primeiro o melhor e deixar o resto, ou de que não gostamos tanto, para os criados!

Entre os chinas tudo, ou quasi tudo, apresenta singularidades destas. Das mais notaveis que me contou o bom Liáo, citarei por exemplo, que para elles a agulha marca o S. e tem cinco pontos cardeaes; e que a nobreza, que o imperador celestial confere a qualquer individuo, por serviços relevantes ao Estado, não se estende a seus filhos e descendentes, mas vai remontar e abraçar os seus antepassados, que, todos, por um resultado retroactivo tornam-se mandarins e figurões na historia passada, em quanto que os filhos na época presente ou da actualidade continuam obscuros como até ali! (e, entre parenthesis direi, que isto me faz desconfiar que, apezar da riqueza do meu amigo Liáo, nem por isso seria, segundo aquelle systema, grande fidalgo lá na sua terra). (…)

Entretanto não ha duvida que na China também ha nobreza hereditaria, mas só por excepção honrosa. É na familia de Confucio, a qual além disto goza privilegios extraordinarios. Parece comtudo que desde que Kung-Fu-Tseu, verdadeiro nome do seu fundador, a ter eu entendido bem a pronuncia china, morreu, 479 annos antes de Christo, a sua familia degenerou por forma que não apresentou mais nenhum homem notavel. Todavia ainda é tal o respeito pela memoria do famoso philosopho, que em consideração á idade, os homens de 80 annos para cima, podem trajar de côr amarella, que é a da familia imperial por ser a que usava Confucio.

Sahimos para ir ver as lojas, os estabelecimentos, etc, dos chinas. Dirigimo-nos primeiramente a uma das suas escolas de meninos, onde os vi, na fórma do costume, lendo, em altas vozes, da esquerda para a direita. O mais curioso foi ter eu de interceder para que não castigassem uma pobre criança que fôra apanhada em flagrante, sem recitar a lição como é o seu dever, pois que estava lendo em voz baixa, o que é uma grande falta para aquella gente porque significa, dizem elles, preguiça!

Como quer que seja, o que é certo é que a sua civilisação segundo pretendem os chinas data de 4,000 annos tendo até uma litteratura sua 700 annos antes de Christo, sendo em verdade dessa época os seus principaes monumentos litterarios, na lingua chamada «mandarina», que é a dos sabios, e figura na China, na Coréa, no Tonquím, em Siam e em quasi todas aquellas regiões como o latim na Europa, pois que a lingua que Liáo e o povo falla é outra inteiramente differente e subdividida em varios dialectos, segundo as provincias, como o dialecto de Cantão, o de Fo-kien, etc., etc. 

Quando passavamos pela rua foi attrahida a nossa attenção pelos gritos, pelas risadas e pela bulha rouca e monotona de uma musica discorde e horrivel, que se ouvia do outro lado do canal, na rua vizinha. Apressamo-nos para ir ver, porque Liáo logo me aguçou a curiosidade dizendo-me, que era um sing-song ou theatro china. 

Levantava-se sobre um alto estrado para o qual se olhava da rua mesmo. Havia uma multidão immensa, movendo-se sem cessar e renovando-se a cada passo, o que de contrario seria grande fiasco para a companhia de comicos ambulantes, visto affirmar-me o meu companheiro, que as scenas duram sem interrupção desde as 8 da manhã até ás 8 da noite, sem nunca deixar de haver bom numero de espectadores contribuintes. Ali appareceram heróes de toda a especie, genios e deuses de toda a qualidade. As suas vestimentas eram realmente deslumbrantes todas de seda e ouro. A pantomima era em verdade tambem de uma energia incrivel, e embora, porque os seus usos, se opponham fossem rapazes quem figurava de mulheres, fizeram dansas pasmosas, deram batalhas ridiculas e desfizeram-se em saltos, momices e tregeitos, parolando e cantando sem cessar, sendo só interrompidos pelos applausos, ou pelas gargalhadas do respeitavel publico. Devia o povo ter pois encontrado grande prazer na representação, ainda que eu, confesso, pela parte que me tocava, julguei de ensurdecer com semelhante musica e berraria!

Da Oceania a Lisboa de Francisco Travassos Valdez, 1866
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