Macau, uma terra de mulheres feias


Passou por Guimarães, hospedando-se n´uma estalagem do Campo do Toural, uma rapariga que, posto vestisse europea, parecia chineza: era pequenina, tinha os olhos talhados em amendoa, e uma pallidez docemente mongolica. 

Tão estranha apparição deu rebate em toda a villa, despertando, especialmente, a curiosidade dos rapazes mais avantajados em conquistas amorosas. A rapariga viajava só e o povo, logo que a viu, começou a dizer que era uma «china». O seu sorriso um pouco provocante denunciava facilidade de costumes, e o facto de viajar sósinha auctorisava a julgar que a denuncia do sorriso era verdadeiro e calculada. Os fidalgos de Guimarães, alvoroçados com esta apparição picante, começaram a fazer curvetear os seus cavallos deante da modesta estalagem do Campo do Toural, para attrahir a «chineza» á janella. 

O Lobo da MadragôaAntonio Lobo viu isto e sentiu-se mordido na sua vaidade de conquistador burguez. Emquanto os fidalgos iam galanteando da rua, resolveu elle, audazmente, enfiar pela escada acima e dirigir-se á mysteriosa desconhecida. A sua boa fortuna no amor não lhe falhou ainda esta vez, porque a «chineza», que estava morta por encontrar um homem mais audaz que os outros, recebeu-o amavelmente.

Sem o menor rebuço contou a Antonio Lobo a sua vida. Tinha nascido em Cantão, onde era «tancareira», isto é, tripulante de «tancá», pequeno barco de bambu, muito leve, que as tripulações, quasi sempre femininas, tiram facilmente da agua, trazendo-o ás costas para terra. De Cantão levara-a para Macau um criado de Antonio José Telles da Silva, capitäo geral d'esta colonia portugueza. 

Antonio Lobo não conhecia os costumes de Cantão e suppoz que «tancareira» era pouco mais ou menos a romanesca gondoleira de Veneza, cantada pelos poetas. Ora a «tancareira» é por via de regra uma creatura de costumes destragados, solta de lingua, que pragueja, que berra, que esbofetea as outras se lhe querem disputar a algum passageiro. Esta chamava-se Min, o nome mais curto de que eu tenho conhecimento em mulher chineza.

O criado do capitão geral era natural de Chaves, e emquanto estivera em Macau sempre a tratara com muito carinho, talvez pela razão de não poder encontrar melhor companheira n´uma terra de mulheres feias. Muitas vezes lhe promettera trazel-a comsigo para Chaves, quando o seu amo recolhesse ao reino. Succedeu, porém, que Telles da Silva, tendo querido repellir o jugo chinez e fazer frente ás exigencias dos mandarins, foi victima da sua coragem patriotica, porque, em vez de voltar á metropole, teve que retirar-se para Goa sob custodia.

Desgostoso, despediu todos os criados e ficou na India, abatido de animo, á espera que se desfizessem os enredos que o tinham apeado. O seu criado de Chaves embarcou para Portugal e trouxe comsigo a chineza, como lhe havia promettido. Mas pouco depois de ter chegado a Chaves reatou amores com uma patricia que tinha namoriscado antes de ir para Macau, e poz a chineza na rua, abandonando-a em terra estranha, sem recursos para repatriar-se. Ella mettera-se ao caminho, perseguida pelas vaias das mulheres de Chaves, e ali estava em Guimarães de passagem para o Porto, onde em ultimo caso procuraria agenciar modo de embarcar para Macau. E chorava a sua desgraça, tão longe da patria, n´um paiz onde ninguem a conhecia e onde provavelmente não encontraria protecção alguma. 

Antonio Lobo, antegostando o prazer de uma conquista anormal, deante de uma mulher que representava para elle um typo completamente novo, uma aventureira do Oriente, flôr da raça mongolica transportada ás regiões occidentaes, e n´ellas abandonada e desprotegida, sentiu exaltar-se a phantasia e commover-se o coração. Prometteu á chineza affectuoso amparo e viu-a então sorrir depois de ter chorado, coisa encantadora de novidade para elle, que não conhecia senão os sorrisos das mulheres de Guimarães, tão alegres no amor que pareciam rebeldes ás lagrimas. O que é certo é que Min tinha o coração cheio de odio e de fel contra todos os homens que encontrava em Portugal.

