
Vista de Macau, George Chinnery
(aguarela, 1825-1852)
Até ali a China fôra para mim a terra classica do chá, dos mandarins, da porcellana, das caixas de camphora, vermelhas e douradas, a patria dos leques de charão com figurinhas de rosto amarello, olhos obliquos, cabaias de seda, rabicho, e de negras trunfas penteadas. Sabia terem lá chegado uns nossos avoengos (…), e n'uma peninsula d'aquella terra oriental se fundára a cidade do Santo Nome de Deus, e lá no extremo oriente era terra portugueza, longinquo marco milliario attestando o valor da gente lusitana (…), e mais sabia não haver litterato, que a proposito do poeta, e do poema Os Lusiadas poupasse phrases sentimentaes, relembrando a velha lenda da solitaria gruta de Camões.
Macau que eu tinha visto pintado n'uns paineis de artista chinez, trazidos pela gente da barca Martinho de Mello, e dos transportes, correspondia perfeitamente á China, que eu convencionára. A muralha da Praia Grande, as casas alinhadas e de varias cores, os serros coroados de fortins, o porto com os seus tankás, sampanas, e lorchas reflectindo-se nas aguas lodacentas, era bem uma terra da China já minha conhecida, um desenho dos leques de charão. (…) No bazar enxameavam milhares de chinas de cabaia. Fumegavam os pivetes em frente dos altares de Buddha. (…).
Macau ainda tinha um ar de festa. Estalavam no ar os panchões dos festivaes chinezes; sentiam-se as notas vibrantes dos clarins tocando marchas guerreiras nos quarteis, passavam na rua marginal as cadeirinhas transportando graves personagens, a rada, o porto interior mostravam aspecto pittoresco, as lanchas da capitania e da policia eram de um asseio exemplar, e as canhoneiras da estação naval, lindamente apparelhadas, pareciam hiates de recreio de lords millionarios, completando a belleza d'aquelle quadro primoroso. Macau era bem uma terra excepcional (…).
Como o quadro se transforma quando o tufão se arremessa impetuoso. Ante a horrivel realidade dissipam-se as illusões da phantasia. O mar da China é o mar tenebroso, o tufão o flagello de Deus, o terror dos navegantes. (…) O tufão approxima-se solemne, sinistro, ameaçador. Mensageiro da morte e da ruina, ruje, braveja, fere, desbarata, revolve as aguas do abysmo confundindo-as com as nuvens, ergue e desdobra as vagas inundando a terra n'um louco tumultuar de força bruta. (…)
O aspecto que offerecia o porto interior de Macau ao pôr do sol do dia 22 de setembro de 1874 era deveras magestoso. Ás 4h (p. m.) o pontão da policia - a lorcha Amazona - dera o tiro de annuncio do tufão. As collinas da cidade sinistramente illuminadas projectavam-se sobre um céo de chumbo, que pesava ao nascente, negra muralha de terrivel catadura, que em gradações de luz ia esbatendo para o zenith n'um tom acobreado, e descendo para o poente, onde a côr era já de um vermelho-purpurino, avivando as orlas das nuvens de fitas de um encarnado-tijolo em caprichoso zig-zag. (...)
Em porfiada regata dezenas de embarcações chinas, com as velas a meio mastro, bordejavam para agarrar o ancoradouro da margem norte do rio, usual refugio contra as iras da procella. Volteavam no ar enxames de insectos buscando abrigo. Sentia-se ao longe um ruido ainda mal definido, como o de milhares de vagas rebramando contra distantes penedias; tinha-se a nitida percepção de um grande perigo, que avançava em rapida carreira; um como presentimento de uma calamidade enorme, inevitavel, crueis ameaças de morte e de ruina. la no porto uma faina insana. Os navios preparavam-se para combater o vento. Reforçavam as amarrações, arriavam as vergas e mastareos, pregavam encerados sobre o xadrez das escotilhas, atracavam fortemente a artilharia, punham ferros á roga, promptos a largar, fumegavam as chaminés dos barcos de vapor, aprestando as machinas para a lucta, dispunha-se a gente a postos de manobra, emquanto os commandantes olhando a columna barometrica, que descia, sentiam mais esmagador o peso da responsabilidade do cargo, que exerciam, aguardando as variadissimas phases da peleja.
