A chavena da China

Fortaleza do Monte
Fortaleza do Monte

Bebé fazia annos n´esse dia, e cada um dos velhos amigos que chegava, ia depondo sobre as jardineiras, alguma delicada bugiganga. De tudo havia um pouco. (…) Um convidado entrára sem espalhafato, todo envergonhado do seu fato no fio, vergando aos annos, e cheio d´uma melancholia grave no olhar. Era o mestre de piano da bebé, velho triste, fraco de pernas, calado, tremulo, habitado por monomanias poeticas, com ingenuidades de creança e crendices de camponez. Elle foi-se escorregando na sala, por detraz dos convivas em evidencia, cumprimentou duas ou tres pessoas sem ninguem corresponder á sua humilde cortezia; e de cabeça baixa, lenço azul entre os joelhos, as magras pernas abstractas bamboleando lentamente, foi sentar-se a um canto, todo alheio á magnificencia do salão e aos vestuarios das senhoras. Fora rico antes de trinta e quatro, a guerra civil confiscára-lhe familia e riquezas; e sósinho, cheio de privações, era organista da freguezia passava de trinta annos. Inda elle se não tinha assentado, já os grandes olhos pretos da creança davam com o velho amigo, seu camarada e companheiro - porque os extremos da edade em que se viam, punham nos espiritos d´ambos, velho e creança, uma unidade de gostos e sentimentos, religiões, gulodices, sympathias, interesses, que estreitavam apaixonadamente, cada vez mais, o laço d´amor que os congratulára a ambos. (…)

O velho professor (…) tirára do bolso um cofresinho de xarão exoticamente doirado, todo comido de velhice nos cantos. E aberto, viu-se uma taça de procelana casca d´ovo, meuda e symetricamente craquelée, tão pequenina, tão pequenina, que antes se diria o bebedoiro d´um pintasilgo. O velho pegou-lhe com dois dedos, n´um ceremonial commovido: era uma peça admiravel, mais fina que o papel, transparente e sem peso, com figurinhas microscopicas de relevo, nitidas, vivas, desfilando á volta do bojo, n´uma patuscada de rabichos, dalmaticas côr de gemma d´ovo, pontes phantasticas, e arvores e flôres de não sei que flora impossivel. A aza simulava um dragão d´azas vermelhas, vermiculado de oiro, apoiando garras no rebordo, e ouriçando a cauda n´uma série d´escamas, que dificilmente alguem contaria a olho nú.

O velho tinha erguido aquella preciosa peça sem rival, e com os seus dedos tremulos e os seus olhos babosos, fazia notar por detalhe, n´uma ancia de colleccionador, as figurinhas esculpidas a microscopio, as variegadas côres que tinham a graça nitida d´uma illuminura, a expressiva mimica de cada feição, ironia dos olhos, e acabada belleza de mãos e pés, que maI podiam vêr-se de resumidos que eram. (…)

De repente o organista fez um movimento surpreso, balbuciando: - singular! singular! (…) Foi o caso d´entrarem a reparar que os olhitos dos chinas rolavam vivos dentro das orbitas, as boccas mechiam n´um zumbido jocundo d´abelhas, os pésitos caminhavam lestos sobre as relvas da vereda, emquanto as pequeninas mãos iam apontando os aspectos mais pittorescos da paisagem que se via esmaltada no bojo da taça. 

De vez em quando, dois ou tres mandarins deixavam-se ficar atraz do cortejo, e discutiam com força de gestos e tching-tchong no fim das palavras. Alguns subiam mesmo a pequenas colinas, virados contra o nascente, co´as mãos em reverbero sobre os olhos, a modo orientando-se no caminho. E a procissão de galhofeiros, vá de farandolar á volta da procelana! A meio do assombro geral, o velho metteu outra vez a taça no estojosinho de xarão, e confessou gravemente, que das suas passadas riquezas só podera conservar aquella chavena, que um dos seus avós trouxera da China, no galeão S. Paulo, a primeira vez que os portuguezes tinham aproado aquelle fabuloso paiz, antes de qualquer outro europeu alli ter dado fundo, em suas aventurosas viagens.

- A ceramica, proseguiu elle animadamente, era na China uma especie de grande monopolio das altas classes. Os imperadores e os grandes tinham manufacturas por sua conta, no recondito dos seus dominios, isemptas de contagio estrangeiro - jarrões e chimeras d´uma barbara belleza, por isso mesmo cheias de caracter e pittoresco, e d´uma perfeição que se vê mas se não descreve. Os artistas, que eram uns feiticeiros concebidos no ventre dos deuses, arcavam com estes na obra de crearem a um simples gesto, toda a cópia de prodigios. Cães de Chorea, simplesmente amassados com grosseiro kaolino, desandavam a ladrar, a mecher a cauda, e seguir os mandarins ao longo dos rios chinezes, amarellos e azues. D´uma vez o imperador morreu sem successores. Convocaram-se os grandes mandarins a concelho, que decidiram fazer um imperador de procelana, por subscripção publica; e cosido no forno, á vista dos bonzos, o boneco sahiu o maior imperador que tem havido. Assim como entre nós ha o espirito do bem e do mal, assim na China por aquella epocha, cada coisa tinha o sou espirito proprio, inconfundivel, e com jurisdição exclusiva n´um grupo uniforme de phenomenos. Certo espirito presidia á confecção e viver das sedas - outro curava dos leques - outro ainda superintendia nos destinos da procelana, amphoras, jarras, estatuas, chimeras e covilhetes. Estes espiritos, emanados da mesma celeste essencia, tinham sido allumiados para não deixar morrer as industrias e artes do Imperio, tão perfeitas e florentes aqui ha dois mil annos. E o da procelana velava as peças de valor inestimavel, sem jamais dormir, longe ou porto ellas estivessem, pois era elastico, e se repartia como um fluido vital, pelos differentes bocados de ceramica transviados n’esse mundo de Christo. 