Em geral os chinezes detestam os extrangeiros, a que chamam «fancuai», diabos, e ella tinha razões especiaes para aborrecer os portuguezes, raça a que o seu perfido amante pertencia. O que Min procurava era um homem no qual pudesse cevar a vingança do desamparo em que, muito longe da patria, se encontrava agora. Essa victima apparecera-lhe, finalmente: era Antonio Lobo, uma creança, menor de vinte annos, e de imaginação exaltada. Elle viu n'ella apenas a filha de um vasto imperio remoto, com todos os caracteres de uma raça differente da sua; a creatura que lhe devia revelar mysterios ineditos das intimidades amorosas do Oriente, e fallar-lhe das tradições poeticas da gruta de Macau onde Camões compuséra muitas e sublimes estancias dos Lusiadas. 

De mais a mais, Antonio Lobo sentiu-se grandemente lisonjeado de ter captado as boas graças da chineza primeiro que todos os fidalgos de Guimarães, netos dos godos. Por sua vez contou elle a Min o pouco que da sua historia havia a contar: que já não tinha mãe, que o pae estava doente, e que possuia alguns bens de fortuna, achando-se elle legalmente emancipado. Este programma era sobremodo convidativo para uma barqueira de Cantão, que desejava encontrar um portuguez em quem pudesse vingar-se de outro. 

Facil foi, pois, a conquista e o principio muito inebriante para o moço vimaranense. Min continuou na estalagem do Campo do Toural guardada á vista por Antonio Lobo como por um dragão rábido, que defendesse a integridade de um precioso achado. Elle apenas fazia algumas fugidas para ir ver o pae, como costumava, e logo depois voltava para junto da chineza, a ouvir-he contar historias do seu paiz, a que achava muita graça.

O filho do ourives cuidou morrer a rir quando ella lhe gabou os melhores petiscos culinarios do seu paiz, taes como caranguejo com ovos e costelêtas de cão de lingua preta com óleo de ricino. E já não podia aguentar as lagrimas que o riso lhe provocava quando ella lhe disse que os seus patricios comiam todos esses saborosos pitéos com o auxilio de dois pausinhos, que serviam de garfo, colhér e faca.

Ao cabo de vinte e tantos dias de idillio chinez, Antonio Lobo voltou muito alvoroçado á estalagem para dizer á Min que o pae tivera novo ataque de paralysia, e que estava em perigo de vida. A «tancareira» sentiu um intimo prazer, porque se aproximava a hora da realisação do seu ideal. Mas apparentou profunda magua, e disse a Antonio Lobo que corresse para junto do pae. Elle assim fez. Dois dias depois morria o honrado Diogo Ferreira, christamente tranquillo, e contente de ver ao pé de si o filho querido. A chineza entrou na camara ardente e pôde facilmente chorar junto ao cadaver de um homem que ella nunca tinha visto... mais vivo.

Uns quinze dias depois, Antonio Lobo, fascinado pela sereia de Cantão, ausentou-se de Guimarães com ella. Este caso dera muito que scismar, especialmente ás raparigas vimaranenses, que não chegavam a comprehender como um rapaz de bom gosto (diziam ellas, modestia á parte) podia ter prejudicado de um momento para outro a sua tradição galante, apaixonando-se por uma chineza, que não valia o calcanhar de uma qualquer minhota, rosada, fresca e polpuda. 

Os fidalgos de Guimarães, despeitados por lhes ter sido preferido o filho do ourives Diogo, tambem eram da mesma opinião, com o que nada tinham a perder, pois que lisonjeavam a vaidade dos suas patricias. Os homens bons do povo e os frades de S. Francisco, principalmente frei Salvador da Guia, lastimavam que os haveres do defunto ourives, tão laboriosa e honestamente amealhados, fossem rolando vertiginosamente por um declive, onde não tardariam a desapparecer. Todas as outras pessoas que tinham aggravos de Antonio Lobo, porque elle os maltratam alguma vez em prosa ou verso, desforravam-se chamando-lhe doido e dissipador.

Algumas chegavam a censurar a memoria de Diogo Ferreira que, devendo conhecer o filho, commettéra, por falta de atilada previdencia ou por affectuosa fraqueza, o erro de emancipal-o, precipitando assim o desbarate de um peculio, que ninguem imaginava ser tão importante como realmente era. Disse-se logo, por communicativa phantasia, que Antonio tinha ido com a chineza para Macau, aonde ella o attrahia com o fim astucioso de repatriar-se á custa d´elle. (…)

Nunca nenhum chinez nos perdoou que tivessemos occupado Macau. Os nossos capitães geraes ou transigiam com os mandarins para conservar o cargo ou, se reagiam dignamente, eram victimas da sua honesta energia. Mais ainda, o leal senado e em grande parte o espirito publico estavam tão abatidos de brios, que preferiam a paz indecorosa á guerra aberta com os mandarins. 

