Quando na China, pela era do imperador Tai Sum, as terras andavam divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, dign o de particular ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo - Lei San era o seu nome - nunca ia dar o seu passeio, pelas nuvens, imagino, sem se esmerar em demorados arrebiques, em meticulosas pinturas da cutis, das sobrancelhas e dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de certo modos meritorias; mas o caso motivou, certo dia, um risinho malicioso da sua serva mais querida, e ainda por cima este commentario pouco respeitoso:
- «A deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto, e cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»
Vão lá chasquear impunemente dos encantos d'uma dama! e quando ella fôr divina... É certo que tão cheia de colera ficou a divindade, que vestiu a delinquente d'uma pelle de diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara azul, ruiva a guedelha, dois dentes curvos surgindo da bocca para fóra e mãos e pés disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou do ceu aos beliscões e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se Tchong-Mou-ln, a penitente.
Tai Sun, empenhado em pellejas e mortificado por innumeras derrotas, teve uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço de sciencia, elle disse ao soberano, após magnos proccessos de magia, que o sonho revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por esposa, forte de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação do estado.
O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança, pula-lhe o coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong- Mou-ln.
Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias; pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e d'um gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o soberano não contava que a dama, que a principio o recebera com doces humildades de etiqueta, que a dama expulsa embora do ceu e do convivio dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A dama, n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia do cavallo, e vomitou no cavalleiro severos vaticinios. Gritou-lhe que havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo; gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas.
Emfim. para encurtar razões e apressar o fim da historia, direi que o imperador desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-Ihe o asco, o medo, e tudo prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino lhe entrasse pela casa, rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, transportando ella propria ás costas o enxoval - dois cabazes, uma thesoira, um espelho, um pente, uma vassoura, uma bacia de Iavar o rosto,- utensilios que desde então até hoje como que ficam consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo indispensavel.
Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella provavelmente não contava. Paciencia. Por vezea, na fria intimidade dos salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia, reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre qual duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se combinou contar quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo necessario para arder de extremo a extremo um pivete perfumado, que alguem foi collocar sobre uma urna proxima. Do Iado da favorita, cuja litteratura é primorosa, estão o imperador (o basbaque!) e dois validos: do lado da soberana apostam tres lettrados, um d´elles é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente no certamen, toda olhos, toda attenção, toda adoraveis frenesis dos seus bellos dedinhos côr de leite, que empunham o fino pincel e correm febrilmente sobre o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo (perdoe-se-me o qualificativo que me occorre), face azul poisada nas manapulas, dedos disformes enfiando pela trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relancea, aparvalhada e immovel, a scena e os espectadores. Sobresaltam-se os lettrados, que adivinham n'uma imminente surriada, o desprestigio proprio no conceito do monarcha.
- «Senhora, segredam, por piedade, decida-se a escrever...»
A bruta não os escuta. Repetem-se, multiplicam-se as instancias; até que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz ella:
-«Vão buscar aos meus aposentos um pincel.»
Vôam escudeiros, volvem breve:
- «Não se encontra, Senhora!»
Ella indica que está junto d'um armario. Os vassallos replicam:
- «Perdão, não está; o que estã é uma vassoura ...».
Então berra a soberana:
- «Pois é isso mesmo, seus patetas.»
E tomando da vassoura e ensopando-a n'uma mixordia de tinta de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel, d'um gesto apenas; e por milagre. - que só assim se explica tal portento - appareceram nitidos, sublimes, mil e mil caracteres da mais adoravel forma caligraphica. Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo os seus dominios. Nos ardis, um primor. Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante ao gamão dos nossos tempos.
- «Senhora, ides jogar tres partidas com este mono; se a ultima ganhardes, são vossas nossas terras; se a perderdes … percebeis-me?»
Trava-se o jogo, em que a imperatriz não era forte, pouco affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus, onde passara a juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong-Mou-ln desfalece em intimas angustias, julga-se perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. A sua divina ama que nunca a abandonara, despede do ceu um aviso visivel só para ella:
- «Toma este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de modo que apenas o macaco dê fé d'ella; e joga resolutto».
Terceira partida: o mono, dando vista do acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de desejos; o trazeiro, onde parece residir a alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre o assento da cadeira; e com dentuça arreganhada, o olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, o bestunto por certo desvairado, balbucia gritinhos repetidos - eh, eh! eh, eh! - que irritam os convivas. A mãozita felpuda ainda vae mexendo as pedras por habito, por dever, mas sem arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o - tão imperativa é a lambarice n'estes figurões de fauna comica! E perde a partida decisiva. (...)
Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher é de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta pelas armas entre varios soberanos, com enfado de vencedores e de vencidos. Tai Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis desbaratados, unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante situação, e muito em seu proveito, propondo ao imperador um curioso problema.
- «Não nos façaes a guerra. Aqui tendes uma perola. arrancada d'um annel; notae que tem dois furos esta perola. communicando entre si interiormente por um labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a enfiada n'uma linha, juramovos a paz e a entrega por inteiro do tudo que hoje é nosso.»
Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil! Os conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava nem Ihe queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-ln recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe então do ceu uma formiga, a primeira formiga que veio a este mundo; e manda a verdade que se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha differente das formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais bojuda. Tchong-Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a meio corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos seus furos, por onde se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando a competente linha atraz de si. É a gloria!...
E reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura como a cintura d'uma dama espartilhada?
D´antes não era assim. Consigna-se o facto como indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança atavica, a impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, a formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que hoje passeiam sobre a terra.
Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita á soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o passado sorriso de motejo, que valia uma injuria, despiu-a da pelle monstruosa que lhe dera por expiação do seu peccado, restituiu a peregrina belleza que lhe era propria. O imperador, antes que a consorte volvesse aos seus labores divinos, poude vêl-a, e por longos annos, no completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que já lhe tributava incondicional veneração, graças aos seus prodigios, que tanta ventura lhe trouxeram e prosperidade no imperio, poude então tambem amal-a apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta formosura. Imagine quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam correndo encantadoras, na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas de marmore e rodendo de jardins, e no afan de festejarem aquella lua de mel, tardia embora, que Ihes apparecia no horisonte!..
Macau. Wenceslau de Moraes.
Brasil-Portugal: revista quinzenal illustrada, 1 de out 1901





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