Sim, havia muitos chapéus; mas um certo chapéu, posto teimosamente na cabeça de um inglês assistindo a uma procissão católica, deu azo a um grande escândalo em Macau e que ecoou por toda a parte. Foi justificação para a tão em voga ideia de união ibérica e para páginas apaixonadas de quem considerou que nem este episódio serviria de argumento para se juntarem as coroas de Portugal e de Espanha. Poderia ter resultado num conflito de grandes dimensões...
Como se não bastassem as preocupações que ao governo causavam as impertinências das autoridades chinesas de Cantão e das suas dependentes que cercavam Macau, apareceu ainda um inglês a pretender desrespeitar-nos, dando, porém, ensejo a que se provasse que a energia de Amaral se não mostrava apenas para com os chineses, mas para com todos os que tentassem por qualquer forma mostrar menos consideração pelas nossas autoridades ou pelos nossos usos e costumes. Ele cortava a direito, não olhando a credos, nacionalidade ou posição social. (…) Contudo, a irritação da população portuguesa perante o insulto recebido é tal que é precisa a autoridade de Amaral para impedir que a artilharia de terra bombardeasse o navio «Canton» e, para se respeitar a segurança dos súbditos britânicos que viviam na cidade, a maioria dos quais aliás, lamentando o sucedido, fora cumprimentar o Governador.
O comandante da guarda, tenente de artilharia Marcelino Machado Mendes, é dispensado do serviço por se não ter oposto à retirada da força assaltante. O acto fora tão inesperado e durara tão pouco tempo que sessenta homens que se chegaram a armar para lhes fazer frente, não chegaram a tempo. Num ofício enviado ao governo de Hong-kong nesse mesmo dia, Amaral queixa-se do insulto feito à bandeira portuguesa por Keppel, que vioIara o direito das gentes usando da força sem prévia ameaça e comunica que contra tal oficial, como responsável pelo assassínio, os parentes do soldado morto vão requerer nos tribunais competentes. (...)
Levanta-se o auto do corpo de delito mas, não existindo o preso, é arquivado. A viúva do soldado morto, passa procuração ao nosso Ministro em Inglaterra, Visconde de Moncorvo, para requerer uma pensão que lhe foi concedida pelo governo inglês. Este caso ficou definitivamente arrumado quando o Ministro inglês, Lord Palmerston deu a Portugal, oficialmente, todas as satisfações e censurou Keppel.
Esboço da História de Macau de Artur Levy Gomes, 1957
Vir um estrangeiro, um matalote inglez, cheio de orgulho e... talvez de cerveja, desacatar-nos, na propria casa, a nossa religião, conservando por acinte, e com escandalosa contumacia, o seu chapéo na cabeça em quanto o REI dos reis, o DEUS VIVO, atravessava, em toda a pompa eucharistica, as ruas de Macau, em dia de Corpus Christi...
Vir, depois, com ares de Roldão, o capitão Keppel, commandante da esquadrilha, surta n'aquelle porto, exigir grosseiramente, arrancar á força d'armas, e com effusão do sangue dos soldados da nossa guarnição, o delinquente, o sacrilego convicto, á levissima correcção de cinco dias de carcere, a que o tinha condemnado a authoridade civil e que, por deferencias partidarias, já se lhe commutava no pagamento da multa de cinco taieis de prata, comentando-se, por ultimo, o governador portuguez, que cuja severidade afroixava na razão, em que recrudescia a philaucia insular, com que se pedisse ao juiz, por favor, a liberdade do prezo...
E, por fim de tudo, reclamar-se de Lisboa, supplicar-se submissamente uma satisfacção, que sanasse, de alguma forma, a injuria, que curtiramos diante de toda a Europa...e não obter senão despreso, e uma esmola de dinheiro!... É, na realidade, para desesperar. Não ha nada que mais custe a uma nação de brios: Mas que se Ihe ha de fazer? Como se ha de escapar a isto? fugindo de Scilla para Carybdes? sacudindo o jugo britanico pela união com a Hispanha?
