Uma festa chineza em Macau por F. Amaral

Dia dos Diabos Esfaimados ou Festa dos Diabos 
Dia dos Diabos Esfaimados ou Festa dos Diabos Dia dos Diabos Esfaimados ou Festa dos Diabos
Festa dos Espíritos Famintos, 
Macau, 09.08.2014. (*)

De 25 d’agosto a 8 de setembro esteve Macau em festa no seu bairro china. No basar cobriram-se de toldos as ruas, como é do costume nos officios chinas e nas festividades ordinarias, comprehendendo-se porém d’esta vez uma area maior de superfície coberta. As ruas de Macau, de noite são illuminadas por occasião de festas d’urna fórma perfeitarnente original; enorme abundancia de luzes em lustres e figuras movediças em volta d’estes, recamadas de Iantejoulas, dão ás ruas, onde se rolam enormes ondas de povo, o tom phantastico d’um conto oriental. Nas lojas dispõern-se vasos de flores e arbustos, e ainda abortos de arvores dos mais pittorescos aspectos; nos sitios mais largos levantam-se enormes barracas d’auto, onde resonam as bategas, d’uma ferma infernal, secundadas por sons de instrumentos afinados em tom agudo da maxima impertinencia, e sobresahindo os falsetes das prima-donas.

A variedade de côres das cabaias, o mexer dos leques, os penteados das loquis e as figuras melancholicas dos locanes de mistura com o tom aborrecido da policia europea distribuida em patrulhas, os gritos dos coolis e dos vendedores ambulantes, um ruido composto dos mais extravagantes sons e das mais extraordinarias figuras, desde o magro fumador d’opio macilento e pallido, até ás massas obesas de alguns mandarins, tudo nos aturde ao passar por uma rua de festa, e vendo serpentear os caracteres chinezes das cabaias dos bombeiros das casas de chá, e experimentando as lufadas nauseabundas de ar quente e irritante, que saem dos colaos e das casas do phantane.

As ruas illuminadas são indescriptiveis; constituem uma mistura de miseria e de ostentação que não deverá parecer impossivel como podem reunir-se no mesmo relancear d’olhos, illuminadas as diversas scenas, como estão, pela mais brutal das illuminações, tanto em numero de luzes, como em côres variegadas e claras, que constituem a massa dos ornatos das paredes e tecto provisorio, onde milhares de pequenos espelhos e douraduras repetem as imagens de fórma a conhecerem-se os mais insignificantes pormenores do vae-vem enorme de povo, que crusa em diversas direcções o local da festa.

D’esta vez só a rua do jogo tinha 305 lustres, ou o que quer dizer, 2 lustres por cinco metros de extensão, aproximadamente. A barraca d’auto principal prolongava-se desde o pagode de Matapao, pelo aterro novo, até ao mar. Em todo o aterro havia a trabalhar durante o tempo da festa e d’uma fórma permanente, quatro barracas d’auto, podendo calcular-se que não estavam em Macau menos de cincoenta mil chinas a mais que a população normal. Apesar de tão extraordinaria concorrencia de povo, manteve-se a policia sem occorrencia notavel e se em Macau houvesse reporters do Diario de Noticias diriam que era geral a satisfação, isto tanto quanto se póde deprehender dos rostos pouco expansivos dos filhos do celeste imperio.

Dizer qual o motivo da festa era-me tão difficil, como naturalmente o seria á grande maioria dos que a ella concorreram, por mais chinas que sejam as suas individualidades, e por maiores que sejam os respectivos rabichos.

