As minorias étnicas na China

Homem Magazine,  Jan. 1998 
Homem Magazine,  Jan. 1998 
Homem Magazine,  Jan. 1998

A China meridional é um verdadeiro oceano de rostos humanos. O isolamento montanhesco favoreceu a sobrevivência de numerosos grupos étnicos que, nas regiões mais recuadas e de difícil acesso, mantiveram quase intactas as suas tradições sociais, culturais e linguísticas que remontam a 3 mil anos atrás. Hoje, no entanto, as mutações rápidas da economia chinesa ameaçam o património cultural dessas minorias. Estão oficialmente recenseadas 55 minorias na China, cuja população totaliza cerca de 70 milhões de pessoas. É pouco em comparaºão com o grupo de chineses chamados Han, de nome das dinastias Han que viveram de 296 a.C. até 220 d.C.. As minorias ocupam de forma esparsa territórios que representam 62% dos 9 560 000 Km2 da China continental, enquanto os «chineses» propriamente ditos apenas desenvolveram a sua sociedade em 38% do país. À vista dos «verdadeiros» chineses, os outros grupos étnicos sempre foram considerados verdadeiros selvagens. Durante séculos, eram aliás só conhecidos da soldadesca chinesa, que transitava pelos seus territórios no âmbito da expansão do império, ou por comerciantes e administradores imperiais em viagem pelos estados vizinhos. Ao reconhecerem a autoridade dos mandarins chineses, nomeados pelo estado central nessas regiões longínquas, a quem pagavam tributo, abstendo-se de se rebelarem contra eles, a existência desses «bárbaros» era tolerada. São os missionários cristãos ocidentais os primeiros a interessar-se por estes povos de forma académica. Actualmente, os documentos referentes a estas comunidades ainda são raríssimos. Tudo indica que ninguém conseguiu dominar a extraordinária confusão histórica que envolve as minorias étnicas, das quais se identificaram mais de 50 linguas diferentes. Felizmente para a sobrevivência destes povos e das suas tradições, as respectivas regiões autónomas escaparam ao drástico programa familiar imposto aos Hans, com o benefício dos serviços de saúde pública instaurados pelos comunistas. Desta forma, as populações não pararam de aumentar com o correr dos tempos. Apesar da extraordinária variedade dos seus usos e costumes, os Miaos, os Yaos, os Bais, os dongs, os Yis, os Hanis, os Naxis, os Pais, os Lolos e dúzias de outros têm em comum o símbolo do dragão: há os dragões da terra, os dos lagos, dos rios, das nascentes … Quando vêem um arco-íris, dizem «O dragão chegou para matar a sede». Têm por hábito chamar os xamãs para exorcizarem os dragões que devotam e espirito dos doentes … Mas hoje é o dragão do modernismo que constitui a ameaça mais feroz da tradição. Por exemplo, já não usam, senão em grandes ocasiões, as vestes carregadas de prata lavrada, esses dotes de fazer empalidecer os grandes costureiros do mundo inteiro. Os jogos, vídeo e o karaoke fizeram a sua entrada na selva; actualmente eles deixam-se seduzir pelas t-shirts, e pelas motos pequenas, e são capazes de trocar de boa vontade um adorno de prata por uma qualquer bugiganga de plástico multicolor. Quem cuida de os deixar em paz, preservando as suas milenárias tradições culturais?

Homem Magazine, Jan. 1998
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