Anoitecera (…); arvores em terra recurvavam-se ao sopro da rajada, voavam as telhas dos telhados como folhas seccas desparzidas, gemiam portas e janellas fortemente trancadas para resistir á ventania, e o mar em temerosos escarceos galgava as muralhas das ruas marginaes, atirando os primeiros mortos, e os destroços das tankás, e das sampanas, sobre as rampas de desembarque e de encontro ao dorso das praias lodacentas. Ante os santos do oratorio, que a tormenta estremecia, ajoelhavam as damas macaistas implorando a Providencia; emquanto as chinezas queimavam papeis vermelhos, com orações pintadas pelos bonzos, aplacando o Buddah sentado sobre a folha do lodão, para que as livrasse do Long, o dragão (…).
A estação naval portugueza compunha-se de trez canhoneiras: 'I'ejo, Camões, Principe D. Carlos, e de algumas pequenas lanchas de policia. (…) A Camões está amarrada a 300m, no prolongamento da face S. da ponte dos vapores da carreira de Hong-Kong. (…)
Ás 9h 30' (p.m.) refrescaram as rajadas (…); o vento rugia com incrivel furia pelo N., o escarceo galgava as baixas amuradas. A escuridão era completa, apenas de espaço a espaço rasgava o negrume o fraco lampejo das luzes da lorcha, e do Poyang. Á 1h (a.m.), aproveitando um recalmão, largou-se para o fundo o ferro de E.B., arriou-se até ao chicote o fiel da cabresteira. Os escaleres quebravam-se nos turcos, que dobravam com o peso da rajada, e a canôa a barlavento, suspensa das talhas, oscillava dentro do navio. Nada mais occorria de notavel, o temporal parecia no seu auge, mas o barometro continuava a baixar, e ás 2h 50´ (a.m.) o aneroide marcava 0m,720, limite da escala. A esta hora já se não viam as luzes da cidade, e dos navios, a machina trabalhava com toda a força avante, a columna de ar, deslocada com incrivel velocidade, silvava no massame de arame da escuna. Era impossivel dar ordens, que ninguem ouvia, arrastadas e confundidas as vibrações sonoras nas ondas do ingente turbilhão.
Pouco depois das 3h (a.m.) cahiu de travez sobre a proa da Camões a lorcha Amazona. Era impossivel evital-a, a canhoneira não obedecia ao leme. O choque foi grande (…). A rastejar pela pôpa passava um vulto enorme. Era o White-Cloud. Rebentados os viradores dados para a ponte, lá ia impellido pela tormenta a Deus e á ventura. Salva estava a Camões d'aquella terrivel abordagem, quando uma grande lorcha de carga assentou o alteroso castello de pôpa dentro do navio, e correndo de vante até ré arrombou a amurada de B.B., rebentou as enxarcias do traquete e grande, as plumas da chaminé, e esmagou a canoa sobre a gaiuta da cosinha. Um grosso pranchão de carga, que trazia saliente do costado, varria como foice roçadora a tolda da escuna. A chaminé inclinava lentamente a sotavento, prestes a desabar.
Era urgente retirar o fogo, para o incendio não vir juntar seus damnos aos immensos perigos do tufão. De rastos, magoado por uma pancada do madeiro, que o colhera pelo peito, o commandante conseguiu alcançar a escotilha da machina, e bradar para baixo a ordem salvadora, que foi cumprida a tempo, tombando logo em seguida a chaminé. Era indescriptivel a violencia do vendaval. A bordo a escuridão era medonha. O vento apagou todas as luzes, as agulhas saltaram fóra dos fulcros por causa dos balanços desmedidos, o mar desencontrado cobria a tolda passando de um a outro bordo, como uma abobada de agua lamacenta, e o vento rugia como o estrondo de descargas de artilharia, ameaçando arrancar a gente, que com valor sobrehumano cavalgara a borda, para talingar o ferro da roca, a ultima ancora de soccorro.
