As noites de Pekim

Conde de Arnoso
Brasil-Portugal, revista quinzenal illustrada 
de 1 de Janeiro de 1902
Pekim
Brasil-Portugal, revista quinzenal illustrada 
de 1 de Agosto de 1900

Em Pekim não ha noites, é essa uma das grandes tristezas. Quer dizer, em todas as cidades do mundo o espectaculo que á noite as ruas offerecem é sempre senão uma distracção, pelo menos uma curiosidade para o estrangeiro. Em Pekim, como as ruas não são illumminadas, ninguem se atreve a flanar depois que o sol se esconde. Existem, é certo uns candeeiros, mas esses só se accendem depois das tres horas da manhã, hora a que os altos fuccionarios se dirigem para o palacio, para as recepções, que principiam de madrugada. Extravagantes candeeiros esses, quasi todos velhos, apodrecidos, desconjunctados e a cahir; sobre quatro finos pés de madeira, pouco mais altos que um homem e inclinados, como as arestas d´uma pyramide rectangular, assenta uma pequena casota de madeira com as quatro faces formadas por caixilhos guarnecidos de papel e as duas aguas do telhado recurvo, pintadas de preto. Imagine-se a mortiça luz qua irradiará do pequeno covilhete cheio de gordura collocado no interior.

Mas como nem esses se accendem senão altas horas, quem de noite sae á rua faz-se acompanhar por um culi, que leva na ponta d´um pau um balão chinez. Esta precaução é indispensavel mesmo nas noites de mais claro luar. Uma vez que por um luar d’ agosto, sem o meu culi, recolhia da legação da Russia, onde tinha passado a noite em casa dos principes do Lobanow, uma horda de vagabundos tentou assaltar-me. Valeu-me a curtissima distancia a que estava de casa, o manejo desesperado da minha bengalla e a terrivel descompostura que em bom portuguez lhes gritei fazendo-os estacar de assarapantados!

N´este paiz, onde tudo está regulado, os balões crescem de dimensões, segundo a importancia dos personagens que alumiam. Assim, os ministros, conhecidos aqui pela denominação de grandes homens – o grande homem da AIlemanha, o grande homem da Russia, o grande homem da França, etc - teem balões enormes com os seus nomes escriptos em grossos caracteres chinas, emquanto que um secretario se faz alumiar por um simples balão de vulgares dimensões. No silencio da noite ouvem-se barulhos estranhos produzidos pela confusão dos gritos dos pregões distantes, dos latidos dos cães, do estalar das bombas no pateo das casas e continuamente o monotono e ensurdecedor tac-tac dos guardas das propriededes que fazem a ronda, bateado com um pequeno pau n’um pedaço de bambú, para que os ladrões saibam que estão constantemente velando. E dominando todos o cri-cri arripiante de uma maldita cigarra d´um verde intenso, que ininterruptamente nos atormenta. Este bicharoco com olhos negros e redondos como contas, uma comprida trompa, as azas transparentes e duas pequenas membranas entre o thorax e o abdomen,-instumento do nosso supplicio - tem uma historia curiosa como todas as coisas d’ este estranho paiz. O imperador Kin Lung, viajando um dia no norte da China, ficou por tal fórma maravilhado com a deliciosa musica d’ este insecto que ordenou que os apanhassem aos milhares e os espalhassem em Pekirn para que elle, do seu palácio, pudesse, durante o verão, deleitar-se com tão suave música. A ordem foi bem cumprida, que ainda hoje, volvidos mais de cem annos, esse animal é o desespero dos infelizes que, como nós, não temos o ouvido do grande imperador. 

O nobre chefe da policia quando de noite sae á rua vae sempre precedido por um guarda que, de instante a instante, faz vibrar fortemente um tan-tan annunciando assim aos malfeitores que s. ex.ª vae passar! Ao ouvirem este salutar aviso, os malandros e mendigos, que dormem nús pelas ruas com a cabeça encostada á miseravel trouxa de roupa que despiram, levantam-se estremunhados, escondendo-se nos recantos mais escuros. Quantas vezes não temos visto, aqui mesmo na rua das Legações, esses desgraçados dormindo assim estiraçados ao longo dos degraus das portas das casas alpendradas, ao lado de cães vadios! 

