Macau pelo Conde Benyowsky, 1771

Conde Benyowsky
Quarta-feira, 21 de Setembro. (…) Finalmente fizeram-me compreender que Omy é o nome chinês de Macau. Às onze e meia avistámos a fortaleza, com a bandeira portuguesa hasteada. Ao meio-dia, em frente ao forte, saudei-o com uma salva de doze tiros de canhão.

Quinta-feira, 22 de Setembro. À uma e meia da tarde estávamos mesmo à entrada do porto onde vimos diversas embarcações ancoradas. Às duas, ao passar a barra foi-me dado sinal para que ancorasse; como não achei necessário perder tempo com cerimoniais supérfluos, entrei no porto e ancorei, finalmente, perto da fragata de quarenta canhões, em águas com quatro braças de profundidade. Mal terminei a manobra saudei o pavilhão do almirante com uma salva de vinte e quatro tiros e ele respondeu com doze. Desembarquei de seguida indo imediatamente para terra e, ao passar perto do comodoro, fui visita-lo. Ao chegar a casa do Governador fui admitido num átrio, que encontrei cheio de padres e monges e entre os quais reconheci diversos negros das Ilhas Canárias. Algum tempo depois o Governador, o Sr Saldanha, chegou e recebeu-me com grande delicadeza. Depois de o pôr a par dos meus infortúnios e da minha libertação, deu-me autorização para alugar casas na cidade para acomodar o meu pessoal até ter uma oportunidade de os enviar de regresso à Europa. Vários funcionários da magistratura, que se encontravam presentes, expressaram algumas suspeitas em relação à minha pessoa, razão pela qual, para evitar discussões, achei aconselhável entregar, como depósito, o meu navio nas mãos do Governador (…). Após esta reunião o Governador encarregou o Sr. Hiss, um senhor de origem francesa mas sediado em Macau há vários anos, de me ajudar a tratar dos meus assuntos e servir de intérprete. Às seis da tarde, tendo vindo a guarda a bordo, procedi ao desembarque do meu pessoal. No primeiro dia os meus companheiros ficaram alojados numa hospedaria e o excesso e avidez com que devoraram o pão e as provisões frescas que lhes foram servidos custaram a vida a treze deles. Morreram de repente tendo outros vinte e quatro ficado gravemente doentes.

23 de Setembro. Tendo o Sr. Hiss encontrado duas casas apropriadas, aluguei-as e para lá fui residir com os meus companheiros. Neste dia jantei com o Governador, na companhia de diversos padres que, a partir desse momento, aspiraram à glória de converter os meus companheiros à religião romana. Ao regressar a casa encontrei o meu pessoal comodamente instalado, e um apartamento preparado para mim, com mobília que o Governador cedeu da sua própria casa. Utilizei o dia para visitar o bispo de Mitelopolis, o Procurador da cidade, os diversos conventos e os habitantes mais influentes. Dei também instruções para vestir o meu pessoal em conformidade, em branco e vermelho, bem como os oficiais; as senhoras portuguesas encarregaram-se de fornecer guarda-roupa para as viajantes femininas. Quando se fizeram as contas, os custos foram estimados em oito mil piastras e a despesa mensal de alojamento e alimentação somou seis mil e duzentas piastras.

No dia 24 recebi as visitas do Governador e dos homens mais influentes da cidade, bem como do bispo, acompanhado de diversas ordens religiosas; todos eles me acompanharam ao «Hoppo», ou governador chinês, que nos serviu chá e doces; neste mesmo dia morreram mais três dos meus companheiros e a sua conversão foi anunciada em toda a cidade. Nessa noite, um padre dominicano, amigo do Governador, chamado Zumitta, veio ter comigo oferecendo toda a assistência que lhe fosse possível. Pensando que poderia transaccionar as minhas peles por seu intermédio, propus-lhe o negócio e ele concordou em levá-las. Entreguei-lhe portanto quatrocentas e oitenta dúzias de arminhos; ele concordou pagar 50 piastras por cada castor, seis piastras por cada zibelina e oito piastras por cada dúzia de arminhos, o que atingiu a soma de vinte e oito mil quatrocentas e quarenta piastras, o total e único remanescente da tão considerável fortuna que eu tinha trazido de Kamechateca! Uma mísera amostra, dificilmente suficiente para pagar as despesas de aportar em Macau. Também neste dia dei ordem para libertar o Sr Stephanow da sua reclusão, tendo recebido dele um pedido de desculpa formal; a cidade deu-me, nesse mesmo dia, um presente de mil piastras em ouro, quarenta e duas peças de pano azul e doze peças de cetim preto; o presente era acompanhado de um pedido: que eu depositasse nos seus arquivos uma cópia do meu diário. Prometi aos seus representantes que lhes oferecia um extracto histórico, uma vez que não poderia, sem prejuízo dos meus próprios interesses, privar-me do mérito do meu manuscrito; nesse dia jantei com o bispo de Mitelopolis, Sr. Le Bon, de origem francesa, e acordei com ele que pediria a protecção da bandeira francesa para a minha passagem para a Europa, para o que ele me prometeu aconselhamento e ajuda. (…)