Min, como todos os chinezes de Macau maldizia do capitão geral Telles da Silva, que procurara fazer um governo forte, patriotico e authonomo. Não só os portuguezes, mas os proprios chinas, lhe tomaram medo. Uma noite foram presos pelo ronda dois chinas, um dos quaes parece que morreu por effeito de pancadas que lhe deram os soldados. No dia seguinte não appareceram nem o morto, nem o vivo. Dizia-se á bocca pequena que o capitão geral, para evitar novos conflictos, os tinha mandado metter na mina ou lançar ao mar. Um christão foi denunciar este acontecimento aos mandarins, que vieram a Macau exigir a entrega dos dois presos vivos ou mortos, e que, não Ihes tendo sido entregues, ordenaram aos chinas que fechassem as lojas do bazar e sahissem da cidade. 

O capitão geral não trepidou, manteve a sua attitude energica, mas a população alvoroçou-se com a falta de viveres logo que o bazar fechou. A pedido dos habitantes, intervieram os jesuitas, procurando acalmar os mandarins com dadivas de dinheiro, satisfazendo-lhes assim a natural rapacidade, seu principal mobil. Cotisaram-se os moradores portuguezes de Macau para que os mandarins pudessem receber grandes sommas de taeis e, feito isto, o bazar reabriu as suas portas. Teve o capitão geral de transigir n´uma só coisa, para não sacrificar a população, e foi em destacar para Timor os soldados que prenderam os dois chinas e os maltrataram. 

Mas procurou tirar logo desforra d´esta forçada transigencia. Conseguindo averiguar que o christão delactor fôra um macaista, de appellido Franco, mandou-lhe dar trez saltos de polé, para mostrar aos mandarins que mantinha firmemente o principio de auctoridade, e aos portuguezes que não podiam impunemente desgostal-o. D´este e outros actos de energia nasceram os enredos, tecidos até pelos proprios portuguezes subservientes, que lograram depor o audaz capitão geral. 

Foi n´esta epoca que a «tancareira» Min conheceu Macau. Tudo lhe desagradava ali, a começar pelo capitão geral, primeiro inimigo dos chinezes, que ella via sempre com maus olhos quando elle descia da fortaleza do Monte acompanhado por um sargento e mais doze homens de clavinas carregadas.

Mas astuciosa como todas as mulheres, especialmente as da sua raça, empavonava-se de ridicula vaidade quando ia a Cantão embarcada n´uma lorcha, com o criado de Telles da Silva; perante as suas antigas companheiras mostrava-se contente e orgulhosa da vida senhoril que levava em Macau. O primeiro portuguez com quem a «tancareira» pôde desabatar todos os seus odios contra os portuguezes na China, foi Antonio Lobo, e fel-o com a vehemencia inherente á satisfação de uma vingança longo tempo represada.

Antonio Lobo acreditou-a facilmente, por suggestäo amorosa e, para lisonjeal-a, escreveu de um jacto o soneto, que não corrigiu nunca e que é dos peiores que elle deixou. Ao contrario do que se dizia em Guimarães, a «tancareira», em vez de descobrir o seu plano de repatriar-se, apenas tratou de arrancar á terra natal o filho do ourives, para o affastar desde logo de quaesquer influencias que poderiam arrebatar-lhe das garras a présa.

Poz em acção toda a astucia de que era capaz como mulher, como chineza, e como pessoa já experimentada pela desgraça. Levou Antonio Lobo para o Porto, onde ella pensou encontrar navio que, na primeira occasião, a reconduzisse a Macau. N´aquelle tempo a cidade do Porto era escassa de distracções, apenas trabalhadora e burgueza, cristalisada na austeridade melancolica do seu primitivo burgo episcopal. Min simulava gostar mais do rio que da cidade, e guiava ardilosamente todos os seus passeios para os caes da ribeira, especialmente desde Cima do Muro até ao estaleiro do Ouro. Interessava-se muito em examinar o grande numero de naus que ainda n´esse tempo fundeavam no Douro, procedentes do Brazil, de França, de Flandres e de Inglaterra.

