Anastácia Niloff e o Conde Benyowsky em Macau

vida e aventuras do conde Mauríce Auguste Benyowsky

A história de Anastásia Niloff. O caso ficou registado em The Annual Register de 1722, de Londres, e anotava o seguinte: Em 1771, no mês de Setembro, chegou a Macau uma embarcação com 65 pessoas a bordo, entre as quais cinco, vestidas de mulher. Uma dessas pessoas, tendo falecido, foi desembarcada para ser enterrada, e o capitão do navio, que tinha o título de barão Benyowsky, fez um pedido extraordinário ao Governador: que o cadáver fosse sepultado num lugar onde ninguém estivesse e que o barão pudesse prestar-lhe as honras fúnebres. Dois frades franciscanos, movidos de curiosidade, foram de noite abrir a cova e destapar o caixão. Deram com o corpo dum homem, o que causou escândalo na cidade. Interrogado o barão, ele deu como explicação que se tratava de um príncipe; ou do Império ou da Igreja, não ficou averiguado. É possível que o barco levantasse ferro, e o barão com os seus tripulantes desaparecesse. Mas as notícias que vieram de S. Petersburgo fizeram cair sobre Benyowsky um véu de mistério ainda mais denso.

Maurício Augusto Benyowsky era um general de cavalaria da Hungria. Tendo combatido os russos na Polónia em 1769, foi preso e enviado para Kamchatka com os seus soldados, para cumprir pena de trabalhos forçados. Sabemos que estes castigos não privavam os homens de liberdade e que eles se hospedavam nas cabanas dos aldeões ou até nas casas de gente de mais posição. O general, ao que se supõe, acabou por captar a confiança do Governador Niloff e entrou na intimidade da família. Era uma pessoa instruída (o que num soldado de cavalaria seria estranho se ele não fosse barão e talvez nascido na nobreza húngara, empobrecida pelos impostos que Maria Teresa lançava como contribuição para as despesas de guerra). Benyowsky devia pertencer à aristocracia que se opunha às ideias da camada intelectual, tanto terratenente como plebeia, favorável à filosofia do século das Luzes. Todavia, as reformas previstas por José II foram interrompidas pelos acontecimentos da Revolução Francesa. Os intelectuais reuniram-se nos seus clubes e nas lojas maçónicas, conspirando pela criação duma sociedade independente do governo de Viena. Os conspiradores foram inculpados, uns executados, e outros encarcerados. O modelo jacobino destas associações dera origem a uma organização presidida pelo abade Ignac Martinovies que viveu de 1755 a 1795. Alguns dos conjurados podiam estar, vestidos de mulher, no navio de aparência estranha que fundeou na baía de Macau em 1772.

A história romanceada do barão Benyowesky (ou Benyowsky) refere que ele fugiu com a filha mais velha do Governador de Kamchatka, Atanásia, apoderando-se duma corveta com a ajuda dos seus soldados depois de ter morto Niloff. Chegaram a Macau após uma viagem atribulada onde morreram muitos tripulantes e, possivelmente, Atanásia. Não era o corpo dum homem que os franciscanos descobriram, mas o de Atanásia vestida de homem. Foi sepultada na igreja de S. Paulo, e a sua sepultura comovia os visitantes, que deixavam mensagens piedosas sobre a tumba. 

Agustina Bessa-Luís em A Quinta Essência, 1999

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(...) Texto sueco, com a tradução de Consiglieri Pedroso: 
«Não se pode vêr, sem commoção, na egreja de S. Paulo, a sepultura que ainda ahi se conserva da joven russa, a qual n'ella descança, depois de ter seguido o audaz aventureiro conde Benyowsky, na sua fuga das prisões de Petropawlowski. Morreu ella de dôr, quando soube que o homem, a cujo amor sacrificou patria e familia, era casado (estas tristes aventuras são bem conhecidas até em toda a Suecia, para que tenhamos necessidade de n'ellas insistir).» 

Quem era este conde Benyowsky? 
Temos poucos dados a seu respeito, principalmente sobre a sua estada em Macau; mas conseguimos ainda assim apurar o seguinte: Mauricio Augusto, conde de Benyowsky ou Beniowski, nasceu em 1741 em Verbova, na Hungria, mas era de origem polaca. Serviu primeiramente como tenente no exercito austriaco, em que seu pae era general; depois de ter viajado na Europa, tornou-se, em 1768, n'um dos chefes da confederação do Bar, na Polonia, contra a Russia, que o aprisionou em Cracovia e o mandou desterrado, primeiro para Kasan e depois para Kamchatka. Ahi obteve as boas graças do governador Niloff, cuja filha mais velha se apaixonou por elle. O amor da pobre russa (com quem, segundo alguns, casou), abriu-lhe as portas da prisão em 1771, e com 76 companheiros e com sua amante ou esposa, fugiu para Macau. Quanto tempo se demoraria em Macau?

