Graves acontecimentos foram vividos em Macau nos dois últimos meses de 1966, época de oiro da «revolução cultural» de Mao Tsé Tung. Apenas o reconhecimento e a confissão de violências por parte do Governo terá evitado a expulsão e o massacre dos portugueses. Nesta fase de total libertação do clima repressivo que acaba de ser abolida, muitas pessoas pertencentes a uma sociedade em que os seus componentes estavam divididos procuram finalmente encontrar-se e unir-se de acordo com os princípios elementares da expressão que possibilitam o diálogo franco e livre.
Desta vez damos a palavra ao dr. Danilo Barreiros, que apresentará um documento de interesse actual no contexto dos acontecimentos históricos que antecedem o resgate do povo português ao fim de um cativeiro de 48 anos. Advogado em Lisboa, especialista em assuntos orientais, proporcionou-nos documentos de interesse inefável e desconhecidos da esmagadora maioria dos portugueses, referentes a acontecimentos registados em Macau durante o período mais intenso da «revolução cultural» na vizinha República Popular da China. (…)
O seu testemunho incidiu, em primeiro lugar, sobre a situação em que, no fim de 1966, se encontrava aquela possessão portuguesa: Macau vivia quase exclusivamente dos rendimentos do ópio e do jogo que, mesmo na China nacionalista de Chang Kai Chek, eram objecto de graves punições. Os chineses de Macau, salvo uma pequena minoria de portugueses, eram tratados com muita brutalidade pelas autoridades oficiais. (…)
A população chinesa de Macau começou a ter consciência da sua força. Pouco a pouco as organizações comunistas de Macau passaram a dominar em todos os sectores, verificando-se, dada a política do nosso Governo, uma inteira liberdade para ambas as facções, nacionalista (Formosa) e comunista (Pequim), em cujas actividades as nossas autoridades participavam igualmente de um lado e de outro. (…)
Logicamente, a força de Mao e da «revolução cultural», aniquilava a dos partidários de Chang Kai Chek, continuando ainda o Governo da província a manter, com maior diplomacia, um certo equilíbrio (…). No entanto, a madrugada que nascera para mais de 800 milhões de chineses, sob a égide de um poeta político que o povo passou a venerar, contaminava todos os núcleos chineses (…).
- E os sangrentos acontecimentos de Novembro de 1966?
- Na ilha da Taipa pretendiam os chineses reconstruir a escola comunista que ali mantinham, para o que pediram a devida autorização que, todavia, por motivos de falta de visão de algumas autoridades, não lhes era concedida, isto em flagrante contradição com o que ali se passava em relação aos interesses do grupo de Chang Kai Chek. Daí, os lamentáveis acontecimentos que as fotos documentam e cujo relato, confissão e pedido de desculpas foi feito em documento que a seguir transcrevemos, assinado pelo Governador de Macau e apresentado a uma comissão representativa dos diversos sectores sociais da população chinesa:
«Repartição de Gabinete
RESPOSTA DO GOBERNO DE MACAU AO PROESTO QUE LHE FOI APRESENTADO PELOS REPRESENTANTES DOS HABITANTES CHINESES DE MACAU
O Governo de Macau solenemente declara que decidiu assumir a inteira responsabilidade do incidente sangrento de «15 de Novembro», ocorrido na ilha da Taipa, e dos trágicos acontecimentos de «3 de Dezembro», ocorridos em Macau.
A fim de impedir que os habitantes chineses da Taipa reconstruíssem a sede da sua Escola, o Governo de Macau, em 15 de Novembro de 1966, destacou polícias para reprimir aqueles habitantes de que resultaram feridos e detidos, o que provocou indignação dos habitantes chineses de Macau.
No dia 3 de Dezembro, quando professores e alunoschineses de Macau se dirigiram ao Palácio do Governo para apresentarem o seu protesto, o Governo de Macau novamente destacou polícias para os reprimir e, em seguida, impôs a lei marcial, reforçou tropas e polícias armados e, em virtude destes terem recebido ordens para disparar tiros, resultaram mortos e feridos entre habitantes chineses. Nestes incidentes, infortunadamente, ao todo, foram mortas 8 pessoas, ficaram feridas 212 e detidas 62, admitindo o Governo de Macau representarem estes factos sérios crimes dos seus principais causadores.
Por isso, o Governo de Macau dirige-se agora, respeitosamente, às famílias dos mortos e aos feridos, aos que estiveram presos e a todos aqueles que porventura tiverem sofrido quaisquer prejuízos durante estes incidentes, bem como a todos os habitantes chineses de Macau, para admitir as culpas havidas, significar as respectivas escusas e manifestar o seu profundo pesar.