Não. Resposta nacional ás pretenções ibericas de Antonio Pereira da Cunha, 1857
Ao passar á luz do dia pelas ruas publicas de Macáo, cidade portugueza, uma solemne procissão de Corpus Christi, estava vendo-a um subdito inglez de chapeo na cabeça. O governador da cidade, que ali ia de grande uniforme, lhe mandou que se descobrisse. Promptamente tirou o inglez o chapeo; mas tornando a si depois da surpreza, tornou a pôlo dizendo que não queria obedecer. O governador, João Maria Ferreira do Amaral, mandou que fosse prêso e levado a um corpo de guarda. Depois ordenou que fosse entregue ao juiz de direito para o julgar.
O capitão Keppel, chefe de uma esquadrilha britannica que se achava em Macáo, foi, acompanhado de dois officiaes ingleses, apresentar-se ao governador portuguez, e lhe exigiu que pozesse em liberdade o individuo prêso. Disse-lhe o governador, respondendo ás suas perguntas (e podemos assegurar isto como cousa authentica) que o castigo que se imporia provavelmente ao sujeito em questão seria o de 5 dias de prisão; que se podia commutar esta pena pagando elle 5 taieis de prata (uns 5:000 réis); que poderia sair logo da prisão, se alguem prestasse fiança por elle (para o pagamento dos 5 taieis); e em summa, que se o sr. Keppel lhe pedia a liberdade do prêso como um favor ou obsequio, o conseguiria do juiz de direito.
O sr. Keppel respondeu que elle não podia nem admittia favores; que exigia officialmente que o prêso fosse immediatamente posto em liberdade. A isto respondeu o governador de Macáo que, se exigia d´essa maneira, não lhe era dado condescender, e que o negocio seguiria os tramites judiciaes.
O capitão Keppel então decidiu nada menos que desembarcar gente armada, invadir o territorio de Macáo, e tirar o prêso da prisão, e levou tudo isto a cabo, ficando morto um soldado portuguez, e feridos dois ou tres, apesar de não terem podido fazer defensa alguma, em consequencia da surpresa, e de não terem as suas armas carregadas.
O governo de Lisboa reclamou; como não podia deixar do fazer, porém o de Londres não impoz o menor castigo ao sr. Keppel. (...) Contentou-se o ministerio inglez com assignar uma pequena pensão (ignorámos de que fundo) á viuva do soldado morto, e 500 mil réis para serem repartidos entre os que foram feridos na referida occorrencia.
O governo de Lisboa, não podendo evitar o insulto que a Inglaterra lhe tinha feito por meio do seu comodoro, nem tendo meios de vingar-se, acceitou (e por ventura n´isto esteve a sua falta) a mencionada satisfação em dinheiro, e temendo ainda offender a sua protectora, deu ordem ao governo de Macáo para que não fizesse alardo do que havia obtido da Gram- Bretanha. Tanto assim, que o periodico d´aquella cidade, que publica até as ordens concernentes aos soldados rasos da guarnição, guardou acêrca d´esta materia o mais profundo silencio! Não sabemos que um povo, que se ufana de independente, possa soffrer humilhação maior do que esta.
Diz um auctor de direito internacional, que se faz ultrage maior a uma nação invadindo-lhe sem necessidade o territorio, do que conquistando-lh´o. E tem razão, porque, a effectuar uma conquista pode um governo ás vezes ser forçado por motivos d´alta politica; porém uma invasão do territorio, como por exemplo, a do capitão Keppel, só póde ter por fundamento o desprezo com que se olha o paiz que se invade.
Se á Irlanda lhe é proveitoso estar unida com a Inglaterra, quanto mais o não seria a Portugal o estar reunido á Hespanha? (…)
O bispo de Macáo D. Jeronymo José da Matta é um entusiasta iberico. Este virtuoso e sabio prelado achou-se duas vezes desempenhando o cargo de Presidente do Conselho do Governo daquelle estabelecimento em consequencia dos ultimos successos alli occorridos. Os differentes apuros em que se tem visto durante tão criticas circunstancias, e as invasões que tem soffrido na sua qualidade de chefe das missões catholicas portuguezas na China o tem naturalmente obrigado a lançar as vistas sobre a proxima e opulenta colonia hespanhola das Philippinas; d´onde tanto Macáo como as missões teriam podido receber prompto e dobrado soccorro de todas as especies se Portugal e a Hespanha não formassem mais que uma só nação (...).