Uns diziam ser a repetição da grande festa do dragão em 1868, que consideravelmente excedeu; alguns affirmavam ser outra a invocação, e que era esta a verdadeira cerimónia em obsequio da grande bicha do celebre dragão, cujo passeio em procissão é parte obrigada das solemnidades chinezas. D´esta vez, porém, a procissão excedeu o que possa imaginar-se de mais grandioso, sendo mesmo a parte mais saliente da festa. Na praia grande, onde a largura da estrada permittia á bicha um desenvolvimento mais rápido, a procissão levou a passar desde o meio dia e trez quartos ás 2 horas e 35 minutos da tarde, o que quer dizer duas horas menos dez minutos, em que desfilaram diante de milhares de espectadores attonitos as cousas mais assombrosas que uma imaginação altamente phantasista possa produzir. Compunha-se a procissão de setenta e duas músicas chinas, sessenta e quatro andores de pennas, guarnecidos com os competentes pratinhos com comidas de toda a especie e feitio, bollos e doces de toda a qualidade; doze andores com pedras preciosas riquissimas; sessenta andores com creanças caracterisadas e vestidas com fatos de theatro, representando scenas de auto; sessenta creanças a cavallo; cincoenta pendões triangulares grandes; e sessenta enormes umbrellas de pannos vistosos e de valor.

Mais de mil bandeirollas se entermeavam no prestito contendo maximas moraes e diversos disticos; outros tantos emblemas se lhes seguiam, e 3 cavallos riquissimamente ajaezados e preparados de fórma a envergonharem os nossos chamados cavallos de estado. Vinham depois quatro lindíssimos pagodes, e dois enormes leões; tudo acompanhado de 120 figuras emblematicas, representando a justiça chineza nos processos tradicionaes de julgar nas diversas provincias do imperio.

Pematava pelo dragão, enorme bicharôco de cincoenta metros de comprimento, e que era conduzido por 25 homens vestidos de cabaias de damasco. Fechava o cortejo uma guarda de honra de duzentos homens chinezes, tendo na frente um pendão muito velho e um sugeito de modos graves e solemnes, tocando n´uma caixa forte uma marcha muita falta de cadencia, propria para marchar, mas muito abundante em rufos seguidos. 

Calculou-se que o préstito era formado de sete mil e quinhentas pessoas! A mistura exotica de grandes valores e ricas ornamentações com cousas de apparencia pobre e triste, mas que pareciam ter para os chinas um grande apreço estimativo, davam ao cortejo, em que aliás predominavam as decorações faustosas e ricas, um aspecto extraordinário de difficil, senão impossivel descripção.

No rio, as lorchas embandeiradas produziam um tom alegre no ancoradouro, desde o caes da estação até á ilha Verde, repetindo-se as salvas de panchões a toda a hora, e por toda a parte, para aggravar o barulho e gritos do rapazio que completava a ingresia de que foram victimas os habitantes de Macau, durante os dias a que esta noticia se refere.

Era a Macau n´ esta occasião que os authores de magicas deveriam ir buscar inspiração para uma obra, que excederia tudo até hoje visto, mas que, mal recebida pelo publico, arruinaria, pelo mis-en-scene qualquer emprezario pouco feliz que tentasse fazel-a representar.

Como são pallidas as nossas procissões, ainda mesmo as cívicas, á vista de tanto esplendor, mas tambem como é desagradavel ver passar diante de nós uma festa, cujo alcance se não comprehende e cuja intenção se não conhece!...

O far eastern Monaco, corno os inglezes chamam a Macau, anima-se extraordinariamente com estes divertimentos, e não é simplesmente a animação material o que mais se deve notar n’elles; é muito particularmente o maior prazer que o nosso dominio, brando e suave, dá a todas as familias chinas ali estabelecidas, o que as induz a escolherem aquella boa terra para as suas folganças e festividades mais ruidosas, o mais interessantes e solemnes.

Sir Pope Hennessy, aperar dos seus affectados sentimentos chinophilos, não consegue o mesmo em Hong-Kong! Ha ali muito dinheiro, mas pouca alegria; tenha paciencia que a compensação não é das peiores…

Fica cumprida a minha promessa de dar o meu contigente para o seu jornal: se não servir rasgue os linguados, mas em todo o caso dê-me baixa na divida.


F. Amaral em Jornal do domingo: revista universal, 25.Dez.1881

(*) sobre a festevidade, aqui:
http://oriente-adicta.blogspot.com/2012/08/festa-dos-espiritos-famintos-2012.html

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