Tendo decidido aceitar, na totalidade, os seis pedidos apresentados pelos representantes dos habitantes chineses de Macau e executá-los imediatamente, o Governo de Macau já exonerou sucessivamente das suas funções, por os admitir como causadores destes incidentes e para apuramento das suas responsabilidades, o comandante militar Mota Cerveira, o comandante da Polícia Galvão de Figueiredo, o segundo-comandante da Polícia Vaz Nunes, e o administrador interino do Concelho das Ilhas, Rui de Andrade, aos quais foi ordenada a sua imediata saída de Macau, para regressarem à Metrópole, para aguardar julgamento das instâncias competentes e correspondente punição.
Igualmente decidiu o Governo de Macau chamar a si a responsabilidade pelo pagamento de todas as despesas do enterro e das cerimónias fúnebres, bem como das compensações às famílias dos mortos; pelo pagamento de todas as despesas da hospitalização e tratamento dos feridos e também dos prejuízos inerentes, responsabilizando-se, ainda, pelo pagamento de todos os prejuízos resultantes da invalidez dos feridos, pelo pagamento das indemnizações às demais vítimas, por todos os prejuízos derivados destes incidentes.
O Governo de Macau pagará em dinheiro todas as indemnizações acima referidas, cujo montante é de $ 2 058 424,00 (patacas) e solicita aos representantes de todos os sectores sociais dos habitantes chineses de Macau a indicação de um organismo para se encarregar da sua distribuição. Aboliu-se já a lei marcial (...), devendo também ser anulada, por infundada, a sentença proferida contra um dos habitantes chineses preso durante os Incidentes da Taipa e cancelado o seu processo. O Governo de Macau já reconheceu a legitimidade da pretensão dos habitantes chineses da Taipa para reconstruir a sede da sua Escola, podendo esta obra ser efectuada imediatamente. Acrescenta-se ainda que foi atendido o processo do diário «Ou Mun», referente ao caso da sua reportagem no incidente da Taipa, pelo que se assegura que, de futuro, não se repetirá semelhante ocorrência.
O Governo de Macau reitera o seu pesar a todos os habitantes chineses de Macau e dá efectivas garantias de segurança das suas vidas e dos seus haveres e de protecção dos seus justos direitos e interesses, para o que, além do mais, reafirma e assegura que, de futuro, não permitirá decididamente que os agentes secretos do grupo de Chang Kai Chek pratiquem qualquer actividade em Macau.
Macau, 29 de Janeiro de 1967. O Governador de Macau, José Manuel Nobre de Carvalho»
Terá sido, com efeito, a assinatura deste documento o facto que conseguiu acalmar os ânimos e evitar o massacre e expulsão dos portugueses (…)?
O dr. Danilo Barreiros prossegue no seu testemunho:
- Devido aos acontecimentos relatados, o prestígio da autoridade dos portugueses, em Macau, saíu completamente destruído, pois que nos vimos forçados a declarar publicamente os nossos «crimes» e a entregar, aos comunistas, dirigentes das associações nacionalistas, chineses que em Macau se haviam albergado, e considerar nula uma sentença do juíz da comarca, e tudo o mais (…).
Enquanto os meios de informação estrangeiros revelavam ao mundo o que se passava em Macau, a nossa informação conservava o maior mutismo a tal respeito, chegando o Ministério do Ultramar, com a maior desfaçatez, a informar os que ali acorriam na ânsia de saber o que se passava, por terem em Macau parentes e amigos, de que tudo estava normal, de que nada acontecera, quando na realidade os jovens das escolas, tendo como única arma a sua juventude, os seus ideais e o seu Livro Vermelho, tinham assaltado o palácio do Governo, invadido o Leal Senado e diversos serviços militares e policiais, tomando desde então para sempre o verdadeiro Governo da província de Macau. Não é com satisfação que revelo ao público o que se passou em Macau. (…)
Efectivamente, tudo o que ficou narrado só nos pode produzir tristeza, até porque, apesar de não ser verdade o que se lê nos compêndios escolares, que Macau foi oferecido aos portugueses, o certo é que nos foi permitido ali permanecer desde há cerca de quatro séculos e que conseguimos, vencendo muitas vicissitudes, ali viver em paz com o povo chinês, facto que, como é do conhecimento geral, levou o Governo de Mao a não permitir que a O.N.U. jamais interferisse em relação à nossa soberania naquela província, situação que os chineses têm sempre considerado absolutamente fora do conceito de colonialismo. (...)
Manuel de Lima em O Século Ilustrado, Maio de 1974








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