Sinibaldo de Mas, um dos principais mentores da união das coroas, ministro plenipotenciario de sua magestade catholica na China e residente em Macau, reclamou grande protagonismo no triste episódio. Depois deste seu texto, vejamos a carta que enviou ao ministro dos negócios estrangeiros, em Madrid:
Ill.mo e Ex.mo Sr. - No dia 7 do corrente, por ser o dia da celebração de Corpus Christi, houve aqui uma procissão, a que assistiu o governador. Um missionario protestante, chamado Summers, estava vendo-a passar sem tirar o chapeo. Parece que isto desgostava, e até irritava a varios circumstantes; e quando o governador o viu, mandou-lhe uma ordenança a dizer-lhe que se descobrisse; mas elle respondeu que não queria.
Então o governador ordenou quo fosse preso para o proximo corpo de guarda, e no dia seguinte o remetteu com um officio (...) ao juiz d´este estabelecimento. No dia seguinte devia haver aqui uma corrida ou regata de barcos á véla e a remos, a qual tinham disposto alguns negociantes americanos e inglezes, o que tinha dado motivo a reunirem-se nesta bahia os tres navios de guerra dos Estados Unidos, que se achavam na China, e o bergantim da guerra inglez Colombine, a corveta de egual classe Amazon, a fragata a vapor Medea, e a de vela Moeander, todas ás ordens do capitão H. Keppel, que, por estar actualmente em Singapura o almirante da esquadra britannica nestas aguas, era o chefe superior da marinha na China. Tambem se achava na bahia, proximo á terra, o vapor mercante inglez Canton.
Na manhã do dia 8 escreveu o sr. Summers da prisão um bilhete para ver se o capitão Keppel quereria dar algum passo em seu favor. Foi este em seguida e o capitão Troubridge, commandante da Amazon, e o capitão de infanteria Staveley, que se achava aqui com licença, e exigiu do governador que pozesse immediatamente em liberdade ao sr. Summers.
O sr. Troubridge, segundo disse o governador de Macáo, portou-se com muito pouco comedimento nas suas palavras; o governador disse em substancia ao capitão Keppel, que o individuo havia já sido posto em mãos da justiça civil; porem que, se se lhe pedia como um favor a sua liberdade, alcança-la-hia do juiz, em obsequio a elle. O capitão Keppel respondeu, que não queria pedir favores, senão que exigia (I demand) que o individuo fosse posto immediatamente em liberdade. Ao que o governador, o Sr. Amaral, respondeu, que lh´o não podia fazer.
Retirou-se o comodoro Keppel, e dirigiu ao governador um officio (...). O capitão Keppel tinha ha tres semanas estado em Macáo, durante um ou dois dias, e me havia feito uma visita; tendo vindo no dia 7 para se achar aqui no dia da corrida dos barcos, que devia verificar-se no dia seguinte, fui pagar-lhe a visita á uma para as duas horas da manhã do mesmo dia a casa do sr. P. Stewart, cavalheiro inglez, residente n´este estabelecimento, na qual estava alojado o capitão Keppel, que eu ouvira dizer que partia para Manila no dia seguinte. Perguntando-lhe eu, se com effeito partia, respondeu-me que tal havia sido a sua intenção; mas que, n´aquelle momento, não sabia se teria de deter-se, um ou mais dias, em consequencia de um caso desagradavel, que havia occorrido.
Então me referiu o negocio do missionario Summers, assegurando-me que havia de fazer com que elle saísse da prisão; porque, a não tira-lo d´alli o governador, iria elle mesmo pô-lo em liberdade. Estando n´isto, entraram o commandante da Amazon e o capitão Staveley, que traziam a resposta do sr. Amaral. Como ninguem alli entendia o portuguez, offereci-me para o traduzir (...).
O sr. Keppel, depois de inteirado do offlcio, disse: isto não é responder (this it no answer at all) e mandou ao capitão da Amason, que enviasse no mesmo instante aquella carta. Eu não sabia que carta era; mas suppuz, pelas violentas expressões que ouvia aos ditos senhores, que era portadora de disposições bellicosas.
