Eduardo Nery em Macau

Eduardo Nery Eduardo Nery

Eduardo Nery, o poeta dos espaços públicos

Um grande painel de azulejo com 210 metros de comprimento, da autoria do pintor Eduardo Nery, evocando Macau como local de convergência das culturas portuguesa e chinesa, dá vida e cor à sala de partidas do Terminal de Passageiros do Aeroporto Internacional de Macau. Realizado na sequência de um convite do Governo de Macau, este trabalho é, no contexto da grande obra do Aeroporto de Macau, um testemunho contemporâneo e artístico que a Administração Portuguesa lega ao Território a poucos anos da respectiva cedência para a República Popular da China.

Eduardo Nery é o caso exemplar de um artista plástico cuja obra tem vindo ao encontro do público de uma forma muito directa, nomeadamente através da intervenção na estação e nos viadutos do Campo Grande do metropolitano de Lisboa, e também em pinturas murais, painéis de azulejo e muitas outras formas de intervenção plástica na arquitectura e no espaço urbano. Norteado por um objectivo de humanizar e poetizar os espaços públicos, mas ciente de que a comunicação que se estabelece com os portugueses é de alguma forma «imprevisível» por razões culturais. São preocupações diferentes as que o artista tem quando parte para uma criação que vai estar exposta ao domínio público. 

«Tento sempre adequar essas obras às características e à vivência própria dos espaços aonde serão integradas», explica, passando a exemplificar a sua actuação. «Por exemplo, no simbolismo dos vitrais que concebi para igrejas tive em linha de conta tratar-se de locais de recolhimento, aonde as pessoas parece terem tempo e predisposição para a contemplação de obras de arte, como num museu. Em contrapartida, na estação do Campo Grande por onde as pessoas passam a correr, recorri, por um lado, à vivacidade da cor e à leveza do ambiente, e, por outro, a ironia ou perplexidade dos utentes perante as deformações das figuras, numa forma de comunicação muito mais directa, mas na esperança de que as pessoas parem para as verem com mais atenção».

Eduardo Nery, em Macau, subdividiu o painel em sub-temas: as Religiões e os Mitos portugueses, o Mar que ligou durante mais de quatro séculos Portugal a Macau, aliás, cidade portuária e piscatória; a Ciência Náutica, a Cosmografia e a Astronomia na época da expansão marítima dos portugueses e no século XVI na China, prolongadas virtualmente por dois testemunhos da Aviação em Macau, nos anos vinte; e ainda personagens portuguesas na viragem do século XVI, destacando-se neste núcleo quatro bailarinos e um tocador de tambor, numa clara alusão à Música e à Dança, e portanto à Arte. Sem intenção narrativa ou didáctica, os motivos escolhidos referem-se quase sempre a um passado mítico.

A composição de todo o painel de azulejo foi estruturada com base numa malha geométrica de diagonais e de verticais, quase autónoma que organiza todo o conjunto. «Contudo, se esta vive por si própria em certas áreas do painel, ela também desempenha o papel fundamental de integrar e de agarrar os diversos motivos figurativos àquela malha.» Desta forma, crê o artista ter «equilibrado duas linguagens plásticas opostas; uma figurativa, e outra de abstracção geométrica, e por acréscimo organizar este extenso painel numa pulsação de claro-escuro e de vibração cromática, através de um ritmo contínuo, por vezes sincopado, que mantém sempre viva a percepção do observador».

Dada a vastidão da sala de partidas do Terminal do Aeroporto, o painel tem dupla leitura – de longe e em diagonal domina o jogo abstracto de ritmos ondulantes de luz e de cor, e de perto o observador descobre não só os motivos figurativos particularizados, mas também a modulação do claro-escuro e a intensidade de vibração cromática, baseada em diferentes harmonias na combinação em xadrez de 28 tons.

Fiel a uma identidade artística, Nery não sente a existência de condicionamentos por esta dedicação a obras públicas, que transpõem a barreira do recolhimento do atelier. Está sim preso a exigências de outra ordem: a adequação dos materiais e das técnicas à acção do tempo e do vandalismo, a criação para um espaço predeterminado, tendo que atender às suas dimensões e proporções, a luz que recebe e os ângulos em que a obra será vista. Muitos meses de investigação e uma ampla recolha iconográfica precederam a fase definitiva de «deitar mãos à obra». Até lá, nem tudo correu sobre rodas entre negociações a prazos para cumprir. «O que correu melhor foi a qualidade e a rapidez da execução dos azulejos na fábrica Viúva Lamego, dada a enorme dedicação e empenhamento dos seus pintores e gestores, face a prazos muito curtos. E também à eficiência dos técnicos da Soares da Costa e à grande rapidez do assentamento dos azulejos pelos seus operários, coordenados pelo gerente da Azulima. 

Na recente visita do Presidente da República a Macau, por ocasião da inauguração do Aeroporto Internacional, foi pela primeira vez criada a oportunidade de apreciar o extenso painel de azulejos (concluido mesmo a tempo para o acontecimento), que ocupa em toda a sua extensão a guarda da «mezzanine» na sala das partidas do edifício do Terminal de Pasageiros. «O Governo de Macau convidou-me directamente para fazer esta obra, acompanhou de perto as minhas maquetas, deu instruções à CAM (companhia concessionária do aeroporto) para que o painel estivesse concluído antes da inauguração, o que foi cumprido quinze dias antes dessa data.»

Eduardo Nery conjugou e deu sequência a algumas das suas experiências anteriores no domínio da «Op Art» hoje interiorizada na sua obra artística. A «Op Art» recuperada dos anos 60 é patente em trabalhos de Nery posteriores a esta década (…).

Homem Magazine, Fev. 1996
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