Procurava, com disfarce, um navio que pudesse leval-a para Macau, porque não pensava n´outra cousa. Antonio Lobo não suspeitava d´este intento reservado, e parecia-lhe natural que a antiga «tancareira» de Cantão gostasse de vêr um rio, onde, de mais a mais, navegavam constantemente pequenos barcos tripulados por mulheres, as esbeltas raparigas de Avintes, remadoras possantes. 

Contrariada por não achar o que procurava, Min desforrava-se juntando larga provisão de valores, como quem prepara viatico para longa viagem. Fazia amiudadas compras de objectos de ouro, prata e fazendas de lã e seda na rua das Flores, que era n´esse tempo onde estavam concentradas as mais ricas e mais variadas lojas da cidade; que era, n´uma palavra, o Chiado portuense de então. Antonio Lobo andava sempre de bolsa aberta, e não discutia despezas, quando a chineza lhe requebrava os olhos n´uma doce languidez perturbadora. Deixa-va-se queimar n´aquelle estranho fogo do Oriente, que o abraçava, e ao qual a já começada Torre dos Clerigos, se lhe puzessem dentro uma alma de vinte annos, não lograria resistir. 

Sabia a «tancareira», sem nunca perder de vista o seu principal cuidado, empregar agradaveis artes para ir distraindo Antonio Lobo com os aspectos da cidade, surprezas galantes e expedientes graciosos. Umas vezes vestia-se de portuense, de saia preta e mantilha de côca, como as melhores damas da cidade. Outras vezes imitava o trajo das camponezas do arrabalde e arreiava-se com muito e pesado ouro macisso. Um dia tinha o capricho de percorrer as ruas em cadeirinha ou de passeiar em sege até á Foz e Mattosinhos; outras vezes, á luz do dia ou ao clarão do luar, embarcava rio acima com Antonio Lobo, escolhia barqueiros que soubessem tanger algum instrumento e gosava assim um dos poucos habitos alegres da cidade, tal era o que então se denominava «Furias do rio», isto é, excursões fluviaes, ruidosas e concorridas. 

Aquella pequenina mulher, sempre astuciosa e reservada, procurava com todos estes artificios prender Antonio Lobo a uma cidade, que não possuia seducções estonteadoras, nem sequer distracções variadas. O Porto, com os seus sessenta mil habitantes, tinha o aspecto rude de um burgo methodico e Iaborioso. Não era uma cidade que sorrisse. A apparencia das ruas e das casas dava uma pesada sensação de monotonia uniforme. Quasi todos os predios eram esguios, de trez a cinco andares, e as ruas estreitas, o que afogava dentro d´ellas a vista, confrangendo-a. (…)

Min não queria sair do Porto emquanto não perdesse a esperança de encontrar transporte para Macau, mas, quando se convenceu de que só poderia achal-o em Lisboa, foi ella propria que tratou de apressar a viagem empregando recursos habilidosos. 

Recorreu ao grande expediente de todas as mulheres: o ciume. Levava Antonio Lobo a praças mais concorridas de regateiras guapas, lindas mocetonas que vendiam pão, aves e fructas (...), e accusando-o de olhar com muita attenção para todos esses bellos exemplares de mulher portugueza.
Elle defendia-se com tanta convicção e verdade, que a chineza acabava por se convencer de que não era aquelle o melhor caminho para conseguir o seu fim. Resolveu então, comquanto este novo processo pudesse ter maior risco, atormentar de ciumeira o coração de Antonio Lobo. Ella bem sabia que tinha dado nas vistas do Porto, o que aliás era natural, pois que se evidenciava não só pelos caracteres de raça, como pela variedade e riqueza de trajos e adornos, e ainda pelos seus passeios em cadeirinha, em sege e em barco. Até então era a chineza que se retrahia n´um grande ar de honestidade intangivel, quando os portuenses a miravam com apetitosa curiosidade; agora, mudára de rumo, e era ella mesma que os atiçava com olhares inflammaveis, provocando-os a observal-a e seguil-a. 