- Porque hão-de crer-me, recapitulou o velho professor á guiza de conceituosa sentença: o que hoje mata as industrias é não haver espirito de casta que presida á sua conservação e progredir. Ha cerca de tres mil annos, na China, um artista teimando em dar a nota mais pathetica da ceramica, fez esta taça. Residem os grandes da terra em magestosos palacios, para se imporem ao culto dos pequenos; assim o espirito da procelana, revendo esta chavena divina, a escolheu para seu quartel general - e aqui reside, e d´ella transborda na vivacidade de gestos que admirastes por estas figuritas. A permanencia do espirito na taça, fal-a immortal como elle, e concede immortalidade a quem possuir o cofresinho que a encerra. 

Quando ha quatrocentos annos, o meu antepassado regressava da China, cortando o oceano indico no velho galeão, sobreveio um grosso mar que fez este em pedaços contra os recifes d´um ilheu. Quatrocentos eram, elle sómente escapou á morte, que ao largar o pedaço d´amura a que a derrocada deitára mão, cuidou vêr os cachopos feitos nas cabeças dos mandarins da chicara, cabeças que riam n´um ar surpreso, dizendo tching-tchong! nas suas vózitas d´escarneo, emquanto caudas de salamandra lhes sahiam das boccas, em caretas de surriada. Já o pobre começava a perder forças, quando um grande cão de cabeça negra e corpo branco, olhos obliquos de china, focinho energico e orelha farta, rompeu das ondas agarrando-o pelo fato, e indo depôl-o na areia, salvo de todo o perigo. 

E aqui o velho ajuntou sorrindo - ia dizer que o naufrago tinha o meu cofresinho no cinturão!

Só d´elle me posso apartar por vontade minha, confiando-o a alguem que o estime. D´outro modo volta ás minhas mãos, esteja eu onde estiver, e seja a que hora fôr. Estou velho, sem filhos, nem herdeiros. Se ainda tivesse dentes, gostaria de viver por mais tempo. Assim... dou-te a minha taça chineza, bebé, guarda-a bem.

E com as palpebras tocadas de lagrimas, o velho estendeu o xarão á pequenita, que correu a deitar-lhe os braços ao pescoço, emquanto enternecida da historieta, comprehendendo-lhe o intuito, a avósinha sorria. Mas n´esse instante houve ruido de passos, roçagar de vestidos, risos e vozes falando ao mesmo tempo. Era o jantar.

Pelo declinar da tarde, foi-se tomar café para o terraço, sobre o rio, d´um bello verde marinho e calmo. Era verão; no ar transparente havia brancas palpitações de gaivotas; alguma vela corria ao largo, e as montanhas envoltas em translucidos vapores, deixavam-se adormecer com as legendas de sereias e naus, que as ondas do Tejo iam dizendo ao passar. Então bebé deixou-se avassallar d´um capricho, forçando o professor a tomar café pela tacinha chineza. A historia tinha já corrido entre os convidados, e todos queriam vêr o maravilhoso trabalho da procelana. Encontraram uma velha chicana de pinturas fanadas, inteiramente vulgar como raridade; e muitos riram por compaixão. (…)

Então o organista approximou-se mais da balaustrada, ergueu a sua voz tremula de velho:

Houve outr´ora um rei de Thule,
A quem em doce legado,
Deixou a amante, ao morrer,
Um copo de oiro lavrado.

Já o rio escurecia n´um tom plumbeo de noite. E ele aquecido do acolhimento que lhe faziam, o braço hirto sobre a agua, os olhos ternos de cognac, ao deitar o ultimo verso... e a taça navegando por sobre as aguas do mar! sem querer, deitou a chavena ás ondas.

Veloz como o relampago, sem um latido, o cão precipitára-se d´um salto, aquelle enorme cão de cabeça negra, olhos de china, focinho energico e orelha farta, que quatrocentos annos antes deitára o naufrago sobre o ilheu do oceano indico. Ouviram-no cahir como uma torre, áquella altura, sobre as aguas susurrantes. As velhas damas tinham-se debruçado a vêr, na balaustrada. Parecia desenterrado, com susto, o organista! Mas aquillo durou pouco. O cão revoluteou por instantes na profundeza tragica, veio respirar á superficie umas poucas de vezes, até que appareceu trazendo a taça, onde nos gestos das figurinhas transbordava de novo, o espirito salvo da procelana. Quanto á avósinha, diz ter visto em circuito, á flôr das ondas, romperem as cabeças dos mandarins, n´uma patuscada de rabichos, caretas e thing-thong!

Por seu lado, bebé que nada viu, inda agora não pôde crêr na historieta. - Sorri, mas sem negar. Tem medo, a doce pequenina, de destruir com alguma fria palavra, aquella phantasia poetica do velho professor.

Fialho d´Almeida em Lisboa galante; episodios e aspectos da cidade, 1890

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