Macau
Para perceber a China não basta ir á China; seria preciso entrar na pelle de um chinez e dar tempo ao tempo para nos fazer crescer no corpo e na alma os rabichos de que, segundo as apparencias, deve compôr-se a personalidade complicada de um cidadão do Celeste Imperio.
Chegam a ser comicos os telegrammas que de lá nos vém, procurando impotentemente traduzir em lingua e em logica de brancos este singular capitulo da historia da raça mongolica de que estamos sendo contemporaneos. Phantasiemos pois nós de longe o que se passa e não tenhamos sobretudo o menor receio de nos enganarmos mais completamente do que os collegas que se foram metter no labyrintho. Todos lemos o edito em que, com uma contricção toda christã, o Imperador da China (que tem cinco annos) se confessou humildemente aos seus povos de todos os peccados e crimes, declarando que os males da nação são da sua culpa, da sua grande culpa, da sua maxima culpa, e jurando ao mundo que vae emendar-se.
Poucas semanas depois um novo edito assignado pela Imperatriz-mãe concede a demissão ao Regente, proclamando-o boa pessoa, mas ambicioso e inhabil, e, com prostradas mostras de humildade, proprias dos tempos bicudos, reparte com os ministros os poderes do throno e cria assim á pressa e á capucha uma especie de monarchia constitucional. Um messias chinez, de nome Yuan Chi Kai, inspirador destas e outras medidas destinadas a fazer a parte do jogo revolucionario, recebe da côrte imperial plenos poderes para promover a paz e a união entre todos os celestes e embrenha-se numa serie de negociações e contra-negociações com os rebeldes no miolo das quaes ainda nenhuma testemunha christã conseguiu penetrar.
Eis senão quando a Revolução, marchando e resistindo com mais intelligivel persistencia, nos reapparece a cavallo na situação, dando as cartas em todas as direcções, acceitando pro forma a reunião de uma assembleia nacional que ha de decidir-se pela forma futura de governo, mas começando por proclamar provisoriamente uma republica e por eleger o seu Presidente. E a Europa vae tomando nota destes acontecimentos consideraveis; mas realisa-os tão pouco e tão mal como se elles tivessem logar não na China mas na Lua, fóra do alcance dos seus telescopios.
Que pensar desta Republica celeste e da tosquia simultanea de duzentos milhões de rabichos que ella se propõe sem duvida realisar? Comecemos por não perder de vista que a lingua chineza se escreve da direita para a esquerda, ás avessas das nossas, e que as ideias chinezas devem marchar na mesma symetria em relação ás europeias. Mas, tanto quanto podemos julgal-o, a China que, como se diz do diabo, sabe muito, não por ser China, mas por ser velha, é um paiz secular ou millenarmente organisado sob uma fórma democratica. As suas instituições juridicas e economicas parecem-se sob muitos aspectos com o que o communismo moderno tem concebido de mais realisavel.
A familia chineza é uma base social de extrema solidez, com raizes e tradições intactas que se perdem nas noites de todos os tempos. Até agora, ao que parece, o que faltava ao chinez era estabelecer a coordenação entre elle proprio e o seu governo. O Imperador não era o chefe do Estado, era um deus distante, feroz e naturalmente malefico, de quem era preciso supportar a injustiça como se supporta o frio, a fome, a doença e por fim a morte, que tudo são dons dos deuses. Os mandarins eram os delegados dessa divindade longinqua, fatal, inseparavel da vida. Se assim é com effeito, os editos humilimos do Imperador de cinco annos devem ter causado na alma chineza uma impressão de cataclismo. Um deus que se arrepende; se lamenta e pede perdão, é a vertigem, o fim de tudo, o cahos inominado e pavoroso.
Mas se o chinez descobre que esta divindade não era authentica e se lhe perde o respeito, a sua republica não precisa de recorrer aos nossos moldes para existir. De facto já existe. Basta-lhe desenvolvel-a, estabelecendo entre a familia, a communa e o Estado a correlação necessaria. O chinez até já tem em casa um modelo excellente de constituição democratica. Quem não conhece aquellas lindas caixas de charão que nos vém da China, umas dentro das outras, cada uma contendo no seu seio outra sempre mais pequena até se chegar á ultima minuscula? Essas caixas constituem o symbolo exacto e definitivo de uma nação bem arrumada e bem governada.