O capitão Keppel, em especial, me havia dito duas ou tres vezes: quero que me enforquem, se eu não soltar este homem (I will be hung, if I have not that man). Conhecendo eu o sr. Amaral como homem de uma energia, valor e resolução a toda a prova, estando certo de que no presente caso sustentaria o seu direito até perder a vida, e vendo por isso, que uma grande catastrophe estava imminente sobre Macáo, julguei chegado o momento de dizer ao capitão Keppel a minha opinião franca, como homem que a podia emittir em materia de direito internacional; e assim tratei de o chamar de parte a um terraço da casa, d´onde se divisava a bahia. Ainda que era esta a primeira vez que eu via o comodoro, manifestei-lhe em termos que não ferissem o seu amor proprio, mas bem claramente, que elle estava imbuido n´um grande erro, crendo que tinha direito para intervir no assumpto do sr. Summers; que todo o homem que vae a um paiz, se acha sujeito ás suas leis e auctoridades; que quando crê que é tractado com injustiça, apella para as auctoridades ou tribunaes que tem jurisdicção sobre aquellas; e que nunca podia competir a uma auctoridade ingleza, e muito menos ao commandante de um navio de guerra inglez, o sindicar dos procedimentos de um governador ou tribunal de uma cidade, por exemplo, de Portugal, ou de França, qualifica-los segundo a sua propria auctoridade e segundo o seu modo de ver, como exigir alteração dos ditos procedimentos conforme a sua vontade ou capricho, e passar depois a terra e impor á mão armada a sua vontade como lei. (...)
Tudo isto escutou com muita attenção, dando evidentes provas de ficar persuadido, e só me respondeu: «Porém não lhe parece a V.... que, quando fui pedir ao governador que soltasse o sr. Summers, deveria te-lo feito, ainda que não fosse mais que por attenção para commigo?» V… respondi-lhe eu, pô-lo na impossibilidade de o fazer; elle offerecia-lh´o como um favor; porém V.... respondeu-lhe, segundo V.... proprio m´o contou, que não queria admittir-lh´o como um favor; que antes o exigia como um dever; o que equivale a dizer que lh´o ordenava. E quer V … admittir o principio de que o governador de Macáo devo receber ordens de V....?
Tudo isto escutou com muita attenção, dando evidentes provas de ficar persuadido, e só me respondeu: «Porém não lhe parece a V.... que, quando fui pedir ao governador que soltasse o sr. Summers, deveria te-lo feito, ainda que não fosse mais que por attenção para commigo?» V… respondi-lhe eu, pô-lo na impossibilidade de o fazer; elle offerecia-lh´o como um favor; porém V.... respondeu-lhe, segundo V.... proprio m´o contou, que não queria admittir-lh´o como um favor; que antes o exigia como um dever; o que equivale a dizer que lh´o ordenava. E quer V … admittir o principio de que o governador de Macáo devo receber ordens de V....?
Offereci-lhe por varias vezes os meus serviços, indicando-lhe bem claramente que poderia ter em mim, a qualquer hora que quizesse, um medianeiro amigavel. A tudo se mostrou agradecido; e, ao despedir-se, disse-me que podia mandar-lhe as minhas cartas para Manila, porque no dia seguinte, ao amanhecer, sem falta havia de fazer-se á vela.
Antes de passar adiante devo manifestar a v. ex.ª que o commandante da curveta americana Plymouth tinha convidado o governador e todas as pessoas notaveis de ambos os sexos, e existentes em Macáo, para que fossem a bordo do seu navio para verem a corrida dos barcos, a que mui poucas foram, por causa do máo tempo. Em quanto eu estava fallando com o capitão Keppel no terraço de sua casa, vimos o governador, que embarcava com o sr. Rouen, enviado de França, e com a senhora d´este, para se dirigirem á Plymoulh, distante algumas milhas de terra, e n´esta ocasião disse o sr. Keppel: «Agora parte o governador, e não podem fazer nada.»
Tudo isto contribuiu para que eu ficasse na persuasão de que o sr. Keppel não commetteria violencia alguma, e assim é que fui para minha casa escrever as cartas para Manila, porque desejava ir depois ver as corridas dos barcos a remo, que deviam começar ás 4 da tarde, e depois tinha que ir jantar ás 7 com o sr. Keppel e as pessoas mais notaveis da cidade em casa do consul americano o sr. Forbes, que era um dos directores da festa. (...)