Não ha palavras para descrever aquelles momentos de angustia. Cessara a magestade da tormenta, parecia em tremenda guerra confundirem-se os elementos, e que viera um d'esses medonhos cataclismos do primeiro periodo da formação da terra, cuja historia nos contam os geologos (…); o tufão é uma das mais imponentes manifestações das forças naturaes (…) Ás 4h 30' da madrugada sentiu-se um choque medonho, percebia-se que em vertiginoso impulso a canhoneira era atirada á costa, resaltando sobre as pedras, e envolvida pelo escarceo das ondas, que rebentavam em phosphorescentes lençoes de espuma, funereo sudario do navio. Depois o barco quedou-se, como se tivesse ficado preso pela quilha, inclinou-se a E.B., e sentia-se de encontro ao costado o bater de um madeiro, ameaçando derruil-o. (…)
Vinha lentamente amanhecendo, como se a luz rompesse a custo a densa cerração. Onde estaria o navio? O barometro começava a subir tão rapido como fôra a baixa da columna. Mal aclarou reconheceu-se estar encalhado n'uma praia de areia. Horrivel era a scena, que d'ali se descobria. Junto á canhoneira doze, ou quinze embarcações chinezas jaziam quebradas, algumas reduzisas a rasgados cavernames, os mastros partidos, as velas esfarrapadas, e escancarando largos rombos, as taboas do costado arrancadas ao capricho da ressaca.
Para mais enlutar aquelle triste alvorecer, dezenas de cadaveres se estiravam pela praia, alguns mutilados pelos destroços do naufragio, outros em horriveis attitudes, que denotavam a ancia de salvar a vida no momento em que a morte os envolvera. Que sinistro campo de batalha! Sobresahindo a esta horrida miseria estava o casco da Camões a descoberto, descançando sobre uma grossa antena, que ficara captiva sob a quilha. A canhoneira ainda na vespera tão garrida e pintada, vencendo em primores os hiates de reereio; agora para ali se espalmava como um inutil destroço de combate, que sem esforço o mar atirara por despreso sobre a terra. (…) Em secco estava o navio, encostado a um talude formado pelas aguas n'aquella noite, a quilha elevada 11 pés acima do nivel do preamar (…).
Quem na vespera admirara o surprehendente aspecto da cidade, quando illuminada pelo sol poente reflectia nas aguas a vistosa casaria, quem se lembrasse das dezenas de lorchas amarradas á margem, e da porfiada regata das embarcações de vela a buscar ancoradouro mais seguro; quem procurasse descobrir os navios de alto bordo, ficaria tristemente impressionado. Passara por ali a morte, que ceifara larga messe de viventes.
Das lorchas apenas restavam seis, as mais tinham naufragado. O White Cloud, de quilha para o ar, partira-se n'uma ostreira pelo travez da ilha Verde. A Principe D. Carlos naufragara para os lados da foz do rio de Oeste, em territorio china, salvando-se a equipagem. Ao romper do dia jazia encalhada cinco milhas por terra dentro. Correu por meio de arrozaes, topando em cheio com as arvores, derrubando as casas, que a inundação submergira. A tamanha distancia do litoral não poude tornar a navegar. (…) A Tejo garrou, arrastando oito ferros, que tinha no fundo, e teve a fortuna de tocar no banco de lodo de Can-pan-zan sahindo de lá sem novidade. O Poyang e Amazona aguentaram-se sobre os ferros, o brigue Concordia e a barca Santa Sancha encalharam (…). Pelas praias, e pelas aguas, não se viam senão cadaveres. Avaliaram as victimas em quatro mil pessoas, a maior parte chinas das povoações fluctuantes, e das lorchas e tankás do rio. No porto de Macau apanharam-se centenas de mortos, e na Lapa e no isthmo das Portas do Cerco deram ás cinzas humilde sepultura. (...)
Por dever de officio estudei em tempos a theoria dos tufões (…) e portanto sei, que de maio a novembro, e principalmente de agosto a setembro, são usuaes no mar da China, e do Japão, mas nunca tinha pensado a serio n'esse caso. O tufão era como um accessorio da minha China convencional, feita em parte de leques, porcellanas, e mandarins de cabaia e de rabicho. Depois de escrever o naufragio da Camões (…) o tufão transformou-se em figura dominante, varrendo n'um momento muitas, e agradaveis illusões. (…) Esfriou muitissimo o meu enthusiasmo pelas regiões longinquas do Oriente.
Narrativas Navaes, João Braz d´Oliveira. 1908
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