1961, informação de Macau

Pátio das Escondidas
1961 - Informação, classificada como secreta, enviada à Presidência do Conselho e aos Ministérios do Ultramar, Interior, Defesa Nacional e Exército, da PIDE-Polícia Internacional de Defesa do Estado

Em Macau, os nossos Serviços obtiveram as informações que seguem, respeitantes as ao mês de Novembro findo:

Com sede na Rua da Praia Grande n.º 13, organizou-se em fins de Outubro um partido político denominado «PARTIDO REPUBLICANO DA CHINA LIVRE”. Foram organizadores WONG KONG HAP, WING SENG SAN, CH’AN MAN CHAN, WONG CHENG IAT e HO KAM WA, todos deportados de Hongkong, por indesejáveis. Inscreveram-se igualmente no partido CHEONG HENG MENG, MOK CHI HONG, CH’AN CHONG IENG, dirigentes da Associação Desportiva “Pai Lou”, KONG IOK LEONG, repórter do diário “Seng Tou”, CHÉ FOK SANG, da Associação Secreta “HongPun”, CH’OI P’ENG UN, CH’AN P’UI e outros, em numero de algumas dezenas de sócios.

Continua a desenvolver-se dentro de associações e organismos filiados no regime vermelho da China a campanha contra o recenseamento da população, em curso em Macau.

Como medida preventiva, foi determinada, nos territórios vizinhos de Macau, situação de prevenção, das 19.00 às 06.00 horas, diàriamente, a partir do dia 15 do corrente, pelo período de 3 meses. A fim de evitar tanto quanto possível a fuga de chineses do Continente para Macau, foi igualmente determinado reforço de patrulhamento nas praias e mares que circundam Macau.

Sob instruções do respectivo organismo de Cantão seguiram para aquela capital do Sul da China para um estágio de um mês o Presidente e o vice-Presidente da Associação da Juventude Chinesa em Macau, respectivamente, T’AM LAP MENG e LAO KUONG POU. Durante a ausência do seu Presidente e Vice-Presidente foram nomeados os Srs. MA MAM K’EI e KAM KUONG encarregados da dita Associação, que conta presentemente cerca de 700 sócios.

Continua a persistir, sob ameaça de resistência passiva seguida de greve, mediante apoio dado pelas respectivas associações, o pedido do aumento de seus ordenados feito aos seus patrões, há dois meses, pelos empregados da MELCO e do Hotel Central. Reuniões têm sido realizadas, neste sentido, nas sedes das respectivas associações, mas até à data nenhum acordo se estabeleceu entre as duas partes, pois os patrões têm procurado protelar a questão do modo evasivo.

Sob apoio da Federação de Associações Operárias, o mesmo pedido de aumento de seus ordenados tem igualmente sido feito ultimamente, aos seus patrões por uma fracção dos empregados da fábrica do tabaco e de estabelecimentos de venda de carne fumada, com resultados satisfatórios.

A fim de equilibrar a economia nacional e, sobretudo, adquirir a moeda estrangeira, o Governo Popular da China, como nos anos anteriores, emitiu títulos de dívida pública, referentes ao ano económico de 1961, para serem vendidas aos chineses residentes em Macau, HongKong e noutros países do ultramar. A venda desses títulos em Macau foi confiada a cargo dos Srs. HO YIN e MA MAN K’EI que se encarregarão, por seu turno, de os vender aos chineses de todas as classes sociais de Macau.

A manifestação patriótica realizada em 11 do corrente na Escola de S. José sob a presidência do Sr. Pe. HO SAM UN, provocou um ambiente desfavorável no espírito de elementos vermelhos em Macau, pois consideraram tal manifestação como campanha anti-comunista. No propósito de discutir o assunto a formular a sua reacção, dirigentes do partido da China vermelho em Macau reuniram-se secretamente no dia 12 do corrente, pelas 21 horas, no Hospital KengWu sob a presidência de KUOK SON KIM e de IO PAK IOK, respectivamente 1º e 2º secretários do órgão do Partido Comunista em Macau. Com a ausência do Sr. HO YIN, assistiram à reunião T’AM LAP MENG, WONG KA CHENG e WONG SAI TAT, obstinados agentes do partido vermelho da China, em Macau.

Segundo uma informação fornecida por um agente especial do órgão dos Serviços Secretos da Formosa em Macau, foi indeferido pelo seu Governo o pedido da ida a Formosa do Sr. TSU-YIN CHAI, Secretário em Macau da Delegacia do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República da China, como tinha planeado anteriormente, no intuito de apresentar circunstanciadamente o seu relatório verbal sobre as últimas actividades e ocorrências de aspecto político em Macau. Pelo mesmo agente informador, alegou o Governo daquele reduto nacionalista a inconveniência daquele diplomata se ausentar de Macau, por motivo de qualquer acontecimento (não especificado) de carácter político que deverá registar-se brevemente nesta cidade.

Dirigentes do Círculo Cultural de Macau, pertencentes ao regime vermelho da China pretendem, como nos anos anteriores, promover nesta cidade representações teatrais, com carácter de propaganda, por companhias teatrais provenientes do distrito de Kuong Tong. Diligências estão sendo feitas neste sentido por LAO HANG CHONG, Gerente do Grande Hotel e do cinema Ch’eng P’eng, e por MA MAN K’EI um dos directores da firma “Nam Kuong”. Pretendem, pois, realizar tais representações no teatro Ch’eng P’eng, no próximo mês de Dezembro.