Seis botes uns 150 homens armados entre marinheiros e soldados, os quaes chegaram pela volta das 4 horas sem que ninguem reparasse n´isso, pelos muitos botes que cruzavam a bahia; e fosse que o comodoro Keppel dissimulasse, ou que depois de eu o deixar, outros o instigassem (e isto é o mais provavel) desembarcaram d´aquelles botes 40 ou 50 marinheiros com carabinas, e metteram-se n´uma casa habitada por uma familia ingleza que hoje se acha em Hong-Kong, casa que tem na frente opposta outra porta que distará uns dez passos da casa da camara de Macáo. N´esta se achava a sua guarda composta de 1 sargento e 8 homens, e 7 peças de artilharia de calibre 8; duas estão sempre alli carregadas, e naquelle dia havia mais cinco que se haviam trazido na tarde anterior para dar a salva á procissão. Os marinheiros inglezes iam capitaneados por um official da esquadra. O capitão de infanteria Staveley, da guarnição de Hong-Kong, também se achava com elles para lhes ensinar o caminho, segundo creio; porque havia ido pela manhã visitar o sr. Summers.
Ao saírem os inglezes pela esquina fronteira á frente da casa do senado, dispararam uma descarga sobre a guarda, que não poude fazer a menor defesa, por não ter as armas carregadas, e haver sido completamente surprehendida.
A sentinella parece que calou a baioneta; desarmaram-na porém tirando-lhe a espingarda em que estavam penduradas as chaves dos armões das peças; entraram no edificio disparando tiros; um soldado que não pertencia á guarda, e que, ao ouvir os tiros, saiu desarmado, recebeu duas ou tres balas, que o deixaram morto; o sargento e dois soldados ficaram feridos; grande parte dos inglezes ficaram aqui, tendo prisioneiros os soldados da guarda feridos e sãos; e os restantes cercaram a outra esquina contigua, e a poucos passos acharam o carcere onde estavam um cabo e quatro homens com as armas descarregadas, surprehenderam-nos e desarmaram-nos, disparando ao mesmo tempo alguns tiros, aos quaes a filha do carcereiro se lançou por uma janella, ficando gravemente molestada; arrombaram a porta do carcere, tiraram o missionario Summers, e marcharam comtudo pelo mesmo caminho por onde haviam vindo, embarcando-se precipitadamente.
O sitio do embarque está a algumas braças de um posto principal contiguo á casa ou palacio do governador, na qual ha uma guarda de official, que tem em frente uma bateria de cinco peças de calibro 16. Ao retirarem-se os inglezes aos seus botes, já sabía a guarda principal o que tinha acontecido; mas achando-se sem ordens ou instrucções algumas, ninguem se atreveu a mandar fazer fogo, e os botes se retiraram tranquillamente, sem que ninguem os molestasse, levando comsigo o missionario, objecto da sua expedição.
O governador de Macáo voltou ás cinco horas da tarde, sabendo pelo caminho o que havia succedido; em seguida mandou a Hong-Kong um official com uma comunicação dando parte ao governador d´aquella ilha, o sr. Bonham, do tudo o occorrido. O comodoro Keppel não veiu a terra jantar nem individuo algum dos navios do guerra inglezes. (...).
Na noite do dia 8, e durante o dia 9, houve bastante irritação entre os portuguezes, e principalmente entre os soldados nacionaes; porém nenhum acto injurioso se commetteu contra os muitos iuglezes que aqui se achavam. Só a casualidade do haver-se achado ausente o governador livrou Macáo na tarde do dia 8 d´uma grande calamidade. (...)
Macáo podia defender-se; mas podia tambem succumbir; e o peor sería que a esquadra ingleza, no caso de ficar victoriosa, se haveria talvez retirado, deixando estes habitantes, por assim dizer, á mercê dos chinas de fóra e de dentro, achando-se, como se acha o governador portuguez ha algum tempo, em lucta com os mandarins por várias providencias atrevidas que tomou (...)
Macáo 13 de Junho de 1849. (...)
La Iberia, Memoria sobre as vantagens da união de Portugal e Hespanha de Sinibaldo de Mas,1853.