A caixa mais pequenina é a familia; a seguinte a communa; as outras que se vão succedendo representam os diversos orgãos administrativos desenvolvendo-se em suave harmonia, ajustando-se uns aos outros, nascendo uns dos outros, tão bem medidos e proporcionados que o seu conjuncto forma uma unidade perfeita, isto é, o Estado, de que a caixa maior e exterior é a imagem nitida. Quando a China se parecer com uma dessas caixas chinezas ella será a melhor como já é a maior nação deste planeta.
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Uma das primeiras estatisticas a organisar na nova Republica chineza é, se não me engano, a da exportação dos rabichos. Pode mesmo dizer-se que esses numeros ajudarão a indicar o grau de assimilação das ideias republicanas pelos cidadãos celestes. Mas a questão tem um aspecto economico não menos interessante. Um rabicho é um valor commercial. Alguns milhões delles são uma importante fonte de receita. Os cabelleireiros da Europa, para darem emprego a essa colheita excepcional de tranças asiaticas, vão ter que complicar de novos chi-chis e de levantar de mais alguns centimetros os penteados das senhoras. Paris, que revelou e suggeriu a Liberdade á China vae talvez decretar a resurreição das perucas para os homens. Por esta forma se estabelece, entre as cabeças extremo-orientaes e as nossas, uma endosmose e exosmose das mais activas.
As de lá mandam cabello ás de cá; e estas pagam aquellas, na volta do vapor, com ideias, noções e experiencias que oxalá não fiquem perpetuamente postiças e consigam penetrar e fructificar nos miolos obscuros a que vão consignadas.
Em Cantão, segundo affirma um correspondente, tudo marcha ás mil maravilhas. A cidade tosquiou-se em massa. As lindas calotas com que os chinas cobriam a cabeça ha alguns mil annos cedem o logar ao barrete de Paris - forma barrete de apache - que a Revolução poz em moda. Numerosos cantonezes mudaram já não só de ideias mas tambem de fato e gozam neste momento a felicidade e a sensação ineditas e inexprimiveis que dá o uso do jaquetão da raça branca aos corpos até agora suffocados nas pregas, só apparentemente amplas, da cabaia.
É conhecido que o vestuario christão exerceu sempre uma fascinação magica sobre os povos atrazados ou barbaros. Um preto de Africa, ainda hontem nu em pélo no sertão, é, ao cabo de poucos dias de iniciação, um janota irreprehensivelmente engravatado e florido nos boulevards. Os missionarios inglezes operarão muito mais depressa a conversão dos africanos quando distribuirem por elles, não apenas Biblias, mas tambem sobrecasacas.
Apesar de tudo o correspondente de Cantão, a que me reporto, não se mostra contente. Os chinas vivem já e morrem em cheiro de liberdade, mas continuam insensiveis aos outros cheiros das suas ruas e casas. O ex-Celeste Imperio encontra-se já livre mas não ainda limpo. Sob as varandas de um club, guarnecidas de revolucionarios orgulhosos do seu fato novo, deslisava ironicamente um rio de immundicies de que não tinham a mais ligeira consciencia os seus narizes velhos. Eu não partilho o pessimismo do correspondente. É preciso seriar não só as questões como as revoluções. Lá chegaremos á barrela. O cheiro da polvora, que ainda se respira, torna o olfacto duro e grosseiro. Mas não duvido que os cinco sentidos da China se hão-de apurar, um por um, sob o novo regimen.
Tambem approvo a rabichotomia geral que é uma operação perfeitamente conforme ás melhores regras da economia politica. Exporta-se cabello superfluo e recebe-se em troca oiro sonante. Já não digo o mesmo da substituição de calotas e cabaias, que representa um golpe talvez irreparavel na industria e na arte nacionaes. Creiam os chinas que os seus antigos trajes os fazem muito mais bonitos, além de lhes ficarem mais baratos.