Se a noite está escura torna-se neccessario caminhar com cuidado para os não pisar; e se a lua, brilhando no céu de turquesa, rasga com uma faca de luz as sombras da noite, então é forçoso desviar a vista, tão repugnante é o espectaculo d´ esses desamparados da fortuna. Ainda não cruzámos de noite um china que não caminhasse cantarolando baixo e em falsete como se tivesse uma surdina na voz, interrompendo-se apenas, para nos lançar a nós - diabos, barbaros, vagabundos - que vamos passando, as mais grosseiras injurias e os mais ferozes epithetos que é forçoco fingir não comprehender. 

As noites são d´ uma melancholia rara; ainda a unica nota alegre que de longe a longe retôa pela amplidão é o forte zurrar de algum burro acordando estremunhado nas estrebarias da cidade! 

Em Pekin os burros, quasi todos claros, nada teem que invejar aos burros da nossa Cintra ou mesmo aos seus camaradas do Egypto. Orgulhosos com os chinas que carregam, passam soberbos de orelha arrebitada, fazendo tilintar alegremente os guisos da coleira. Baratissimos, paga-se aqui o luxo d´ um excellente burro por quatro ou cinco dollars. Os ponneys mongoes tambem não são caros, com vinte e cinco ou trinta dollars compra-se já um cavallo capaz de partir ao galope por essas campinas fóra.

Os fogosos cavallos de Ta-Wan, tão celebrados pelos antigos escriptores chinas, é que ainda não pudemos lobrigar. Mulas e machos são realmente bellissimos, mas tambem attingem preços inacreditáveis á força de extraordinarios não sendo raro chegar-se a vender um d´estes animaes por tres mil e mais taes! Vem agora a proposito dar uma ideia, tão exacta quanto possivel, da carreta china, que no fim de contas não é mais do que a casota de um cão assente sobre duas grandes rodas. A unica differença está na cobertura que em logar de ser formada por dois planos inclinados, como de ordinario acontece ás casotas a que nos referimos, é curva. Nas faces lateraes duas pequenas aberturas, á guisa de janellas, são guarnecidas de redes pretas de malhas e extremamente apertadas. As rodas são cravejadas de pregos do bronze de cabeça trabalhada, e os fortes cubos teem pelo menos a espessura de trinta a trinta e cinco centimetros; o fundo assenta sobre o eixo sem nenhuma especie de molas. Estreitas, mal se cabendo dentro d´ ellas, são forradas interiormente de seda e por fóra do panninho azul que, quando chove, se cobre com oleados. A unica abertura que tem e por onde se entra é na frente. Uma cortina caida esconde quasi sempre aos olhos dos mortaes a divindade que dentro vae de pernas cruzadas. Um toldo estreito, do panno azul, preso á borda do tejadilho, abriga o macho dos ardores do sol, atado pela outra extremidade ás pontas de dois finos bambús que partem dos varaes e para a frente com uma pequena inclinação, até um palmo acima da cabeça do animal. O mafú guia o macho do lado esquerdo incommodamente, sentado de esguelha na nascença dos varaes. Com excepção das carretas do palácio, são pintadas de amarello vivo, a outras são de ordinario apenas envernizadas na côr da madeira. Trepar a uma machina d´estas é a mais complicada das operações apezar do banco que cae preso junto ao ciso, e que o mafú põe no chão para facilitar a subida. 

É fóra de duvida que o mais elegante meio de conducção é a cadeirinha; entretanto, mesmo os mandarins de botão de coral utilisam a carreta para as grandes distancias, usando sempre d´ellas durante a época das chuvas. A carreta tem a vantagern de seguir o seu caminho mesmo quando a agua chega até aos cubos das rodas, o que é vulgar. 

