O grande templo de Macau

Templo de A-Má
Templo de A-Má 
Auguste Borget (1808-1877)

Foi pelo meado do decimo sexto século que obtivemos do Imperador da China licença para fundar um estabelecimento nas costas do imperio, ao sul de Cantão, num rochedo então arido e deserto, só conhecido dos pescadores das visinhanças, que n'elle buscavão abrigo contra a tempestade, ou ião levar suas offerendas a uma deusa, padroeira dos maritimos, em honra da qual se levantara ahi um pequeno sanctuario. A este respeito diz uma lenda velha, de muito credito em toda a costa da China, que n'um tempo bem remoto, porém que se não assignala, chegara a Tokien uma numerosa esquadra, e que estando a ponto de apparelhar para dar á véla, uma dama ricamente vestida e de magestoso aspecto, apparecera n'um junco, e rogara á tripulação da esquadra que não largasse do porto, predizendo-lhe que a serenidade do céu e a calma do mar não erão para fiar, como os capitães julgavão, nem para tomar o largo, pois que prestes se levantaria uma tempestade.

A mor parte da esquadra, confiando na predicção, permaneceu no ancoradouro; só um junco se aventurou a deitar ao largo, mas a tempestade sobreveio, e o vaso foi engulido na voragem com tudo quanto encerrava. Passado o perigo, a dama da apparição convidou os marinheiros a desfraldarem as vélas, offerecendo-se a acompanhal´os até onde se destinavão.

Foi feliz a viagem, e a esquadra chegou ao seu destino sem novidade; mas apenas se aproximou da terra, a mysteriosa dama saltou ligeiramente para cima d'um grupo de rochedos ue jazião perto da praia, e repentinamente desappareceu aos olhos de todos. Era evidentemente uma deusa, e d'isto ninguem duvidou: em reconhecimento á visivel protecção que lhes concedera, os marinheiros da esquadra elevaram-lhe logo, no mesmo local da desapparição, um templo que se chamou A-ma-ko, que quer dizer Palacio da deusa A-ma, nome que se lhe deu durante a viagem. De Mako fez-se Makao, ou Macau, porque na extremidade Occidental d'esta semi-ilha foi que levantámos a bandeira.

Nada durante muitos séculos apresentou de monumental este logar de reunião dos devotos navegantes; mas quando o desenvolvimento do commercio com os europeus attrahio a Macau numerosa população chineza, os negociantes cotisaram-se, e no fim do reinado de Kang-hi erigiram alli um magnifico pagode.

O corpo principal d'este elegante sanctuario do paganismo levanta-se á beiramar, de que está separado por uma esplanada semi-circular, de trinta a quarenta metros de raio. Ergue-se ao norte do porto interior de Macau. Sobe-se por uma escada de granito, cujas rampas estão ornadas com dous leões, ahi collocados, segundo dizem os chins, para facilitar a evasão dos deuses fracos quando os outros deuses mais fortes os queirão expulsar. 

Um arco de triumpho de bello estylo chinez corre por defronte da porta de entrada. Renunciamos a descrever o interior do templo, a estatua colossal do idolo de madeira dourada, as numerosas estatuasinhas dos deuses secundarios e dos heróes, em madeira colorida, os vasos de perfumes, as bandeirolas, os tantans, as lanternas, e outras mil cousas que atulhão o logar santo. Preferimos sahir do pagode principal, e trepar por aquellas encantadoras alamedas, que levão a uma immensidade de capellinhas, altares, repousorios e grutas mysteriosas, que se occultão por entre as sombras espessas das grandes arvores seculares, que de espaço a espaço se multiplicão pelo contacto dos seus ramos pendentes com a terra.

Nenhuma descripção pode reproduzir essa vista de fadas, nem dar idéa de quanto a imaginação fica impressionada com o aspecto d'estes pagodes solitarios e silenciosos, habilmente espalhados pelo que a natureza offerece simultaneamente de mais rustico e encantador.

O serviço religioso do pagode foi confiado a bonzos que, graças ás liberalidades dos peregrinos, reuniram depressa um rico patrimonio, sufficiente para sustentar numerosa communidade.

Porém ahi, como em toda a parte, o luxo trouxe a relaxação dos costumes, e a vida d'aquelles bonzos tornou-se tão escandalosa, que a autoridade chineza teve de intervir. O serviço do pagode foi portanto retirado das mãos dos bouddhistas, e confiado aos religiosos Tao-se, discipulos de Laotze, que muitas vezes ao dia ahi cantão louvores á razão suprema, o que não obsta comtudo a que se prestem ás ceremonias do culto bouddhista, quando ha ricas offerendas.

Os visitantes são geralmente bem recebidos pelo superior do pagode, que até os convida a tomarem alguns refrescos, mas acaba usualmente esta politica pela exhibição d'um registro, no qual se pede ao viajante que se inscreva para concorrer ás despezas da esplendida festa que annualmente se faz no terreiro do templo. Todos os pagodes cujo rendimento é pouco consideravel, fazem, pelo menos uma vez por anno, uma festa meio religiosa meio profana, cuja parte mais attractiva para os fieis consiste na representação theatral, que dura muitos dias consecutivos.

Em Macau, os Tao-se dão a esta festa extraordinario brilhantismo. Levanta-se na esplanada do seu elegante pagode um theatro provisorio de bambus, mas de extraordinaria solidez. Com grandes despezas se chamão comediantes do interior, para representarem as melhores peças do repertorio chinez; tambem se chamão os melhores musicos da provincia para formarem uma orchestra a seu modo; e o publico, sem pagar cousa alguma, pôde gozar de dia e de noute o espectaculo, porque se representa tres ou quatro dias consecutivos, tendo os actores só o indispensavel repouso para não cahirem em scena de fadiga.

Almanach de lembranças Luso-Brasileiro para o anno de 1861
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