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Alguem me faz notar que os meus devaneios sobre a China e a minha apparente difficuldade de a tomar a serio, encobrem apenas a completa ignorancia em que me encontro sobre aquelle paiz. Pura verdade.
A sociedade franceza do tempo de Montesquieu, intimamente persuadida de que o mundo era ella, acordou do seu sonho para se perguntar estarrecida: Peut-on être persan? Eu tambem daria tudo para desmontar um china, peça por peça, sobre a meza de um laboratorio, a fim de verificar como elle é por dentro.
E não se imagine que, ao sorrir ligeiramente dos aspectos pittorescos da questão chineza, fico insensivel ao drama humano que nella se contém e me desinteresso das suas incalculaveis consequencias. A China vae ser assumpto na ordem do dia por longos annos.
Nós por ora, pouco mais sabemos della do que o logar que occupa no mappa. Dito isto para que os leitores deem o devido desconto aos meus paradoxos, continuarei imperturbavelmente... a mandar conselhos á China. Muito a proposito me vem á lembrança a carta de um chinez ha annos publicada num jornal da Europa, em que se extrahiam de um simples dictame de Confucio as mais sagazes regras de bem-viver para os povos modernos. O antiquissimo philosopho diz pouco mais ou menos: «O homem deve cumprir todos os seus deveres com ordem e methodo, sob pena de não chegar a cumprir nenhum. Em saber qual é o primeiro dever e qual é o ultimo, em começar por aquelle e não por este, se encerra quasi toda a sabedoria.»
E o commentador acrescentava, tanto quanto a minha memoria me permitte cital-o: «A primeira reforma que o homem tem a operar é a de si proprio. O progresso da China não pode ser senão resultante do progresso de cada chinez. Consagrei-me por isso humildemente a corrigir-me de todos os defeitos de que accuso o meu paiz, afim de poder adquirir o direito e cumprir o dever de cooperar no seu renascimento.»
Bem hajam Confucio e o seu discipulo contemporaneo por estas palavras que, do fundo da noite dos tempos em que foram pensadas, dão perpetua luz á nossa perpetua ignorancia. Ellas são lição para a China como para nós. Ignoro qual é a definição mais em voga do bom cidadão. A minha seria: Bom cidadão é, em primeiro logar, aquelle que exerce seriamente uma profissão séria. Um dos sophismas que mais activamente presidem á decadencia moral das sociedades é o que julga legitima a duplicidade estabelecida pelos costumes entre a vida publica e a vida privada do homem. Imaginar que uma collectividade formada individualmente de timoratos, de preguiçosos ou de cynicos pode progredir, quaesquer que sejam as divisas politicas com que se enfeite, é illusão egual á do criminoso incorrigivel que se suppozesse quite com Deus e com a sua consciencia por ir regularmente á missa e cumprir com escrupulo todas as praticas externas do seu culto. No entanto, essa illusão é das mais solidamente estabelecidas nas actuaes sociedades politicas, onde a cada instante se encontram, perfeitamente habilitadas a demolir os governos e a salvar as nações, pessoas que nenhuma outra habilitação jamais revelaram, além dessa de que se ufanam, e que é de tão difficil verificação.
Ninguem se lembra de perguntar ao interprete improvisado das aspirações nacionaes quem é, de onde vem e em que se occupa (...).
Sem duvida, se os costumes individuaes exercem influencia permanente sobre a vida nacional, é egualmente certo que as instituições por que um povo se rege contribuem, embora com muito maior lentidão e em grau menos intenso, para o educar ou para o desmoralisar. Mas não se esqueça que cada homem bem intencionado pode emendar-se e renunciar aos seus erros pelo simples esforço da sua vontade e em curto praso. Assim uma obra que de outra forma exigirá o trabalho e o sacrificio de muitas gerações realisar-se-ia possivelmente em breves annos se, por exemplo, cada pae se impozesse como uma obrigação, predominante a quaesquer outras, esta, tão falada e tão descuidada: educar bem os seus filhos na escola que existe em toda a parte e que em toda a parte está á sua disposição, visto que não é outra senão a sua propria casa.