Morreria a infeliz Niloff, depois d'elle se ter ausentado da nossa colonia? Ou foi só depois da morte da amante que elle se lançou em novas aventuras, no termo das quaes havia de encontrar a morte? (*). 

Julien Mauvrac, na Conquéte de Madagascar, refere-se a Benyowsky nos seguintes termos: «A nossa colonia de Madagascar vegetava, no reinado de Luis XV, d'um modo bem precario quando appareceu o famoso Benyowsky. Mauricio Benyowsky, conde polaco, que os russos tinham internado no Kamtchatka, teve uma existencia que dependeu mais do romance que da vida real. Tendo casado (**) com a filha do director da cidadella em que estava preso, conseguiu fugir com ella até Macau, colonia portugueza, nos mares da China; foi ahi recolhido por um navio francez que se dirigia para Fort-Dauphin. Madagascar enthusiasmou-o. Foi a Paris, interessou os ministros nos seus planos e recebeu todos os poderes necessarios e o commando d'uma pequena tropa. No fim de tres annos, em 1776, graças a uma politica habil com os indigenas, foi o conde polaco proclamado rei; mas excitou a desconfiança dos nossos agentes e o ciume dos nossos officiaes, que se sentiam offuscados com a sua qualidade de estrangeiro. Veio a Paris, com um tratado de alliança; mas, nada conseguindo, devido a esses inimigos que creára e que difficultavam os seus projectos, sahiu de França. Retirou-se para os Estados-Unidos, onde recrutou partidarios, e em 1785 tornou a apparecer no seu reino. Agora, que já não combatia por ella, a França não podia tolerar este rei polaco e a sua guarnilão n'uma ilha considerada como colonia franceza. Um navio francez canhoneou-os no forte em que estes aventureiros se tinham refugiado, e Benyowsky foi morto por uma bala. Assim acabou este heroe de romance.» 

E assim terminou a aventurosa vida o amante da pobre abandonada, que em Macau tanto o chorou quinze annos antes, e cuja sepultura, na egreja de S. Paulo, sessenta annos depois, havia de excitar a commoção do escriptor sueco, cujo trecho transcrevemos e que certamente foi escripto antes do incendio de S. Paulo em 26 de Janeiro de 1835. 

Onde param os restos da infeliz? Estarão no chão da egreja ou nas paredes lateraes? Teriam sido transportados com as outras ossadas para o cemiterio de S. Miguel? Existirá ainda nas ruinas de S. Paulo a lapide da sepultura, no meio do chavascal em que ainda ha pouco estava convertido o recinto sagrado?  

Ta-ssi-yang-kuo; Archivos e annaes do Extremo-oriente portuguez, J.F. Marques Pereira. Série 1, vol. I, 1899 

(*) Publicadas em francez, em Paris, em 1791. Feller, a respeito d'essa obra, diz o seguinte: «Les Voyages et Mémoires, publiées sous son nom, Paris en 1791,- 2 vol. in-8º- ne sont à beaucoup d'égards qu'un roman, où il est difficile de distinguer les faits reels de ce qui est purement le fruit de l'imagination.» 
Terá razäo Feller. Mas haverá coisa mais romantica que a vida d'esse homem extraordinario? M.P.

(**) Grégoire, no seu Diccionario encyclopedico de historia, de biographia, etc., não diz que a filha de Nilloff fosse mulher do aventureiro, quando este fugiu de Kamtchatka: «Il gagna la faveur du gouverneur Niloff, et parvint à fuir, en lui enlevant sa fille...» 
Mas na obra «Madagascar», publicada em 1889, por ordem do sub-secretario das colonias, de França, vem o seguinte: «Au Kamchatka, le gouverneur le pria de donner des leçons de français à ses filles; l'ainée s'éprit bientôt de lui L'ayant obtenue en mariage, il fut à meme de mener à bien de projet d'évasion qu'il avait formé dès de prémier jour.» 
D'onde se vê que o desespero da infeliz menina foi provavelmente motivado pela circumstancia de se vêr casada com um homem já casado. Pela mesma obra se vê que Benvowsky, antes de chegar a Madagascar, estivera na ilha Formosa, onde chegára a persuadir os chefes indigenas da conveniencia da colonisação europea e chegou a fazer tentativas para esse fim, quando depois esteve em França. Foi depois da sua estada na ilha Formosa que chegou a Macau. MP
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