O xadrez chinês

Lou Lim loc
O jogo do xadrez é muito antigo na China, attribuindo-se a «Wu-Wang» da dynastia «Chow» a sua invenção em 1120 A.C.; mas não ha documento algum que indique se o jogo inventado por aquelle imperador é o mesmo que hoje se joga. 

Os chinezes se bem que fabriquem taboleiros e pedras do xadrez que nós usâmos de marfim e madeira para exportação, jogam um outro muito differente. O taboleiro d’elles é como o nosso dividido em sessenta e quatro casas, mas todas da mesma côr, e no pretas e brancas como no taboleiro europeu; é além d’isso atravessado longitudinalmente por uma facha a que chamam rio «Ho» com a largura de um dos lados de cada casa, o qual divide os dois campos em partes iguaes. 
xadrez chinês
As pedras são pequenos discos de madeira ou marfim, de ordinario vermelhos e amarrellos, tendo cada um d’elles o seu nome escripto a tinta azul. Collocam-se elles no ao centro das casas, mas na intercepção das linhas que as formam, de fórma que cada fila póde conter nove pedras, e como são dez os traços parallelos ao rio, pode cada pedra, excepto o general, tomar noventa posições differentes. 

O ganho do jogo consiste em collocar o «Tsiang» ou general (rei no jogo europeu) do adversario em posição de não poder mover-se, quando atacado por uma pedra; exactamente o nosso «cheque e mate». Quando se lhe dá um simples «cheque» tem de ser mudado de posição ou ser coberto com outra pedra. As pedras occupam os logares indicados no desenho acima: ao centro da primeira fila o «Tsiang» ou general (rei); de cada lado do general um «wé» ministro ou letrado, equivalendo á nossa «dama»; ao lado de cada «wé» colloca-se um «siang» ou elephante que corresponde ao nosso «bispo»; em seguida a cada elephante vem um «ma» ou cavallo, e nos dois extremos ficam os «tché» ou carros, correspondentes ás «torres» do jogo europeu. 

Na segunda fila e na frente de cada cavallo põe-se uma peça, «pao» que só póde mover-se saltando por cima de outra pedra; por isso quando o «pao» ataca uma pedra, é preciso que entre esta e o «pao» haja outra, vermelha ou amarella que lhe sirva de «mira» sem o que a «peça» é inoffensiva, porque se não tem «mira» não pode atacar. 

Assim, por exemplo, o «Tsiang», tendo na frente uma pedra qualquer, soffre o cheque da «peça»; e para se livrar d’elle sem se mover, desloca a pedra que tinha na frente para outra posição, privando assim a «peça» da sua «mira». Nós cobrimos o rei em cheque com uma pedra, os chinezes ao contrario livram-se do cheque da peça, pondo o general a descoberto. 

Cinco peões «ping» occupam as intercepções ímpares da terceira fila, de forma que não ha «ping» diante dos letrados nem das peças; aos «ping» tambem ás vezes se dá o nome de «jin», homem, por não poderem dar mais que um passo, atacando para a direita e para a esquerda, podendo tambem atravessar o rio, avançando ou recuando, porque o peão póde recuar, se bem que na opinião do abbade Grosier nunca recua. Aquelle escriptor diz ainda que os carros e as peças podem atravessar o rio, opinião opposta à de Bazin, que sustenta o contrario. Segundo o grosso modo de ver ambos têem rasão, porque os chinezes jogam o xadrez de qualquer das duas fórmas da mesma maneira, que entre nós se convenciona avisar ou não o cheque à dama. Em geral todas as pedras podem atravessar o rio, mesmo as peças e os carros, quando não haja combinação especial.

Só o «Tsiang» o não póde atravessar nunca: o cavallo e o peão atravessam-o como dando um passo apenas.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898
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