Outra tanto não acontece com a cadeirinha, que vae apenas distante do chão pouco mais de um palmo. Algumas carretas teem ao fundo um pequeno banco, mas essas são ainda mais incommodas. São terriveis os solavancos que se soffrem. Sempre que nos vemos forçados a entrar n´uma carreta, damos graças aos céus por chegarmos a casa sem as costellas partidas. E seja dito que, apezar de sabermos que as próprias senhoras extrangeiras vão n´ellas aos bailes e aos jantares, ainda nos não podemos habituar a vêr-mo-nos vestidos de ponto em branco dentro de similhantes vehiculos. A nossa casaca de Pool e os nossos escarpins de Binnett protestam a cada tombo. E é então que nos dá realmente vontade de tapar a cabeça e deixar crescer o rabicho para poder enfiar uma cabaia chineza!

Quanto mais tempo passamos em Pekim mais nos ferem as anomalias d´este extranho povo. Já fallamos das frontarias das lojas delicadamente trabalhadas, como o mais rendilhado cofre digno de guardar os recatados segredos do coração de uma mulher formosa, olhando para ruas mais porcas que sentinas; da polidez graciosa que ainda os mais humildes affectam nas suas relações, o que os não impede de armar a cada passo brigas terriveis: das apparatosas porcelanas com que todos se servem, e que dá a medida d’ um aceio que não existe. Vêr comer um china, por exemplo, mesmo um homem ordinario, com os dois finos paus mal seguros na ponta dos dedos, é d´uma tal galanteria que chega a encantar! 

Muito amigos do rapé, as caixas com que o usam de forma de pequeninos frascos, achatados de porcelana cloisonné ou bronze cinzelado, são lindíssimas joias do mais fino gosto artistico. Cada rôlha tem no prolongamento, para dentro do frasco, uma pequena colher de marfim com que depois depositam sobre a unha do pollegar da mão esquerda a pitada que sorvem com uma delicadeza infinita. O que não impede de se divertirem a fazer com o nojento papel, a que se acabam de assoar, cocottes e outros animalejos de identico gosto. 

O luxo das sedas, dos veludos, dos bordados caros e das inestimaveis pellicas com que os grandes mandarins, as suas mulheres e as suas filhas vestem, reflecte-se tambem no povo, que basta não ser um culi ou um mendigo, para trazer sempre a simples cabaia d´um aceio irreprehensivel, e comtudo o china tem a mais decidida aversão á agua, banhando-se rarissimas vezes, senão nunca! Calçados em sapatos de grossas solas de papel ou feItro, forrados de panno branco dão-se um trabalho infinito para atravessar incolumes as ruas mais nojentas que o mais abandonado cerrado de porcos. E são elles proprios que, sem mesmo se dar ao incommodo de se voltar contra os muros, se não pejam de fazer de cada logar uma sentina! 

Não ha casa por mais pobre e mais immunda, onde se não descubra lá dentro, em qualquer canto, um vaso com uma planta florida. O culto da litteratura e dos clássicos é tal que na grande rua em frente da porta de Hai-Te-Men se vêem todos os dias sentados em toscos bancos de madeira, ao abrigo d´um toldo esfarrapado, chinas andrajosos das ultimas classes que a troco d´uma sapeca, escutam attentos um homem que, de pé e de cór, repete um canto ou uma novella d´um auctor estimado. E é esse mesmo publico que fica parado e boquiaberto deante d´um reles saltimbanco, que durante horas inteiras, ao som d´uma musica disparatada, faz exercicios de agilidade com uma lança do ferro, limitando-se, com grande espalhafato de movimentos, a atiral-a successivamente ao ar, aparando-a em seguida. Os adivinhos com a cara pintada a vermelhão, fazem tambem fortuna prognosticando a sina de cada um. Enfim, deixemos aos espiritos pensadores a philosophia que porventura se possa tirar de tanta contradicção. 

Bernardo Pinheiro (Pindella), Conde de Arnoso em Brasil-Portugal, revista quinzenal illustrada de 1 de Agosto de 1900

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