O régulo de Macau

Revista Brasil Portugal, 1 de Junho de 1901
No fim de uma carreira publica e com 74 annos de idade falleceu este illustre general de divisão, 
que foi ministro da marinha e da guerra, em dois gabinetes diversos, que governou varios districtos 
em occasiões difficeis de politica interna, e entre elles o Porto e Braga, 
que foi governador geral de Macau e da India, que esteve em missões diplomaticas na Asia 
e na America do Sul, que tratou com muita gente, exerceu muito logar, fez muitos favores 
e negou naturalmente outros tantos, mas que não deixou no seu caminho senão a estima 
pela inexcidivel correcção do seu trato e pela grande delicadeza do seu espirito. 
Tendo sentado praça com 15 annos, acabou o curso da Escola 
Polytechnica tres annos depois, entrando logo em 1846 na guerra civil, 
como cadete de cavallaria e tão brilhantemente que foi promovido 
por distincção ao posto de alferes. Querendp ter um curso scientifico 
e desejando passar para a arma de Estado Maior foi a Coimbra 
e matriculou-se em mathematica e philosophia, sendo premiado em todas as cadeiras. 
Data d 'ahi a sua carreira publica.
Em 1860, governador de Cabo Verde; em 1862 do Funchal e depois de Braga; 
1864, do Porto; 1865 eleito deputado; 1870 governador da India; 1872, de Macau; 
1875 missão á China, Japão e Sião; 1878 missão ás republicas da America do Sul, onde fez 16 tratados; 
1880, par do reino e ministro da marinha; 1886, ministro da guerra; 1887, conselheiro de Estado; 
1893 general de brigada; 1896, general de divisão e commandante de Lisboa. 
Era o 1º barão, 1º visconde, e 1º conde de Januario, 
Januario Correia d´Almeida, ajudante de campo d´el-rei, 
gran-cruz de varias ordens nacionaes e estrangeiras, e deixa duas obras: 
«Um mez na guerra», folheto publicado em 1859 e que se refere as luctas civis, 
e revolta do Estado da India, em 1872.
Revista Brasil Portugal, 1 de Junho de 1901

Em 1872 um jornalista de Macau censurou na sua folha (O Oriente) alguns actos do governador d'aquella possessão, o sr. visconde de S. Junuario. S. exc.ª, - alludimos ao sr. Visconde, - aferindo a medida do seu procedimento pela dos nossos dignos governantes, Fontes e Companhia, julgou dever ser terrivel n´esta época em que Vidal suspira e Meyrelles vocifera. 

Foi. O jornalista foi encerrado n'uma prisão e a publicação do jornal suspensa; tudo isto sem formulas de processo. Alguns honestos e candidos burguezes, d'estes que ouvem, sem dormir, os dramas do sr. Ernesto Biester, lançaram um olhar de confiança para as regiões governamentaes e murmuraram: «Fontes será inexoravel». 

Faça-se-nos justiça: nunca esperámos que o governo portuguez desaffrontasse a opinião publica ultrajada pelo regulo de Macau, mas tambem não ousavamos esperar que fosse ridiculo. A imprensa da metropole, que protestára contra a arbitrariedade inaudita do sr. visconde de S. Januario, dava-nos pouco depois a seguinte noticia: «O governo não approva o procedimento do sr. visconde e julga necessario tomar medidas sérias ácerca dos ataques de que é alvo o governador de Macau». 

Esta resolução do governo é d'um comico inexcedivel. Os srs. Fontes e Companhia declaram que não approvam o procedimento insolito do governador de Macau. Mas esperara acaso o sr. visconde de S. Januario pela approvação do governo da metropole? Carece acaso o governador de Macau da sancção dos seus actos, pelo sr. Fontes? Que importa a quem não trepida perante a indignação geral e em face d´um attentado contra o direito individual e as liberdades publicas, que lhe importa, dizemos, a não approvação, apparente talvez, do sr. Fontes Pereira de Mello e dos seus collegas? Depois: carece o sr. visconde de S. Januario de incitamento a novas gentilezas? Lá o tem na resolução pusilamine do governo portuguez que não ousa reprovar o seu attentado e que se limita a não tributar publicamente ao sr. visconde um testemunho de reconhecimento. Lá tem o incitamento, a animação, na necessidade de adoptar providencias contra as offensas dirigidas á auctoridade n'estes ultimos tempos, necessidade reconhecida á ultima hora pelos nossos governantes. 

Mas a imprensa ministerial não tem a consciencia dos seus direitos; chega a sua degradação mercenaria ao ponto de defender estas miserias! Nem o perigo, que resulta da conservação d'ellas, realisada sem um protesto vigoroso, accorda alli o sentimento de indignidade abatida e aviltada! 

Quando amanhã os seus adversarios lhes quebrarem nas mãos a penna opposionista e os arremeçarem a uma enxovia, clamarão talvez contra a violação dos seus direitos, sem lhes acudir á mente a lembrança de os terem calcado aos pés! Quando uma instituição, sagrada como aquella, se prostitue e arrasta n'um lamaçal hediondo de venalidade e de mentira, quando a verdade tem de passar através as pennas assalariadas d'uns farejadores de conezias, essa instituição baqueou e perdeu o direito a ser respeitada. Do descobrimento ou desprezo dos seus deveres, resultou a perda dos direitos d'outr'ora. No seu aviltamento vemos a justificação de todas as tyrannias e a explicação de todas as torpezas. Á ultima hora sahe a defender o governador de Macau o sr. Thomaz Ribeiro. 

O tal poeta pede ao publico que suspendaseu juizo ácerca da arbitrariedade do sr. visconde de s. Januario. Appella o sr. Thomaz Ribeiro para o estado grave da colonia governada pelo sr. visconde, e pretende com esse facto justificar a arbitrariedade a que alludimos. Da defeza do sr. Thomaz Ribeiro só podemos tirar a seguinte conclusão: O sr. visconde de S. Januario declarou Macau em estado de sitio».

Não póde ser outra. 
Ao publico aconselhamos, se a nossa voz póde ser ouvida depois da do sr. Thomaz Ribeiro, que não suspenda a sua opinião sobre o inaudito attentado do governador de Macau. Haja incorruptibilidade ao menos n'este tribunal supremo, ja que vemos acolhidos attentados d'aquella natureza pela mais revoltante impunidade! 

Silva Pinto em Rompendo o fogo (há uns 40 annos), 1910
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