Antonio Lobo, que não deixava Min um momento em liberdade, lisonjeava-se de vêr como ella despertava cada vez mais a attenção dos homens, e orgulhava-se da sua conquista sem olhar ao preço por que lhe sahia. Tinho começado o verão de 1750. Um domingo, no rio Douro, Lobo sentiu a vertigem do ciume, quando notou que um barco, conduzindo rapazes do commercio, seguia a pequena distancia o seu barco, e que um dos rapazes ia cantando trovas de amor, provavelmente dirigidas a Min. D´esta «Furia do rio» voltou Antonio Lobo furioso. Fez uma scena de ciume, e disse imperativamente á chineza que linha resolvido sahir do Porto. 
- Para onde? perguntou ella. 
- Está claro que para Guimarães. 
- Tudo menos isso, replicou Min. Estou farta de aturar o odio e os insultos das femeas rudes de Chaves e Guimarães, de todas as estupidas mulheres de aldea. Se queres sahir do Porto, não sou eu que hei de contrariar-te; mas com a condição de que não sahiremos d´aqui para uma terra mais pequena. Amo-te sinceramente, custar-me-ia muito ter que separar-me de ti; mas se teimasses em voltar para Guimarães, deixar-te-ia. 
- Para onde havemos de então ir? perguntou Antonio Lobo meio aturdido por tão resoluta e inesperada declaração.
- Uma cidade maior que o Porto só Lisboa. Não tem que pensar. 
- E o que hei de eu lá fazer? 
- O mesmo que fazias em Guimarães e que fazes aqui. Min quiz temperar a rispidez d´esta phrase com um sorriso dengoso, acrescentando: 
- Amar-me. 
Lobo replicou com vivacidade: 
- E ser amado. 
A chineza correu para elle, apertou-o meigamente nos braços, pousou-lhe um beijo na bocca (...).

Decorridos oito dias, fins de julho, o filho do ourives de Guimarães e a «tancareira» de Cantão desembarcavam no Caes da Pedra. Foram hospedar-se ali perto, na estalagem do Rebôto, porque a chineza, seguindo sempre o seu plano, queria ficar perto do Tejo. (...)

A cidade offerecia no seu aspecto geral um profundo contraste com o Porto. Era grande, alegre no exterior, magestosa, quasi monumental. (…) Na estalagem do Rebôto entravam muitos homens do mar, porque o proprietario era um velho carregador da carreira do Brazil, que traficara de conta propria e juntára dinheiro. Dizia-se que tinha negociado em escravos, e que fôra essa a principal origem do seu cabebal. Pois ahi mesmo, dentro da estalagem, não se fallava senão da doença de el-rei D. Joäo V, e da sua morte proxima. 

Até a chineza parecia agora mais reconciliada com os portuguezes, por dó de sua magestade fidelissima. Conversava com os homens do mar, especialmente com o dono da estalagem, e ia repetir a Antonio Lobo as noticias, nada vez peiores, que de hora a hora se espalhavam por toda a cidade. A occasião, por ser de alvoroço geral, pareceu a Min a melhor possivel para tratar da sua repatriaçäo. O proprio Lobo queria estar ao corrente do que se passava, e encarregava-a de o saber na estalagem. A chineza não perdeu o ensejo, e conluiou-se com o velho Rebôto, que por sua parte não perdia qualquer opportunidade de ganhar dinheiro. Estava a partir do Tejo, disse-lhe elle, um navio que tocava em Macau. Dentro de poucos dias devia levantar ferro (...); e todos os segredos se podiam guardar com segurança pondo-lhes dinheiro em cima. 

Ficou o negocio combinado. El-Rei D. João V podia viver ou morrer, que a chineza não se importava nada com isso. Sexta feira, 31 de julho, pouco depois das sete horas da tarde, troou a artilharia e dobraram todos os sinos da cidade. Era um enorme estrondo funebre, que retumbava dentro de todos os predios e de todos os corações. O grande rei havia expirado, e todo o povo chorava por elle. (...)

Antonio Lobo e Min pareciam impressionados por esse estranho espectaculo do funeral de um cézar augusto; Min, com ser estrangeira, ainda pouco antes de adormecer dizia que os portuguezes tinham razão para chorar a perda de um grande rei, e que ella propria estava perturbada de contagiosa commoção. 

Pela manhã, Antonio Lobo estranhou a falta da chineza. Perguntou por ella. Havia desapparecido, levando comsigo todo o dinheiro que encontrara. A morte tinha roubado um rei ao seu povo. A «tancareira» de Cantão roubara todo o dinheiro ao amante. Noite fatal e tremenda! (…)

Antonio Lobo começou a vêr claro, a lêr toda a verdade nas entrelinhas do passado, reconhecendo que tinha sido apenas um instrumento de ignobil especulação nas mãos astutas da chineza. (...)

- Vim cahir, como um patau, no estafermo da china.

O lobo da Mandragôa de Alberto Pimental, 1904
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