Na 1ª página do jornal brasileiro, O Correio da Tarde, de 8 de novembro de 1849, vem transcrita a notícia do Times, de 27 de agosto, de onde se pode concluir pela visão inglesa deste episódio:
Occorreu ha pouco na antiga colonia portugueza de Macau um cazo que ha excitado muito interesse fóra, e que talvez occasione alguma discussão no interior. Na ultima mala da India consagram-se alguns paragraphos a esta anecdota, mas os nossos leitores hão de querer saber mais de uma historia que tem tres passagens que devem merecer alguma attenção h’este paiz. Ha em Hong-Kong um capellão inglez que dirige alli uma escóla gratuita, na qual Mr. Summers, tambem Inglez, he professor substituto. A 7 de junho passado Mr. Summers, como parece, para divertir-se fez uma digressão a Macau; desembarcou do barco, e passeou pela cidade. Em rua estreita encontrou uma grande procissão religiosa, á qual todo o povo ajoelhava e tributava acatamento. Mr. Summers, conhecendo que esta cerimonia era symbolo de doutrinas, das quaes dissentia, recusou descubrir-se, posto que advertido duas vezes para o fazer; a primeira por um dos sacerdotes da procissão, e depois por um soldado. Então foi conduzido, posto que sem violencia, ao corpo da guarda, onde passou o rosto do dia sem que fosse confrontado com algum magistrado. Na manhã seguinte, soube que estava preso á ordem do Governador, e que para isto não fora requerida a autoridade de magistrado, mas que seria entregue ás autoridades judiciaes para o julgarem. Durante o processo e sentença foi removido para outro locaI, que soube ser nada menos que a cadêa ordinaria. O negocio começava a tornar-se desagradavel, e Mr. Summers entrou a cuidar dos meios de pôr-se em liberdade.
Escreveu para isso ao Consul Americano, e a um officiaI, do qual se recordava que fôra seu companheiro na viagem, supplicando-lhes os seus bons officios n’aquelle aperto, o que levemente conseguiu. O Consul Americano prudentemente não usou da sua intervenção em quanto os compatriotas de Mr. Summers faziam as suas diligencias, resolução em que mais persistiu por ouvir dizer que o negocio chegára ao conhecimento do Capitão Keppel, Commandante do navio de S. M. o Meandro, que então se achava casualmente no porto de Macau. O Capitão Keppel procedeu exactamente como um marinheiro. Primeiro foi ter com o Governador, acompanhado de dois officiaes, um dos quaes era o que viera na companhia de Mr. Summers, e depois de uma explicação do que se passara, requereu a soltura do preso. Recusada esta, mandou pedir a mesma por escripto, e não sendo mais bem succedido n’este novo methodo de negociação, reuniu os botes, juntou a tripulação do escaler, e marchou quietamente para a cadêa sob a artilharia de cinco fortes e a tiro de espingarda do quarto de dormir do Governador, e tirou Mr. Summers da prisão. Se o negocio acabára n’isto não daria tanto que fallar, mas infelizmente no fracasso dispararam-se armas de fogo, e matou-se um soldado Portuguez. Esta infeliz perda de uma vida excitou naturalmente a discussão ácerca do procedimento de Mr. Summers e do Governador.
Enquanto ao primeiro d’estes pontos, não haverá quem negue que um professor protestante tinha o direito e obrigação de recusar, fossem quaes fossem as circunstancias, tributar homenagem a um acto que reputava idolatria; mas uma grande parte se inclinará, como entendemos, a lamentar que Mr. Summers fosse tão rígido nas suas praticas em occasião tão pouco opportuna (…).
Segundo elle mesmo conta, foi tão contumaz no seu protestantismo que difficultosamente devia esperar indulgencia da multidão enfurecida, e talvez foi bom para elle ser levado por um guarda. O segundo ponto da questão he mais intrincado e importante. Não será necessario recordar aos nossos leitores que o estabelecimento de Macau he uma das poucas reliquias da grandeza colonial de Portugal, mas cumpre accrescentar que a Corôa o não possui independentemente. Recebeu-a do Imperador da China condicionaImente (…). A jurisdicção sobre os subditos das outras Nações, ainda pertence, fallando restrictamente, á soberania do Imperio, e esta jurisdicção foi reservada, no caso de subditos Britannicos, aos representantes da Corôa da Grã-Bretanha. Portanto, ainda que Mr. Summers houvesse commetido uma offensa (…) pertencia ás autoridades de Hong-Kong, e he a esta que se devia requerer o castigo do delinquente. (…) Parece que o Governador de Macau excedeu os seus poderes, e expoz-se voluntariamente a um castigo summario para violar os direitos de um subdito Britannico.
