Portugal é a quarta potência colonial do mundo, com um passado cheio de tradições, de aventura, arrojo e abnegação. (…) Capitães, missionários e mercadores – entre os quais jamais esquecerão o bondosíssimo S. Francisco Xavier e o audaz Fernão Mendes Pinto – chegam até às remotas ilhas do Japão antes que nenhuns outros europeus e fixam-se em Macau, no próprio território do imenso Império Chinês (…).
Desde velho tempo que, na expansão da grei por terras longínquas, temos presente a ordem de D. Sebastião ao grande vice-rei da Índia, D. Diniz de Ataíde: «Fazei muita cristandade; fazei justiça». A esse comando de alta espiritualidade temos sabido permanecer fieis através dos séculos. (…)
A PEQUENA colónia portuguesa de Macau, que é considerada a «pérola do Oriente», foi fundada em 1557. É, portanto, o primeiro estabelecimento europeu no Extremo Oriente. Até aos meiados do século XIX (1842), conservou uma importância excepcional nos mares do Oriente. A soberania e a posse desta colónia fôram completamente garantidas a Portugal pela China, por um tratado, assinado em 1887. Desde então Macau desenvolveu-se muito e é hoje uma cidade florescente, embora a concorrência do pôrto inglês de Hong-Kong a tenha prejudicado um pouco.
Se Macau é a menos extensa das colónias portuguesas, é certamente a mais bela de tôdas. Está situada na iIha de Hianchang, entre a ribeira de Cantão e a ilha de Oeste, na pequena península de Ngaoman, ao sul da China, a 40 milhas de Hong-Kong e a 88 de Cantão.
A colónia consiste numa pequena península ligada ao território chinês por um pequeno istmo onde se encontra a «Porta do Cêrco». Como dependência tem as pequenas iIhas de Taipa e Coloane. A superficie total da colónia é precisamente de 14 km2, 05. Porque ainda não foi possivel fixar positivamente a jurisdição de Macau, existe um litigio entre Portugal e a China, a respeito da posse dos territórios da parte oriental da ilha da Lapa, da ilha de D. João e da parte norte da ilha de Tai-Vong-Kam ou da Meubenta. Portugal mantém nestas localidades algumas escolas, polícia e até uma gafaria na ilha de D. João, que prestam grandes serviços à população chinêsa.
A província de Macau é de formação granítica. O granito encontra-se algumas vezes entrecortado por ligeiras camadas de feldspato ou quartso. São elevações de rocha desta natureza que produziram as oito colinas separadas que se contam nesta língua de terra. (...)
Estabeleceram-se diversas fortalezas para defesa da cidade, entre as quais a do Cerco, a 55 metros de altitude; a do farol da Guia - o primeiro que se acendeu nas costas da China em 1863 - a 93 metros; a de Santiago da Barra, a 77 metros, etc.
O clima de Macau é dos melhores, senão o melhor, de todas as cidades do sul da China, pôsto que seja considerado como tropical moderado, húmido e algum tanto chuvoso. É em Março, Abril e Maio que a humidade se faz sentir mais. Os dias de calma completa são raros e as chuvas, mais abundantes no Verão, repetem-se algumas vezes na Primavera, mas são raras no Outono e no Inverno. Assim Macau é recomendado como estação de inverno, em relação às regiões do Norte da China, onde presentemente essa estação é rigorosa. As condições de salubridade de Macau são excelentes: a temperatura média é aproximadamente de 23°; a média das máximas é de 36°2 e a das mínimas 5°8; a pressão atmosférica é de 760,60 m.m.; e humidade 78,87, sendo o número de dias de chuva cem por ano.
Em Macau, a terceira cidade em popuIação de todo o Império Português, segundo o último recenseamento, existiam 160.000 habitantes, 150.500 dos quais na península e nas embarcações ancoradas no pôrto de Macau, 5.955 na ilha e pôrto da Taipa e 3.484 na ilha e no pôrto de Coloane. A densidade da população total é de 11.187 habitantes por kilómetro quadrado, o que constitue a densidade mais elevada de tôdas as unidades político-geográficas do mundo, segundo o «Anuário Internacional de Estatística Agrícola» de Roma.