Para o serviço de patrulhamento e fiscalização nos mares que circundam Macau, foram recentemente instalados 4 postos de fiscalização as seguintes localidades:

a) Ribeirinha da Prata: Encarrega-se este posto dos serviços de patrulhamento na faixa do mar que se estende da barragem de Ch’in Sán até o referido posto;

b) Ma Nio Ho: Encarrega-se da fiscalização da região que abrange desde este posto à ilha da Montanha;

c) Ilha da Montanha: Está a cargo deste posto o patrulhamento em toda a extensão que abrange desde a ilha à ilha de Tong Ou;

d) llha de K’ei Ou: Este posto tem a seu cargo a fiscalização nos mares que banham a costa oriental do distrito de Chong San desde a baía de T’ong Ka até à Areia Preta.

Segundo informação fornecida por CH’OI K’EI, indivíduo intimamente relacionado com os principais dirigentes do partido vermelho da China em Macau, o Governo de Pequim exprimiu a sua indignação contra a manifestação patriótica dos estudantes chineses realizada ùltimamente no Colégio de S. José, pelo facto de nessa manifestação se permitir desfraldada no recinto do edifício do colégio uma bandeira de China Nacionalista e à aclamação e aplausos a favor do regime da Formosa. Mais informou aquele individuo que os dirigentes do partido vermelho da China em Macau foram censurados pelo Governo de Pequim por não terem reagido pùblicamente contra aquela manifestação. Que o Governo de Pequim admite e considera como um direito que manifestações patrióticas se façam em Macau, mas a favor da nação a que pertence a Província, como o foi da manifestação promovida pela Mocidade Portuguesa e outros organismos do Governo da Província.

Por iniciativa de WONG SENG SAN, ex-presidente da Associação Desportiva “loa Lin”, WONG KONG HAP, um deportado de HonKong, ex-presidente da extinta Associação Desportiva “Ut Sao San” e CH’AN CHONG IENG, actual presidente da Associação Pai Lou, e deportado de HongKong, está sendo organizada nesta Província um partido político denominado “Órgão do Partido Democrático da China Livre em Macau”, partido este recentemente criado na Formosa. Para o referido órgão estão sendo recrutados indivíduos de diversas classes, nomeadamente os antigos alunos que foram da Academia Militar, oficiais do exército e agentes políticos afastados dos seus cargos por quaisquer motivos, bem como principais elementos pertencentes a diversas associações secretas. 

Para melhor controle sobre as embarcações de pesca fundeadas em Macau, autoridades chinesas impuseram desde 1958, quando se implantaram pela primeira vez as comunas do povo, a matrícula das embarcações que exerçam a sua faina nos mares territoriais chineses, consideradas como tal toda a faixa de mar que circunda a costa, numa extensão de 12 milhas. Os ocupantes dessas embarcações eram obrigados a inscrever-se nas cooperativas a que pertence a zona de pesca, sendo igualmente obrigados a fornecer à respectiva cooperativa 50% do produto da pesca a preços oficialmente estabelecidos.

Em 23 do mês passado, porém, as embarcações fundeadas em Macau, quer as que se encontram matriculadas em qualquer das cooperativas, quer não, foram intimadas a efectuar a renovação de suas licenças de pesca ou requerer a sua matrícula e concessão de respectiva licença, conforme casos, pelo período de um mês, a partir do corrente mês, sob pena de serem chamados a responder em juizo, caso forern apanhados a pescar na zona territorial chinesa sem a devida licença.

As licenças de pesca passaram a ter validade de um mês, e a sua renovação passou a efectuar-se mensalmente, devendo no acto da renovação, num dia previamente fixado, realizar-se na respectiva cooperativa, reunião a que assistirão todos os ocupantes das embarcações. Esta medida tem por fim reunir os marítimos e incutir neles os princípios do regime comunista e demais propagandas tendenciosas e lavagem do cérebro.

Promovidas pela Federação de Associações Operárias, sob a presidência de LEONG P’UI, reuniões têm sido ùltimamente realizadas na Associação Operária “Hong Lok Kun” com a assistência dos dirigentes de diversas associações de classes filiadas no regime vermelho da China, no sentido de oferecerem obstáculos ao bom andamento dos serviços de recenseamento da população, sob pretextos do desconhecimento das formalidades estabelecidas para o preenchimento do respectivo boletim. A fim de estudar a remodelação dos ordenados do pessoal da classe operária, aquela Federação, na reunião realizada em 22 do corrente, nomeou uma comissão denominada “Comissão Encarregada de Remodelação dos Ordenados dos Operários” e que é composta dos seguintes indivíduos: LEONG P’UI, LAO CHI PAN, CH’AN CHEK SANG, IP CHI U, T’ONG SENG CHIO, KAM KUONG, LEONG IOK, KUOK U, SIN CHI CH´EONG, HO CHI SANG, LEI KUAI, LAM CHAK T´ENG, CH´NA SIO KUONG, LEI KAN KUONG e T´AM LAP MENG.

Além da remodelação dos ordenados compete à comissão instruir os operários filiados nas associações controladas pelo regime vermelho da China a formularem o seu pedido de aumento de ordenados junto dos seus patrões. 

Até à presente data, conseguiram dos seus patrões aumento de ordenados parte dos operários de fábricas de pivetes, serralharias, loja de venda de carne fumada e pedreiros.

Durante o corrente mês de Novembro refugiou-se em Macau, evadido do Continente Chinês, um total de 272 chineses, entre marítimos e camponeses, e que compreende 127 homens, 55 mulheres e 90 menores. Alegam invariàvelmente que a fuga é motivada pela escassez de alimentação.

23 de Janeiro de 1961.

Arquivo Salazar 1908/1974 (Correspondência Oficial 1928/1968-Ultramar 1926/1968) no Arquivo Nacional Torre do Tombo
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