Sem duvida, se os costumes individuaes exercem influencia permanente sobre a vida nacional, é egualmente certo que as instituições por que um povo se rege contribuem, embora com muito maior lentidão e em grau menos intenso, para o educar ou para o desmoralisar. Mas não se esqueça que cada homem bem intencionado pode emendar-se e renunciar aos seus erros pelo simples esforço da sua vontade e em curto praso. Assim uma obra que de outra forma exigirá o trabalho e o sacrificio de muitas gerações realisar-se-ia possivelmente em breves annos se, por exemplo, cada pae se impozesse como uma obrigação, predominante a quaesquer outras, esta, tão falada e tão descuidada: educar bem os seus filhos na escola que existe em toda a parte e que em toda a parte está á sua disposição, visto que não é outra senão a sua propria casa.
Resumo e moralidade desta excellente doutrina chineza (...) a primeira fonte da autoridade moral do homem é a sua propria biographia. Antes de nos informarmos das suas convicções theoricas ou partidarias perguntemos-lhe qual é a sua profissão e como a exerce; se creou familia e se soube mantel-a, amal-a e guial-a; se espalhou o bem entre os seus proximos e deu praticamente o exemplo das boas doutrinas que aconselha. Com Fr. Thomazes nunca se regenerará um povo; e eis uma these simples que, á força de pouco utilisada, até parece excentrica. As aptidões sociaes e civicas do homem estão na razão directa das suas virtudes pessoaes.
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A nova China, ainda antes de nos mostrar que tem cabeça, annuncia-nos solemnemente que já tem chapeu. Mudar de fato pareceu-lhe tão urgente como mudar de regimen. A Assembleia Nacional, reunida ha algumas semanas em Pekim, acaba de discutir e votar a lei sobre o vestuario. A discussão prolongou-se durante dez laboriosas sessões. Os parlamentares tiveram á sua disposição os melhores modelos da alfaiataria e da chapelaria da Europa. Um por um os experimentaram. É por um decreto, muito mais parecido com as leis sumptuarias dos nossos antigos reis do que com as regras da democracia contemporanea, que a China prescréve aos seus cidadãos o uso obrigatorio do chapeu alto, da sobrecasaca preta e das botas de polimento em todas as grandes solemnidades!
Todos nós apreciavamos as virtudes e encantos da civilisação europeia e tinhamos na devida conta os principios de liberdade e justiça em que ella se baseia. Mas creio que não havia até agora uma voz discorde em reconhecer a fealdade lugubre dos nossos trajes. Nenhuma vaidade tiravamos das batinas tristes com que evocamos ainda talvez o nosso passado theocratico, nem dos chapeus grotescos com que semeamos de chaminés ambulantes o aspecto já tão aridamente industrial das nossas cidades.
Eis senão quando surge lá ao longe a China; velha cultora e conhecedora de symbolos, e proclama que não só a Liberdade e a Democracia mas, tanto como ellas, o Chapeu Alto a Sobrecasaca; são dogmas intangiveis e ritos veneraveis. O gesto, com ser exotico, não deixa de ser naturalissimo. Como haviam os chinezes de acreditar na efficacia de uma fé nova que não dispozesse de uma liturgia e de uma indumentaria proprias?
Já aqui mostramos que a Republica chineza é de direito divino. O antigo Imperio encorporou-a e reencarnou nella, exactamente como o paganismo decrepito se insinuou e fundiu no christianismo nascente e vigoroso. Os bonzos terão agora de explicar ás populações como se chega á felicidade e á riqueza pelas receitas ineditas do novo regimen. Estou de aqui a vel-os encantados de poderem acompanhar as suas explicações nebulosas e abstractas de documentos tangiveis. Um chapeu, um sapato, serão acolhidos como talismans, e á sua virtude, muito mais que á de quaesquer principios, serão attribuidas a nossa força e a nossa gloria europeias. Vestir-se-ão talvez sobrecasacas aos Buddhas de cada pagode para lhes reforçar o prestigio e a santidade.
Vamos agora a ver se nas nossas botas de verniz encontra a depressa a fôrma do seu pé, e se o nosso chapeu alto lhe serve bem na cabeça...
Pombos-correios (notas quotidianas) de Alberto d´Oliveira, 1913

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