A zombaria occulta da escripta chineza

Revista Serões, set 1905 
Revista Serões, set 1905. 2

Poucos leitores acolherão sem incredulidade a ideia de que existe espirito em qualquer cousa dos chinezes, e muito especialmente na sua lingua. Pois existe realmente um fundo extraordinario de zombaria occulta, não só debaixo do aspecto impassivel e apatetado do china, mas especialmente sob os caracteres fantasticos que constituem a sua linguagern escripta, tão intrincados para toda a gente que não haja nascido ou vivido no Celeste Imperio. Na forma original, não passam os caracteres chinezes de grosseiros contornos dos objectos que eram destinados a representar. 

Mas desde essa construcção original, com o andar dos seculos, fizeram-se alterações na formação de muitos d’esses caracteres e eliminaram-se linhas menos importantes, deixando apenas aquellas cujo conjuncto representava para o espirito chinez a forma especial ou os pontos essenciaes da imagem.

A palavra chineza que designa um homem, por exemplo, serve perfeitamente para demonstrar a maneira impiedosa com que foram mutiladas algumas das formas primarias e suggestivas d’essas imagens, até ficarem reduzidas a representações inintelligiveis a quem não seja chinez. O alumno mais pequenito de qualquer escola elementar seria capaz de interpretar a escriptura chineza, se todos os caracteres fossem tão simples como a palavra original que designa um homem, a qual tem a reproducção sufficientemente clara do objecto representado. Era essa a forma adoptada quando o povo chinez iniciou as suas tentativas para expressar as ideias por signaes graphicos, n’uma epoca que ainda não poude ser determinada. Na forma presente, a palavra foi consideravelmente reduzida, tendo desapparecido a cabeça e os membros superiores e restando apenas o tronco e as pernas. 

Todas as palavras da lingua chineza teem uma razão logica de existencia e de forrnação, e cada uma d’ellas consiste ou n’um caracter individual, ou n’um certo numero de caracteres combinados de maneira que completem uma palavra. Torne-se, por exemplo, a palavra campo, representada por um quadrado dividido em secções ou lotes. Quando se escreve ao lado d´este a palavra homem, a combinação expressa a palavra lavrador. Mais suggestiva ainda é a palavra que exprime verdade, sinceridade, lealdade, honradez. É formada pela combinação de um homem e do caracter que designa em geral palavra. Assim expressa que uma das formas da honradez consiste em o homem estar ligado á sua palavra.

A palavra caixa é indicada por um quadrado, e um preso é litteralmente um homem dentro de uma caixa. A ideia não é de todo metaphorica na China, onde os condemnados á morte são levados ao logar da execução dentro de um caixote de superficie quadrangular. Não é difficil reconhecer o caracter chinez que designa uma porta. Colloque-se entre os humbraes d’essa porta a palavra bocca, e representar-se-ha o verbo pedir, evidente allegoria aos mendigos e vagabundos que importunam as casas chinezas. 

O mau habito de escutar ás portas, trouxe á linguagem chineza a combinação que representa o verbo ouvir, o caracter que exprime ouvido collocado no meio da porta. As portas das casas chinesas são fechadas com uma tranca de madeira atravessada pela parte de dentro; d’ahi deriva a forma graphica do verbo fechar. 

No chinez, a palavra bem é cheia de uma significação profunda e suggestiva. Consiste nas palavras mulher e filho combinadas. E dupla a significação allegorica do termo, suggerindo a um tempo o grande valor que um pae chinez attribue a um filho masculino, e a felicidade que cabe á mulher quando presenteia seu marido e senhor com um herdeiro. Este facto tem para ella uma immensa importancia, porque a levanta de um estado de escravidão a uma condição mais elevada, na qual gosa de um respeito e de uma estima a que até então não a haviam habituado. Em vista da situação deprimente da mulher chineza, e da obscuridade a que a relega a sociedade do seu paiz, não surprehende porventura que poucas palavras haja na lingua chineza em que o vocabulo mulher se empregue para trazer á mente qualquer significado bom. Uma palavra ha, comtudo, que parece indicar a ideia que o china faz da mulher quando isolada: é a palavra paz, formada por uma mulher debaixo de um tecto. 

Mas é excepcional esta ligeira concessão feita em favor do bello sexo na lingua escripta dos chinezes. Os seus inventores tiveram evidentemente o proposito de reprimir a inconsciente tendencia para a vaidade, formando com duas mulheres juntas a palavra que significa desordem e com tres mulheres combinadas a palavra que designa intriga. 

Esta philosophia pessimista faz quasi perder a fé na mulher - pelo menos na mulher chineza. A forma mediocremente polida porque o chinez lança mão da propria noiva está illustrada na palavra agarrar, expressa por uma mulher agachada debaixo de umas garras. E a palavra esposa, indicada por uma mulher ao lado de uma vassoura, demonstra a opinião do chinez com respeito á sua companheira do lar.

Serões, revista mensal ilustrada, setembro de 1905

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