No dia 22 fui atacado de uma febre violenta e o Governador teve a bondade de me oferecer aposentos na sua casa. Aceitei esta oferta com o maior prazer (…), onde a minha doença se prolongou até 18 de Novembro. Durante esse período quatro dos meus companheiros e três das suas mulheres faleceram. A lista dos que morreram em Macau é a seguinte: Miss Anastasia du Nilow (...). 

A 25 de Novembro o Governador, vendo a minha saúde restabelecida e decidido a que eu voltasse a morar junto com os meus companheiros, informou-me de que tivera, durante a minha doença discussões com os chineses por minha causa, pois os directores ingleses os tinham informado de que eu era um pirata e um desertor dos russos e que, ao receber esta informação, o Governador ou Vice-Rei de Cantão tinha ordenado ao Governador que me entregasse ou, de qualquer forma, me fizesse partir imediatamente, e que ele conseguira obter permissão para um adiamento até que eu melhorasse. Por esta razão aconselhou-me a fingir que continuava doente ate ao momento em que os barcos franceses estivessem prontos para partir. Pelo seu embaraço apercebi-me de que receava que o meu assunto se tornasse um problema para ele. Pedi-lhe, portanto, que se mantivesse neutral e resolvi tratar eu próprio do assunto com os chineses.

No dia 26 enviei, secretamente, o Sr. Hiss e o Sr Crustiew a Cantão, com um memorando para o Vice-Rei e uma carta para o Sr. Robien para que ele a apresentasse na audiência com o chefe chinês. Os meus enviados não regressaram até 3 de Dezembro, quando me trouxeram uma chapa, ou autorização, para visitar o Vice-Rei de Cantão. Este dignitário imperial enviou-me uma soberba embarcação, equipada com sessenta e quatro remadores, ordenando que me fosse dirigida uma carta comunicando que ele fora informado da falsidade das insinuações contra mim e que esperava convencer-me da justiça que os chineses sabiam dispensar a heróis como eu. Esta disposição era lisonjeira (…). 

No dia 5, a data marcada para a minha partida, o Mandarim, «Hoppo» de Macau, informou-me que se eu não pretendia viajar até Pequim não valia nada ir a Cantão, uma vez que o Vice-Rei não tinha nada para me dizer (…).

No dia 20 dei ordens para preparar a nossa partida (…) ao serviço da Companhia Francesa das Índias Orientais. (…)

No dia 26, tendo sido informado de que deveria obter uma chapa, ou autorização, do Vice-Rei permitindo-me a entrada no rio Tigu, enviei o Sr. Hiss ao Vice-Rei em minha representação (…); regressou com a autorização, que me custou quatrocentas e cinquenta piastras para os três barcos que me deveriam transportar, e aos meus, até à foz do Tigu. No dia 2 vendi o meu navio a um mercador português pela soma de quatro mil e quinhentas piastras em dinheiro e outro tanto em crédito: o Governador guardou para ele o total da mercadoria armazenada. Entre os dias 5 e 12, dediquei-me a liquidar as minhas contas; após ter pago tudo, fiquei completamente falido.

No dia 13 despedi-me do Governador e dignitários da cidade e, ao fim da tarde, embarquei, com todos os meus companheiros, a bordo dos três sampans, para passar para o navio francês (...).

No dia 14 deixámos Macau, onde o Governador nos saudou com uma salva de vinte e um tiros da fortaleza principal e, após tediosa viagem, chegámos, por fim, à foz do Tigu, onde fomos muito delicadamente recebidos por um Mandarim, embora este, a princípio, se recusasse a autorizar-nos a desembarcar; no entanto, à vista de uma bolsa de piastras, abrandou a sua severidade, que foi de tal maneira alterada por esta circunstância que até nos permitiu alojar-nos no forte. A sua complacência foi muito conveniente, pois os barcos só chegaram no dia 22.

The Memoirs & Travels of Mauritius August Count de Benyowsky in Siberia, Kamchatka, Japan, the Liukiu Islands and Formosa, Apud Cecília Jorge e Beltrão Coelho em Viagem por Macau, 2014
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