Nao obstante esta justificação, que nasce da letra da lei, provavelmente se julgará que, com um pouco mais de juizo e paciencia da parte do Commandante Britannico, o negocio terminaria mais pacificamente e com mais credito; mas ainda assim o procedimento do Capitão Keppel admitte grande defesa. Ao mesmo tempo o Governador recusou soltar o preso, declarou que seria julgado, conforme as leis, pelas autoridades judiciaes, e as leis nas colonias Portuguezas, sabe-se bem que são mui vagarosas.
Ha mais de um facto n´estes ultimos dez annos de subditos Britannicos mortos por serem presos n´aquella mesma cadêa; e como o Meandro estava para sahir das aguas de Macau, o Commandante lngIez assentou que não tinha tempo a perder, se se queria salvar a vida de um subdito Britannico.
Tão pouco serio se reputava o negocio, que os botes do Meandro, depois de haverem prestado este serviço, entraram em uma regatta, e ganharam o premio de 60 dollars na tarde do mesmo dia, depois do que a fragata deu á vela para Manilha. Foi uma fortuna que o Governador não estivesse na praia, no momento do desembarque dos Inglezes, pois era homem de resistir até ao extremo (…). Mostrou a maior indignação e fúria, fez um funeral publico ao soldado, e convidou para assistir á cerimonia o Capitão da fragata americana surta no porto. Os que presenciaram o negocio consideram mais provavel que o soldado fosse morto pelos seus camaradas; pois ainda que um Boletim extraordinario attribue a breve derrota das guardas portuguesas a não terem munições, todavia os nossos oficiaes dizem que deram uma descarga, e de modo que a direcção das balas só era dirigida pela Providencia. (…)
O mesmo jornal fazia também referência ao Periodico dos Pobres do Porto que descrevia o artigo do Times como encomendado e escrito com uma hypocrisia nojenta e nojenta patranha a alusão a ingleses mortos nas prisões de Macau...
Occorreu ha pouco na antiga colonia portugueza de Macau um cazo que ha excitado muito interesse fóra, e que talvez occasione alguma discussão no interior. Na ultima mala da India consagram-se alguns paragraphos a esta anecdota, mas os nossos leitores hão de querer saber mais de uma historia que tem tres passagens que devem merecer alguma attenção h’este paiz. Ha em Hong-Kong um capellão inglez que dirige alli uma escóla gratuita, na qual Mr. Summers, tambem Inglez, he professor substituto. A 7 de junho passado Mr. Summers, como parece, para divertir-se fez uma digressão a Macau; desembarcou do barco, e passeou pela cidade. Em rua estreita encontrou uma grande procissão religiosa, á qual todo o povo ajoelhava e tributava acatamento. Mr. Summers, conhecendo que esta cerimonia era symbolo de doutrinas, das quaes dissentia, recusou descubrir-se, posto que advertido duas vezes para o fazer; a primeira por um dos sacerdotes da procissão, e depois por um soldado. Então foi conduzido, posto que sem violencia, ao corpo da guarda, onde passou o rosto do dia sem que fosse confrontado com algum magistrado. Na manhã seguinte, soube que estava preso á ordem do Governador, e que para isto não fora requerida a autoridade de magistrado, mas que seria entregue ás autoridades judiciaes para o julgarem. Durante o processo e sentença foi removido para outro locaI, que soube ser nada menos que a cadêa ordinaria. O negocio começava a tornar-se desagradavel, e Mr. Summers entrou a cuidar dos meios de pôr-se em liberdade.
