Cousas interessantes sobre usos e costumes chinezes

Fon-Fon
Figaro resume os costumes originaes da China que desapparece. Os livros, na China, são ao contrario dos nossos: abrem-se da ultima pagina, lêm-se do fim para o principio. Cumprimenta-se sem tirar o chapéo da cabeça. Se se encontra um personagem importante no seu palanquim é de praxe fingir que se o não o vê: saudando-o, o protocollo obrigal-o-hia a descer do palanquim para retribuir o cumprimento. É uma cousa vil fallar de si proprio sem que a isso se seja convidado. As mulheres procuram dissimular as formas e usam calças muito largas, emquanto que os homens trazem saias. Todo o criado chinez tem outro mais inferior que faz os serviços mais rudes. O cachimbo chinez não comporta senão uma pequena quantia de tabaco, o suficiente para uma baforada, e os fumantes levam a maior parte do tempo a reacendel-o. 

Os quadros chinezes são pendurados em volta de uma pequena mesa e são guardados em preciosas caixinhas, donde são retirados apenas para mostrar ás pessoas amigas. Os personagens nos quadros chinezes estão sempre rodeados de payzagem. Na perspectiva chineza as linhas, em vez de convergir, divergem, o que torna enorme o fundo e muito pequeno o primeiro plano. 

Se alguem pratica uma bôa acção, os louros pertencem ao avô desse alguem. Um dos maiores insultos é: ovo de tartaruga. A palavra de um commerciante chinez vale tanto quanto uma firma reconhecida. Segundo a lei, o imperador póde ter uma mulher, quatro concubinas de primeira classe, vinte e sete de segunda, oitenta e uma de terceira. Elle dá audiencia ás 4 horas da manhã e ás 8 assiste geralmente a alguma representação theatral. 

Naturalmente, estes eram os habitos do imperador quando a China era imperio. Agora, comtudo, o imperador continua a ser o pontifice de duas religiões: o budhismo e o taoismo.

Fon-Fon, 4 de Maio de 1912

A Rivista delle Missioni publicou uma carta da China na qual se narram cousas interessantes sobre usos e costumes chinezes. Por exemplo os chinezes dão ás crianças um anno de edade, desde o momento do seu nascimento. Se succede que este tenha lugar poucos dias antes d'um anno novo, ou mesmo no ultimo dia do anno a terminar, dir-se-ha que o recem-nascido conta dous annos de edade, embora para nós outros occidentaes o anno não se possa compor de trinta, quinze, ou mesmo tres dias. Uma creança de dezoito mezes poderá contar para os chinezes dous, ou mesmo tres annos, conforme tenha nascido na primeira ou segunda metade do anno. 

O chinez divide o tempo em cyclos de doze annos. Cada um destes doze annos é symbolisado por um animal e as pessoas pertencem á classe do animal do anno em que nasceram. Os doze animaes são: o rato, o boi, o tigre, a lebre, o dragão, a vibora, o cavallo, a ovelha, o mono, o gallo, o cão e o … porco. O anno chinez correspondente a 1900 era o anno do rato. O de 1912 completa o cyclo e é necessariamente o do porco. Todo o chinez é obrigado a saber exactamente a que classe de animal pertence, sendo tal esclarecimento indispensavel para contractar casamento, para mandar tirar a sorte... 

Cousa muito commum entre os chinezes é dar nome de mulher a homem. Julgam poder assim enganar as Fadas, que se preoccupando muito pouco com as mulheres, não atrapalham muito a vida dos meninos.

Fon-Fon, 29 de Junho de 1912

Jean Frollo, a proposito das mil formulas de polidez corrente, diz que se póde tirar conclusão do caracter dos diversos povos, pelas saudações em uso de cada um. 
- Comment allez-vous ? (Como vae?) diz o francez amavel e de bom humor por natureza. 
- How do you do ? (Como faz?) Pergunta o inglez pratico, individual e muito occupado com os negocios. 
- Wie geht es? (Como vão as cousas?) pergunta o allemão em geral. 
- Hoe waart's gij? (Como viaja?) pergunta o hollandez sempre no mar ou nas estradas. 
- Hur mar ui? (Como póde?) interroga o sueco aventuroso e conquistador, o que significa em traducção menos litteral: «Em que disposições está para emprehender qualquer cousa?» 
- Lev et (Viva bem), diz o dinamarquez, simples e patriarcal. 
- Zdvastoni (Esteja bem), pronuncia religiosamente o russo. 
- Come Sta? (Como está?) pergunta o affavel italiano.
Como vae a transpiração? dizem os egypcios. 
- Já comeu o seu arroz? pergunta o chinez. 
- Possa a sua sombra nunca diminuir! exclama piedosamente o persa, descendente dos adoradores do sol.
- Sanitá e guadagno (Saúde e ganho) dizem os genovezes muito interessados no commercio e nos negocios. 

Poder-se-ia continuar essa enumeração: mas seria fastidiosa. Mostra de um modo surprehendente que as «banalidades» das saudações correntes reunem em algumas palavras o proprio espirito da raça. 

Fon-Fon, 4 de Abril de 1914

Se um contemporaneo do imperador Yao, que reinou ha mais de dous mil annos, pudesse voltar á China, ainda se acharia em condições de comprehender a linguagem dos seus conacionaes e se informar das novidades destes ultimos tempos. A lingua chineza é uma das mais antigas e a unica que ainda se conserva viva, emquanto o sanscripto, o hebraico, 
o zind, o coptho, são hoje linguas mortas, isto é, só são conhecidas e estudadas pelos eruditos. 

Ao passo que o chinez fallado e escripto quasi como era fallado e escripto nos primeiros tempos da humanidade. E estas origens antiquissimas explicam certamente a conformação restricta e rudimental da lingua fallada. Em vez de usar os sons e as articulações que formam as outras linguas, o chinez ficou nos monosyllabos. Os monosyllabos que compõem a lingua chineza são cerca de seiscentos, dos quaes a maior parte se compõe de repetições que mudam de significado segundo o tom em que são pronunciados. As intonações são cinco: tom mudo, tom baixo, tom ascendente, tom discendente e tom alto. Mas, na verdade, são como que nuances que só o ouvido chinez póde distinguir. Cada monosyllabo serve para indicar muitos vocabulos diversos e seria impossivel de se entender se, por um mechanismo especial, os chinezes os não unissem dous a dous, tres a tres, formando agrupamentos que, no fundo, equivalem ás nossas palavras polisyllabicas. 

Ao passo, porém, que a linguagem fallada conservou a sua simplicidade primitiva, a escripta pouco a pouco foi-se tornando assustadoramente complicada. A escriptura chineza não é composta de lettras, mas de signaes que, nos primeiros tempos eram desenhos rudimentares: 
escriptura chineza
Depois esses signaes se multiplicaram, combinando-se entre si até o infinito, complicando-se até formar uma phalange de pelo menos quarenta mil caracteres. Desta escriptura, que é a mais difficil de todas, se servem para mais de quatrocentos milhões de homens. A China, o Japão, a Coréa, o Annam, a Conchina usam essa escriptura embóra com pronuncias differentes. Para complicar ainda mais, se é possivel, o estudo do chinez, existem, só na China, pelo menos dezoito dialectos tão diversos uns dos outros que os que os fallam não podem se comprehender.

Fon-Fon, 20 de Fevereiro de 1915
Enviar um comentário