Usos e costumes chineses, a mulher

Rua das Flores

A administração do lar domestico pertence ás mulheres casadas; todavia, se têem sogra, não assumem o governo da casa, pois que é a esta que tal encargo cabe, ainda que seja viuva e sustentada a expensas do filho. De entre as differentes manifestações de submissão que deve dar-lhe a nora, conta-se a obrigação de nunca se sentar na presença da sogra, sem que esta lh'o permitta, e a de ir todos os dias á cozinha, ainda que por mera formalidade, preparar uma iguaria para aquella. Logo que a nora tiver algum filho, nomeadamente varão, adquire direito a mais deferências da parte da mãe do marido, a qual, ainda assim, é considerada a dona da casa. 

Os chins casados, que manteem concubinas, não logram nunca a paz domestica. A mulher, como dona da casa, maltrata-as geralmente e ellas têem que obedecer-lhe como ínfimas creadas. Ás concubinas também se não poupam a intrigas e artimanhas para fazer-lhe o mal que podem. Não lhes falta ensejo para o conseguir, porquanto a esposa legitima, que não é geralmente da escolha do marido, é pouco procurada por este, que das outras se acerca com frequencia, visto tel-as ido buscar por affeição, ou desejo. Mas não se pense que entre as concubinas ha harmonia, porque, excitadas pelo ciume, promovem também entre si graves discordias, que ás vezes terminam por scenas de pugilato. (...)

As chinas nunca pegam ao collo nas creanças, põem-nas sobre as costas ou nas ancas, de forma que fiquem escarranchadas, e seguram-nas com um panno quadrado, quasi sempre bordado a cores, que prendem com fitas nos hombros e á cintura. 

O sexo feminino é para tudo reputado inferior ao masculino. O viver social das damas chinezas, comparado com o das senhoras europêas, póde dizer-se que corresponde á escravidão. Como estas, não têem ingerencia alguma nos negocios publicos, mas tambem nada sabem dos particulares e até mesmo estão sequestradas do convivio dos homens, não podendo, portanto, reinar no mundo da elegancia e ser alvo dos galanteios do sexo forte!!

Para dar completa idéa da sua consideração na sociedade, diremos que nem mesmo se sentam á mesa com os maridos. Qualquer rapariga china, que tiver casamento justo, se acontecer fallecer-lhe o promettido, fica considerada viuva para todos os effeitos, embora solteira. (...)

As condições sociaes em que se acha a mulher na China são completamente differentes das que fruem as nossas companheiras europêas (...). Ellas não vivem, vegetam, e, ainda assim, em terreno lodacento; são escravas dos caprichos dos homens, alvos dos seus desejos, victimas do egoismo de uma sociedade fria e calculista; têem o coração fechado aos affectos, embotada a intelligencia, pautadas as graças feminis, porventura envenenadas as delicias do amor. Nunca é desejada a vinda ao mundo da mulher, porém, quando nascem, se provêem de gente rica, são creadas como quem colleciona objectos de valor, aos quaes procura comprador condigno; se acertaram de abrir os olhos em lar pobre, espera-as a corrente de um rio, em que são lançadas, ou o caminho da prostituição. 

É repugnantissimo o commercio que as raparigas de baixa classe vão animar. As familias desnaturadas vendem-nas a certas megeras que as vão cevando, permitta-se-nos o termo, para depois as alugar, ou vender no mercado do vicio. Desde que entram no bordel, como educandas, até que algumas chegam a ser concubinas de ricos chins, atravessam estas infelizes mil transes e soffrem bestiaes desacatos e brutalidades. Consomem a vida estas miseras, se não caem em graça de algum figurão, na mais deprimente, infima e soez das degradações, tão aviltante e asquerosa que nós, europeus, mal comprehendemos que o governo china seja de homens e não de immundos, libidinosos e estupidos irracionaes, ao attentar na sua indifferença a tal respeito. Um fado adverso paira sobre todas as filhas de Eva na China; se não vejamos. 

Nas classes mais elevadas, vegeta a mulher no maior isolamento; não tem idéas, não tem sentimentos, falta-lhe a lucta e até se lhe coarcta que espaireça pelo trabalho. Sendo casada, isolam-na do mundo as conveniencias, privam-a de influencia sobre o marido o concurso das concubinas. O que lhe resta? Passar o dia ao espelho lambusando a cara com centenares de cosmeticos, ou carregando a cabeça de flores e enfeites! É pouco para uma creatura que tem no peito o germen dos affectos de mãe e vê vasio de todo o seu coração. Algumas abalançam-se á leitura dos livros obscenos, que abundam na China, e perdem-se, se não lhes mettem medo os rigores de que o marido póde dispor. Eis tudo, eis a sua vida, que não passa de uma escravisação. 

As mulheres do povo têem, ao menos, o consolo que lhes vem da cooperação no trabalho do homem; todavia, como as difficuldades são muitas, os vicios não menores, e a elevação da alma negattiva, levam vida arrastada, se não são despenhadas no abysmo supremo da perdição. 

Em Macau tem a influencia dos nossos costumes, o convivio com os europeus e acção da Procuratura dos Negocios Sinicos, minorado estes males, que sinceramente lamentamos, todavia na essencia lá se manifestam, porque é quasi impossível cortar pela raiz habitos e crenças arreigadas. 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França. 1897 

A partir de finais do século XIX, os intelectuais chineses começaram a repensar o estatuto da mulher na sociedade chinesa, sob a influência das várias igrejas cristãs, nomeadamente a protestante. Depois, com a implantação da República (1911), a luta pela emancipação da mulher foi assumida pelo poder político. Mas esta emancipação foi claramente acelerada pelo avanço do comunismo na China, sofrendo um grande impulso durante a Revolução Cultural, em que houve uma subversão total dos valores vigentes, com o intuito de combater o confucionismo e a ideologia burguesa.


Por isso, surgem cada vez mais mulheres que se dedicam a actividades ligadas ao exterior, isto é, profissionais, diminuindo o número das «mulheres de casa» e, simultaneamente, aumenta o número das que optam pelo celibato. Também se vêm menos mulheres abandonadas, nas ruas, quer em Macau quer na China, assim como quase desapareceram as concubinas. Estas foram, no entanto, substituídas por outras formas mais modernas, pois muitos homens, na alta classe média chinesa, têm várias mulheres, mas estas não coabitam nem têm estatuto de concubinas, sendo instaladas em agregados domésticos independentes.

Traços da Presença Feminina em Macau de Leonor de Seabra. 2007
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