O bazar chinez e as casas de jogo

1896-1896, Eliza Ruhamah Scidmore. Macao, casa de jogo com janelas decoradas e lanternas
Eliza Ruhamah Scidmore. Macao, 
casa de jogo com janelas decoradas e lanternas. 1896-1896

Seguimos depois por urnas ruas bordadas de lojas de objectos velhos, e entrámos no chamado «bazar chinez», bairro em parte modernamente construido, já com certa regularidade e asseio, e onde ha um movimento e animação extraordinarios. São ali as lojas dos objectos de proveniencia da China, desde os bem sortidos armazens e estancias de fructas e de comestiveis, até o pannos, seda e ourivesaria. As ruas são limpas e alinhadas, mas estreitas. As casas todas da mesma construcção e feitio, com as lojas decoradas com grandes taboletas douradas, onde se lêem sentenças e maximas chinas, e ornamentadas com flores e lanternas. O bulicio e o borborinho são grandes, e enorme a concorrencia de homens e mulheres chinezas, vendo-se entre estas algumas de pés microscopicos, andando difficilmente, e abordoadas a um guarda-sol, conservando um difficil equilibrio sobre aquelles pequenos pés calçados com sapatinhos de bonecas.

Havia por ali numerosas casas de jogo do fantan, que se distinguiam pela sua pintura verde, e por grandes lanternas, tendo á entrada nichos e altares, onde ardiam pivetes e vélas, alumiando feios idolos pintados com cores muito vivas, em posições arrogantes e com dragões e feras impossiveis. As casas da loteria de vae-seng, do pacapio e de outros jogos, eram tambem muito frequentadas, e distinguiam-se igualmente pelas grandes lanternas, taboletas, flores e pinturas em quadros muito alongados e estreitos. É que o jogo de azar é o vicio dominante do chinez, e que da exploração d´esse vicio tirâmos nós o principal rendimento da colonia, arrematando o exclusivo de taes jogos. É este o caso do fim não justificar os meios…

Entrei em uma das casas do fantan. Está a banca estabelecida em um primeiro andar, havendo por cima uma galeria, onde tambem estão jogadores, que descem as suas paradas, ou recebem as pagas por meio de pequenos cestos, que baixam ou içam por um cordel. Em torno da mesa, e na galeria superior, havia diversos jogadores, sentados ou acocorados sobre cadeiras chinezas, e que apparentavam uma gravidade de senadores romanos. Os jogadores recostavam-se sobre a mesa, ou sobre a grade da galeria superior, assistindo silenciosos e apparentemente indifferentes á contagem das sapecas. Um china fazia a escripturação, e outro, armado de um pequeno bambu, separava de um monte de sapecas, que collocara diante de si, uma a uma aquellas moedas, contando vagarosamente de 1 até 4, para achar o resto d´aquella divisão. O numero resultante, 0, 1, 2, ou 3 determinava o ganho, podendo, como na roleta hespanhola, fazer-se diversas combinações, jogando-se aos lados, ás côres, ás maiores, ás menores, aos pares, aos impares, que sei eu?

Havia olhos chinezes tão exercitados, que muitas vezes, chegando-se ao meio d´aquelle monte de sapecas, já sabiam o numero que ganhava, por poderem marcar o das moedas que havia ainda no monte! 

Parece que n´aquelle jogo tudo se faz muito licitamente, não tendo os banqueiros interesse directo no resultado d’elle, porque são pagos pelos arrematantes do exclusivo para fazerem aquelle serviço. Estes são previdentes, e têem ali empregados para avaliarem as joias, relogios, fato e tudo que o jogador infeliz leva comsigo e queira empenhar para tirar uma desforra, quando a sorte lhe tenha sido adversa. Se estes objectos não são resgatados em prasos determinados, são vendidos em hasta publica, com conhecimento e assistencia das nossas auctoridades, havendo sobre aquelle ramo de exploração commercial uma escripturação muito regular e completa. 

A loteria do vae-seng dá logar a lucros fabulosos, e é muito estimada pelo chim. É regulado o premio grande pelo numero do estudante de medicina, que terminou os seus exames nas escolas da provincia de Cantão, e de tres em tres annos em Pekin. Esta loteria, que é severamente prohibida na China, é a que tem mais apaixonados, sendo vendidos lá por contrabando a maior parte dos bilhetes. Não pode fazer-se idéa das enormes corrupções e vexames a que dá logar, já da parte dos mandarins e auctoridades, que a consentem mediante lucros e exacções horriveis, já da parte dos professores das escolas que se vendem, qualificando melhor os estudantes que menos o mereciam, já, finalmente, da parte dos proprios estudantes, que tinham mais probabilidade de melhor classificação, e que não concorrem ao exame para receberem grossa paga d´essa abstenção. Cada uma das grandes loterias triennaes, que são as que decidem de maiores fortunas, trazem muitos casos de suicidio, com que o china, arruinado no jogo e com o desprezo que tem pela vida, põe termo á existencia, na esperança de voltar depois ao mundo e de animar talvez o corpo de um poderoso mandarim.

Seria interminavel a descripção de todos os jogos a que aquelle povo se entrega, desde o das pedrinhas do culi da cadeira até o pacapio, ou loteria chineza, que se faz dariamente, e em que se compra um bilhete, que tem escriptas um certo numero de letras, ou caracteres chinezes, dos quaes se marcam ao acaso cinco, fazendo-lhes um borrão com um pincel. Se todas aquellas letras, ou o maior numero d´ellas se encontra em uma sentença, ou maxima, que diariamente se tira ao acaso, assim se ganha ou perde. E n´estas irresistiveis tentações vae o chim arriscar a sua fortuna e a de sua familia, na resolução de, não sendo afortunado, rasgar friamente o ventre, ou degolar-se, para fugir á miseria a que o seu vicio o conduzira.

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896
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