A corajosa baronesa de S. José de Portalegre

Macau
Vista de Macau com a Praia Grande 
(guache sobre papel, escola chinesa, cerca de 1835) 
Homem Magazine, Jul 1991

A história da baronesa de S. José de Portalegre. Ana Juliana de Falconieri casou com o cunhado, barão de S. José de Portalegre, e era de ânimo corajoso, além de caridosa. Se a caridade começa em casa, ela tinha morada num palácio da Praia do Manduco, em Macau, onde a senhora Ana Juliana vivia com grande estadão, saindo apenas na sua cadeirinha e com guarda de vinte cipaios para ir à missa ou em visita. O bispo D. Alexandre Pedrosa já informara o rei de que depois de terem vindo os estrangeiros para Macau o luxo no fato e na mesa entrou nos costumes, porque eles tiravam grandes lucros das Companhias e faziam com eles despesas grandes. Ana Juliana Falconieri era estrangeira e riquíssima. 

Pelo primeiro casamento levara cosigo aias e criados em quantidade e que lhe traziam da rua «as novidades», que às meninas de boa família não ficava bem conhecer o mundo. Mas tinham sempre uma legião de amas metidas nas suas mantilhas para correr a cidade e contarem o que viam. Hoje não se imagina o que era um palácio na Praia do Manduco, com o seu jardim colonial que cheirava a jasmim e a magorim; e as salas forradas de pratos de Cantão e o chá gordo na mesa com trinta cadeiras de pau preto. Siara Ana Juliana estava sentada com a sua costurinha, um lenço de linho onde bordava o monograma, quando ouviu grande estrondo na rua. O marido barão estava em Calcutá e ela tinha como guarnição particular uma companhia de cem cipaios. Nessa noite, um marinheiro português, que matara um china numa taberna, viera refugiar-se no palácio. Siara Ana, a baronesa, chamou o mordomo, que era um indiano com barbas e turbante. Era um homem majestoso, vestido de seda verde. Ela disse:
- Que barulho estou a ouvir?
- São mil e cem chineses que procuram um marinheiro português para o matar.
- Um marinheiro português não se mata duma maneira tão arruaceira. – Ela levantou-se e foi à janela que dava para o pátio e gritou: - Ó minha gente, cafraria!

Apareceram instantaneamente os cem cipaios armados e com uniforme de tropa regular. Tinham turbantes brancos na cabeça e um alfange à cintura. A baronesa, com o seu mordomo por detrás do cadeirão, recebeu três comerciantes chineses que gastaram duas horas para dizer o que pretendiam.
- Queremos o assassino – concluíram. E juntaram as mãos em sinal de repeito.
- A minha casa não é para ser devassada por escravos e leprosos. Se querem entrar não entram mais de trinta. E se nada encontrarem, tenho o direito de lhes tirar a vida.

Os cem cipaios estavam a postos e as suas adagas reluziam. Eram moços treinados para a guerra e que impunham respeito ao próprio governo do mandarim. A baronesa escolhera-os entre os malaios mais belos e rápidos que podia haver, e muitas vezes o marido lhe dizia:
- Não sei porque cem cipaios têm de ser tão bonitos. Dez ou vinte, vá lá. Mas cem, é demais.
- Quero que sejam todos tão brilhantes como o meu faqueiro de prata – disse a baronesa – Não há no meu faqueiro lata ou cabo de osso. É tudo prata maciça enquanto não for de ouro.

Os cem cipaios saíram do palácio e espalharam-se pelo jardim em ordem de batalha. E o povo retirou-se com a sua deputação, não sem pisar algumas flores. Era um mar de gente miserável, como só era possível ver nos bairros de Macau nesse tempo.

- Que tempo? – disse Iluminada.
- O século XVIII, acho eu. Usava-se ainda a cadeirinha e só mais tarde apareceu o riquexó.
- E o marinheiro? Onde estava o marinheiro português?
- Onde o pôs Orson Welles, na cama da baronesa. Uma bela cama indo-portuguesa, com embutidos de marfim e prata. (…)

É de crer que o caso da baronesa de S. José de Portalegre se passasse nessa época de oiro, antes de 1640. Que foi feito de Ana juliana Falconieri e dos cem cipaios, mais o marinheiro português? Do marido, sabemos que ora estava em Calcutá, ora jogava com os amigos numa casa de tavolagem da rua dos Mercadores, perto da rua da Felicidade, por comodidade. Ela sentava-se a costurar no seu palácio da praia do Manduco e os cegos cantavam debaixo da sua janela: «Vai pedir cô Baroneza: Elle bom, nadi nega». Negou a morte do marinheiro, o que era delicadeza de mulher rica. (…)

Agustina Bessa-Luís em A Quinta Essência, 1999


Em parte alguma do mundo são as mulheres tão respeitadas, como na China; o facto acontecido em Macáo, no anno de 1807, prova bem essa verdade. Bernardo J. de Almeida, morador na Praia de Manduco, tendo um mastro do seu navio a concertar, em frente de sua casa, teve a imprudencia de espancar um dos carpinteiros chinezes, que trabalhavam n'elle. Os companheiros, tomando o partido do espancado, tornaram-se contra o espancador que para não soffrer a pena de Talião, fugio para casa, e trancou as portas. Os carpinteiros fizeram tão grande motim, que chamou a gente de um comboy de lorchas de sal, fundeado junto á praia, a qual, certa da offensa recebida, dispunha-se para atacar a casa. 

A baroneza de S. José de Portoalegre, vendo das suas janellas a invasão dos chinezes, e informada do motivo, metteu-se na sua cadeirinha, levada por quatro destemidos, e possantes cafres; e chegando á frente dos tumultuosos, exclamou: «Sei que estais aggravados; mas a offensa é irreparavel. Sou eu, quem defende esta casa retirai-vos». 

Os chinezes, soltando gritos de desesperação, correram a embarcar-se. Admirado da valentia da nova Amazona, assim como já o estava das suas virtudes, fui com outros amigos dar-lhe os emboras da victoria, e testemunhar-lhe o meu respeito, pelo valor; respondeu: «Não sou das mais fracas; todavia, seria temeraria, se deixasse a minha casa, para affrontar a sanha de duzentos homens rairosos, sem ter a certeza, de que elles, pelo respeito que têm ao meu sexo, nem levantariam os olhos para mim, com receio de offender-me». 

Repara bem, que não eram homens de educação sublimada; eram carpinteiros, e marinheiros. Eu fiquei desde então venerando os costumes dos chinezes; e tu, tens mais esse facto, para avaliares do caracter, e da sua polidez. 

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, José Ignacio de Andrade
Enviar um comentário