Macau por Felix Horta

Boletim da Agência Geral das Colónias, 1929 Boletim da Agência Geral das Colónias, 1929 
Boletim da Agência Geral das Colónias, 1929 Boletim da Agência Geral das Colónias, 1929

Era uma vez um Infante muito sábio, que um grande pintor retratou em suas táboas, filho de um Rei, Mestre de Aviz, como o Principe foi Mestre de navegantes no seu castelo de sonho, em frente ao mar, nas costas do Algarve.

Chamava-se Henrique e chamavam-lhe louco os invejosos, mesmo os que vinham do longes terras aprender na sua escola a arte, nova para êles, de, pela bússola, pelo quadrante, pelas estrêlas do céu escuro, sulcando mares, dobrando tormentas, encontrar continentes tão apartados que só Deus sabia o lugar dêles. 

Mandara por terra o grande Infante gente que fosse colhendo informes. Mandara por mar, a pouco e pouco, fazer pilotos às regiões quentes; e, quando um dia tudo conheceu, armou as naus da grande conquista e fê-las partir, cruzes de Cristo vermelhas ao vento, quinas da Pátria a dominar o Mundo. (...)

Foram mais longe; à China, o grande sonho: ouro, brocados, pedrarias; tanta riqueza, tamanha! que muito tempo depois ainda se julgou ser falso o que dela contava Fernao Pinto. Como Afonso de Albuquerque tivesse pressentindo que a missão portuguesa no Estremo Oriente não era a dos feitos guerreiros o heróicos, mas a da amizade com o indígena e a do estabelecimento do comércio, insinuaram-se os navegantes na convivência dos Mandarins, prestando-lhes serviços, e entre eles, derrotando os piratas que lhes infestavam as costas. Por gratidão a tais favores o Imperador do Meio cedeu Macau aos lusitanos para seu negócio. Não extorquimos à China território algum, não o conquistámos. Houvémo-lo como se recebe uma prenda de amizade. 

Passaram anos. Volveram séculos. Escrevemos durante êles páginas de civilização e de glória. Do Padroado, nascido em Ceuta, descendeu a Diocese de Macau, abrangendo a China, a Corêa, o Japão e o Tonquim, com uma pleiade de missionários ilustríssima e em que Francisco Xavier é sol de raro brilho. Camões saudoso e épico ali compôs seus versos. Ali se ergueu o primeiro farol do oriente, o farol da Guia que guiaria os navegantes no mar alto, facho de civilização ocidental acêso na China. Ali heróicamente resistiram os portugueses à pressão da Holanda e à dominação de Castela no século XVII e, ali perto, frágil armada lusitana (40 lorchas) venceu em batalha Cam Pau Sai, rei dos piratas e dos mares, comandando 600 juncos e 40.000 homens! 

Progredindo, progredindo sempre, Macau é hoje uma das mais lindas terras portuguesas. Tão portuguesa que, em muitos dias, o sol e o céu até parecem os dêste País Atlantico. Tem bairros que, dir-se ia transportados dalguma cidade do Minho ou Trás-os-Montes: sua calçada de pedra, seu alpendre, seu nicho na parede, sua árvore debruçando-se no muro do quintal. 

E a gente é boa e acolhedora como a nossa. 

E as gafarias lembram-nos a Rainha Santa e as misericórdias a Rainha Leonor. Tudo nos fala de Portugal. Até a própria paisagem (coisa estranha!) se parece com a nossa às vezes. Há quadros de Chinnery, do Barão do Cercal e de Marceano Baptista que poderiam ser dos scenários das províncias portuguesas.E o nosso talento colonizador viu aumentar nos últimos quatro anos a população daqueles palmos quadrados de terreno bendito em cinquenta mil almas e a nossa caridade vai a quatro hospitais e a quatro asilos e a nossa cultura a duzentas escolas. 

Felix Horta (advogado, delegado da colónia de Macau à Exposição de Sevilha, antigo cônsul de Portugal em Cantão) em Boletim da Agência Geral das Colónias, 1929

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