O sexo masculino compreendia 87.548 pessoas e o feminino 69.627, sendo 152.738 amarelos, 3.860 brancos e 577 negros e mestiços. Por nacionalidades contava: 939 portugueses originarios da Metrópole, 2.303 portugueses brancos e assimilados tendo nascido na colónia, 155.315 individuos de origem chinesa naturalizados portugueses; os restantes eram considerados estrangeiros.
A população total de Macau em 1916 era de 74.885 habitantes, de 83.984 em 1920. Dobrou desde esta data, o que se deve sobretudo aos acontecimentos políticos que agitam a China. Cem mil habitantes se acumulavam à data do falado recenseamento na cidade de Macau, que apresenta ruas, edifícios e um aspecto verdadeiramente interessante e pitoresco.
As suas avenidas, com as suas grandes árvores, oferecem passeios agradáveis pela frescura das suas sombras. Vélhas igrejas de arquitectura antiga, atestam por tôda a parte o esfôrço dos missionários portugueses, os primeiros que prégaram a religião cristã no Extremo Oriente. Pelas suas favoráveis condições climatéricas, pelas suas especiais condições sociais e urbanas, Macau é actualmente um dos centros de turismo mais frequentados do sul da China.
Macau distingue-se de tôdas as cidades do Extremo-Oriente pelo cunho especial nela impresso pela longa permanência do domínio português.
A Colónia de Macau é dirigida por um governador de provincia. Desde a sua separação de Timor está reduzida a duas circunscrições. A da cidade, que se desdobra em dois bairros – um de chineses, e outro de não chineses, cada um com seu administrador especial: a da Taipa e Coloane, que tem um conselho municipal presidido peIo administrador, que é igualmente o comandante militar. A Câmara Municipal (Leal Senado), administra as duas circunscrições.
Pela sua superficie reduzida, Macau não conta pròpriamente com estradas, tendo apenas ruas e avenidas. (...)
Em conseqüência da sua excelente posição geográfica sôbre o delta do rio Si-Kiang, um brilhante futuro está reservado aos portos de Macau, porque esta importante via fluvial drena quási tôda a produção das provincias chinesas do sul — Kuangsi e Kuang-Tung – a qual, sob o ponto de vista agrícola, é considerável. Macau possue um vélho pôrto e um pôrto moderno. O velho pôrto, denominado pôrto interior, encontra-se entre a cidade e a ilha da Lapa, situada em frente. O porto moderno chamado porto exterior, encontra-se no ancoradouro de Macau - vasto espaço situado entre a península de Macau e a ilha da Taipa – bastante assoreado, mas onde há alguns anos se aluiu um canal para facilitar o acesso do porto há pouco construido. (...) Além dêstes portos peninsulares, existe ainda o pequeno porto de pesca de Taipa e o do Norte da ilha de Coloane, onde teem sido introduzidos importantes melhoramentos. Os portos de Macau fôram freqüentados em 1928 por 2.697 vapores e 10.991 juncos, que embarcaram 337.840 passageiros e desembarcaram 334.331. Levaram 49.004 toneladas de mercadorias e deixaram 179.392.
O maior número de barcos que freqüentam os portos de Macau é constituído por veleiros chineses, a que se dá indistintamente o nome de juncos. Macau está diàriamente em comunicação directa com os grandes portos de Cantão, a oito horas de viagem e de Hong-Kong, a 4 horas por mar.
A rêde inter-urbana de Macau tem 190 km. de extensão, conta 900 assinantes e funciona automaticamente. Os cabos-submarinos da «Eastern Association» da rêde do Oceano Indico e os que estão amarrados a Hong-Kong asseguram as comunicações de Macau com o estrangeiro. Um outro cabo liga a península às ilhas da Taipa e Coloane. Macau possue uma poderosa estação de T.S.F. que comunica com Lisboa.
Como em Macau não existem alfandegas, é difícil obter dados exactos sôbre o movimento comercial. Os que existem são extraídos de manifestos de carga, que são insuficientes. A maior parte do comércio de Macau — onde não há grande comércio —faz-se com os portos da China, principalmente Cantão e Hong-Kong. Os principais productos exportados são peixe salgado, fogos de artifícios, fosforos, perfumes, oleo de canela e conservas. Os principais produtos importados são: o arroz, o açucar, azeite, lenha, madeira de construção e tabaco.