Escreveu para isso ao Consul Americano, e a um officiaI, do qual se recordava que fôra seu companheiro na viagem, supplicando-lhes os seus bons officios n’aquelle aperto, o que levemente conseguiu. O Consul Americano prudentemente não usou da sua intervenção em quanto os compatriotas de Mr. Summers faziam as suas diligencias, resolução em que mais persistiu por ouvir dizer que o negocio chegára ao conhecimento do Capitão Keppel, Commandante do navio de S. M. o Meandro, que então se achava casualmente no porto de Macau. O Capitão Keppel procedeu exactamente como um marinheiro. Primeiro foi ter com o Governador, acompanhado de dois officiaes, um dos quaes era o que viera na companhia de Mr. Summers, e depois de uma explicação do que se passara, requereu a soltura do preso. Recusada esta, mandou pedir a mesma por escripto, e não sendo mais bem succedido n’este novo methodo de negociação, reuniu os botes, juntou a tripulação do escaler, e marchou quietamente para a cadêa sob a artilharia de cinco fortes e a tiro de espingarda do quarto de dormir do Governador, e tirou Mr. Summers da prisão. Se o negocio acabára n’isto não daria tanto que fallar, mas infelizmente no fracasso dispararam-se armas de fogo, e matou-se um soldado Portuguez. Esta infeliz perda de uma vida excitou naturalmente a discussão ácerca do procedimento de Mr. Summers e do Governador.
Enquanto ao primeiro d’estes pontos, não haverá quem negue que um professor protestante tinha o direito e obrigação de recusar, fossem quaes fossem as circunstancias, tributar homenagem a um acto que reputava idolatria; mas uma grande parte se inclinará, como entendemos, a lamentar que Mr. Summers fosse tão rígido nas suas praticas em occasião tão pouco opportuna (…).
Segundo elle mesmo conta, foi tão contumaz no seu protestantismo que difficultosamente devia esperar indulgencia da multidão enfurecida, e talvez foi bom para elle ser levado por um guarda. O segundo ponto da questão he mais intrincado e importante. Não será necessario recordar aos nossos leitores que o estabelecimento de Macau he uma das poucas reliquias da grandeza colonial de Portugal, mas cumpre accrescentar que a Corôa o não possui independentemente. Recebeu-a do Imperador da China condicionaImente (…). A jurisdicção sobre os subditos das outras Nações, ainda pertence, fallando restrictamente, á soberania do Imperio, e esta jurisdicção foi reservada, no caso de subditos Britannicos, aos representantes da Corôa da Grã-Bretanha. Portanto, ainda que Mr. Summers houvesse commetido uma offensa (…) pertencia ás autoridades de Hong-Kong, e he a esta que se devia requerer o castigo do delinquente. (…) Parece que o Governador de Macau excedeu os seus poderes, e expoz-se voluntariamente a um castigo summario para violar os direitos de um subdito Britannico.
Nao obstante esta justificação, que nasce da letra da lei, provavelmente se julgará que, com um pouco mais de juizo e paciencia da parte do Commandante Britannico, o negocio terminaria mais pacificamente e com mais credito; mas ainda assim o procedimento do Capitão Keppel admitte grande defesa. Ao mesmo tempo o Governador recusou soltar o preso, declarou que seria julgado, conforme as leis, pelas autoridades judiciaes, e as leis nas colonias Portuguezas, sabe-se bem que são mui vagarosas.
Ha mais de um facto n´estes ultimos dez annos de subditos Britannicos mortos por serem presos n´aquella mesma cadêa; e como o Meandro estava para sahir das aguas de Macau, o Commandante lngIez assentou que não tinha tempo a perder, se se queria salvar a vida de um subdito Britannico.
Tão pouco serio se reputava o negocio, que os botes do Meandro, depois de haverem prestado este serviço, entraram em uma regatta, e ganharam o premio de 60 dollars na tarde do mesmo dia, depois do que a fragata deu á vela para Manilha. Foi uma fortuna que o Governador não estivesse na praia, no momento do desembarque dos Inglezes, pois era homem de resistir até ao extremo (…). Mostrou a maior indignação e fúria, fez um funeral publico ao soldado, e convidou para assistir á cerimonia o Capitão da fragata americana surta no porto. Os que presenciaram o negocio consideram mais provavel que o soldado fosse morto pelos seus camaradas; pois ainda que um Boletim extraordinario attribue a breve derrota das guardas portuguesas a não terem munições, todavia os nossos oficiaes dizem que deram uma descarga, e de modo que a direcção das balas só era dirigida pela Providencia. (…)
O mesmo jornal fazia também referência ao Periodico dos Pobres do Porto que descrevia o artigo do Times como encomendado e escrito com uma hypocrisia nojenta e nojenta patranha a alusão a ingleses mortos nas prisões de Macau...
Boletim do Governo da Provincia de Macao, Timor e Solor
9 de jun de 1849










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