Era uma vez um Infante muito sábio, que um grande pintor retratou em suas táboas, filho de um Rei, Mestre de Aviz, como o Principe foi Mestre de navegantes no seu castelo de sonho, em frente ao mar, nas costas do Algarve.
Chamava-se Henrique e chamavam-lhe louco os invejosos, mesmo os que vinham do longes terras aprender na sua escola a arte, nova para êles, de, pela bússola, pelo quadrante, pelas estrêlas do céu escuro, sulcando mares, dobrando tormentas, encontrar continentes tão apartados que só Deus sabia o lugar dêles.
Mandara por terra o grande Infante gente que fosse colhendo informes. Mandara por mar, a pouco e pouco, fazer pilotos às regiões quentes; e, quando um dia tudo conheceu, armou as naus da grande conquista e fê-las partir, cruzes de Cristo vermelhas ao vento, quinas da Pátria a dominar o Mundo. (...)
Foram mais longe; à China, o grande sonho: ouro, brocados, pedrarias; tanta riqueza, tamanha! que muito tempo depois ainda se julgou ser falso o que dela contava Fernao Pinto. Como Afonso de Albuquerque tivesse pressentindo que a missão portuguesa no Estremo Oriente não era a dos feitos guerreiros o heróicos, mas a da amizade com o indígena e a do estabelecimento do comércio, insinuaram-se os navegantes na convivência dos Mandarins, prestando-lhes serviços, e entre eles, derrotando os piratas que lhes infestavam as costas. Por gratidão a tais favores o Imperador do Meio cedeu Macau aos lusitanos para seu negócio. Não extorquimos à China território algum, não o conquistámos. Houvémo-lo como se recebe uma prenda de amizade.
Passaram anos. Volveram séculos. Escrevemos durante êles páginas de civilização e de glória. Do Padroado, nascido em Ceuta, descendeu a Diocese de Macau, abrangendo a China, a Corêa, o Japão e o Tonquim, com uma pleiade de missionários ilustríssima e em que Francisco Xavier é sol de raro brilho. Camões saudoso e épico ali compôs seus versos. Ali se ergueu o primeiro farol do oriente, o farol da Guia que guiaria os navegantes no mar alto, facho de civilização ocidental acêso na China. Ali heróicamente resistiram os portugueses à pressão da Holanda e à dominação de Castela no século XVII e, ali perto, frágil armada lusitana (40 lorchas) venceu em batalha Cam Pau Sai, rei dos piratas e dos mares, comandando 600 juncos e 40.000 homens!
Progredindo, progredindo sempre, Macau é hoje uma das mais lindas terras portuguesas. Tão portuguesa que, em muitos dias, o sol e o céu até parecem os dêste País Atlantico. Tem bairros que, dir-se ia transportados dalguma cidade do Minho ou Trás-os-Montes: sua calçada de pedra, seu alpendre, seu nicho na parede, sua árvore debruçando-se no muro do quintal.
E a gente é boa e acolhedora como a nossa.
E as gafarias lembram-nos a Rainha Santa e as misericórdias a Rainha Leonor. Tudo nos fala de Portugal. Até a própria paisagem (coisa estranha!) se parece com a nossa às vezes. Há quadros de Chinnery, do Barão do Cercal e de Marceano Baptista que poderiam ser dos scenários das províncias portuguesas.E o nosso talento colonizador viu aumentar nos últimos quatro anos a população daqueles palmos quadrados de terreno bendito em cinquenta mil almas e a nossa caridade vai a quatro hospitais e a quatro asilos e a nossa cultura a duzentas escolas.
Felix Horta (advogado, delegado da colónia de Macau à Exposição de Sevilha, antigo cônsul de Portugal em Cantão) em Boletim da Agência Geral das Colónias, 1929




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