Em virtude da sua pequenez, quási tôda ocupada pela cidade, esta colónia não se presta à indústria agrícola. O seu tráfico comercial recai, portanto, sobre mercadorias que importa para as reexportar em grande parte depois de as ter transformado pela indústria local, que se desenvolveu muito nos últimos anos. Assim, a maior parte das mercadorias importadas são substâncias alimentares e matérias primas destinadas às indústrias locais.
Macau é mais rica sôbre o ponto de vista industrial. A sua indústria principal é a da pesca e produtos derivados. Ocupa 25.000 pessoas, 2.500 barcos e movimenta um capital de cêrca de 40.000 contos.
A indústria do cimento está nas mãos dos ingleses. A fábrica de cimento da Ilha Verde pouco interessa à colónia, salvo na ocupação que dá a 350 operários. Há em Macau uma grande fábrica de tijolos, com 10 fornos de grande capacidade; 10 fábricas de tabaco para cachimbo e 5 de charutos; 3 de fosforos; 8 de conservas alimentares; mais de 50 de limpumm, muito usado pelos chineses; numerosas de panchões ou estalos da China; uma de gelo; uma de artigos de malha; 3 de pivetes insecticidas; 17 estaleiros que produzem mais de cem embarcações por ano; 6 fábricas de oleos; uma de cerveja; uma de lampadas eléctricas de algibeira; duas de tecidos de algodão; 10 de velas para altares; uma de cortumes; várias de sabão, papel, cal de ostras, objectos de cobre, de latão, e de chumbo; numerosas ourivesarias, marcenarias, sapatarias, etc.
No relatório do Governador enviado à Conferência Imperial lê-se: «Gostava Macau de estreitar as suas relações comerciais com a metrópole e com outras colónias portuguesas, recebendo os seus produtos que cá podem ter colocação e enviando-Ihes aqueles que Ihes convenham. Mais por motivo de ordem moral que material, muito estimaria que cessasse o facto desagradavel de, sôbre alguns produtos que envia à metropole, incidirem direitos de importação superiores aos que incidem sôbre os mesmos productos enviados de Hong-Kong».
Não queremos terminar sem lembrar que em Macau existe a Gruta de Camões, onde o nosso maior Poeta de todos os tempos escreveu, segundo a tradição, parte dos Lusiadas.
De O Império Português na Primeira Exposição Colonial Portuguesa, álbum-catálogo oficial (realizada no Porto), 1934
O Boletim Geral das Colónias, num número especial inteiramente dedicado à Exposição, publicita os discursos, os relatos, os artigos da imprensa nacional e estrangeira a propósito do evento, das cerimónias ligadas à sua inauguração e dos visitantes ilustres, bem como se refere ao acto Colonial, ao movimento Pró-Colónias como um objectivo do Estado Novo. Muitas das imagens são iguais às divulgadas no álbum-catálogo deste evento,
Com respeito a Macau é dito que ao seu pavilhão «coube a honra da visita presidencial», sendo descrito como tendo um «esquisito interior, em que predominam a laca e o tom de ouro», acrescentando-se que se trata de «um ambiente de mimo e de discrição, um quadrozinho de graça exótica».
Refere-se a presença de Carlos Ximenes, «representante dos habitantes de Macau e das tropas de 2ª linha, que, durante tôda a história de Timor, bravamente se bateram pelo nome português e que nunca faltaram ao juramento de fidelidade ao grande Portugal, fidelidade que foi, é, e será o seu mais nobre brazão».
É dito, também, que «os ministros espanhol e português estiveram ainda no pavilhão de Macau a tomar chá».
Sobre a colonização portuguesa se destaca a sua diferença no Oriente, indicando-se que aqui foi «quási nula a nossa acção». No entanto, explica-se, foi «onde tivemos os melhores dias de glória e os mais ruidosos triunfos», acrescentando-se que da «Casa Lusitana» já dizia o poeta: «É na Asia a mais soberana».
Curiosa é a imagem divulgada de Salazar no varandim construído junto à réplica do farol da Guia...
folheto promocional































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