Temos de voltar a recriar a nossa dimensão universalista e humanista

Macau 1994 Macau 1994 Macau 1994 Macau 1994
Filho da primeira e única escritora de Macau, cuja obra, mais de 30 anos após a sua morte, está a merecer estudos para uma tese nos EUA e é considerada pelos chineses que já a leram como uma das mais importantes escritoras estrangeiras que se debruçaram sobre a a China, António Conceição Júnior tem vindo a prosseguir o caminho da simbiose entre o Oriente e o Ocidente de uma forma persistente, sistemática mas diversa do percurso de sua mãe. É hoje, com a maior das probabilidades, o criador de moda português – outro que não europeu, no seu dizer – mais culturalmente apetrechado. Foi aos 26 anos um dos mais novos directores do Museu do Espaço Português. Em 1980, em colaboração com a Fundação Gulbenkian, organiza uma quinzena de Macau na Fundação «porque era preciso começar a levantar o véu do esquecimento». Como director do Museu Luís de Camões publica obras há 30 anos esgotadas, funda a primeira galeria de arte de Macau e a revista «Artis». Como fotógrafo publicou quatro álbuns, o último dos quais co-editado pela Gradiva (…). Como designer gráfico é múltiplas vezes premiado, nada menos que um grande prémio, cinco primeiros prémios, e dois segundos prémios, além de numerosos convites para outros trabalhos. 

Fez banda desenhada nos finais dos anos 70, publicando um álbum e representando Portugal em Lucca, Itália. Por isso, os seus desenhos de moda são uma preciosidade de rigor de um excelente ilustrador. Se Lisboa se rendeu na Fil-EXPOWEAR à sua colecção (…) 1994 foi o ano em que este criador, com uma vincada «griffe» pessoal (…), conquistou Pequim. (…)


«Quando faço para mim a definição de português que citou, ela tem a ver exactamente com outra dimensão de portugalidade (…). É que factualmente, hoje ainda, a portugalidade tem uma dimensão adquirida pela sua capacidade de desdobramento, que transcende a escala geográfica ou demográfica ibérica. Aliás, essa questão é abordada de forma magistral em «A Jangada de Pedra» de Saramago. Efectivamente, sinto-me tão português como você, mas venho de outro continente, de outra escala ou dimensão. Apenas aí diferimos, e nas nossas experiências existenciais. Você falará muito melhor o francês enquanto eu falo chinês. Trago na minha herança histórico-genética uma bivalência cultural que corresponde a essa outra portugalidade a que eu me referia. Penso ter sido suficientemente claro. Isto é, temos de voltar a recriar a nossa dimensão universalista e humanista».

Homem Magazine, Novembro de 1994

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