Desde o segundo dia da viagem, começou de sentir-se na camara um cheiro acre e nauseabundo, cuja procedencia não pode verificar-se. No terceiro dia, tornou-se impossível entrar na camara, sem que os estomagos mais sensiveis se não revoltassem contra o cheiro que a pituitaria accusava. Tivemos que dormir todos no tombadilho, em cadeiras longas de bambú, de que felizmente haviamos feito prévia acquisição. As hypotheses para a explicação do caso succediam-se. Havia por força ratos mortos em algum escaninho da camara; se não eram antes alguns mantimentos do respectivo paiol, que entravam em putrefacção; ou talvez o cheiro proviesse de comida dos indios, accumulados aos lados das escotilhas do castello de pôpa. E o cheiro augmentava e com elle as hypotheses. Afinal, no ultimo dia, quando o nosso egoismo já nem pensava em averiguar a causa do mal, descobriu-se que o cheiro nauseabundo procedia de tres jaccas mettidas na dispensa por um creado china de bordo. (…)
Viagem a Siam de José Gomes da Silva, 1889
DURIÃO. Fruto de Durio (…), do malaio jav. Durian. O fruto vai abaixo descrito e é diversamente apreciado.
1552 - «E duriões que sam da feyção de alcachofras, e do tamanho de grandes cidras: e de tão singular sabor que diz a gente que naquielle pomo pecou Adão.» - Castanheda, História, II, cap. 112.
1553 - «Entre as quaes foi hũa, a que ora chamam duriões, cousa mui estimada, e tão gulosa, que contão os mercadores vir ja aquelle porto mercador com hũa nao carregada de muita fazenda, e comeu toda nestes duriões, e gastou em amores das moças Malayas». - João de Barros, Déc. II, vi, 1.
1566 - «Dizem que ha nella huma fructa de feição de alcachofras, tamanha
como cidras, a que chamam durioens, que sam de tam delicado, e suave gosto,
que muitos homens estrangeiros se deixam
alli ficar por respeito desta fructa, ainda
que a terra seja doentia». — Damião de Góis, Chronica de D. Manuel,iii, cap. 1.
1613. — «Como os Duriões, fructo semelhante no gosto e sabor ao manjar branco, e quasi da mesma massa». - Manuel G. de Erédia, Declaraçam de Malaca, fl. 10.
«E desta fructa se achão muytas espécies, e a milhor e mais manteygada he o
Dorião Tambaga, que me parece a milhor fructa do mundo». — Id., fl. 16.
1614 - «Todo o mato [de Amboino] he de aruores de fruitas excellentes, e muy
gostosas, de Doriães, os melhores do mundo». — Diogo do Couto, VIII, i, 25.
1615 - «A arvore dos Duriões semelha-se propriamente a uma pereira; o seu fructo é do tamanho de um melão, e os Indios estimam-no muito por ser um dos
mais saborosos e melhores da India». —
Pyrard de Laval, Viagem, ii, p. 367.
1679 - «Depois de larga conversação mandou o Governador vir hum açafate de
laranjas, e outro de durioens, e figos, em que convidou ao nosso Frey André». —
Fr. Jacinto de Deus, Vergel, p. 282.
1882 - O autipathico durião, tão asqueroso pelo seu olor, mas tão apreciado
dos naturaes». — Henrique Prostes, Bol.S.G.L., IV, p. 392.
(…)
1578 - «Vna fructa ay en Malaca tan saborosa, y olorosa, que escuresce el sabor y olor de todas las otras fructas, que en aquella tierra ay, que son muchas y buenas... Llaman este fructo en Malayo (que es la tierra donde la ay) Duriaon... E el comer de este fructo, como el manjar
bianco: empero mas saboroso y oloroso». — Cristóvão da Costa, Tractado, p. 227.
1585 - «Entre las quales ay vna que llaman en lengua de Malaca Durion, y es tan buena que ey oydo affirmar a muchos que an dado vuelta al mundo, que exceden
en sabor todas las que an visto y gustado en todo el». — Fr. Joan G. de Mendoça,
Hist. de la China, p. 362. (…)
Glossário Luso-asiático de Sebastião Dalgado, 1919
Glossário Luso-asiático de Sebastião Dalgado, 1919



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