A Festa das Lanternas, o dia dos namorados

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O Povo Chinez, que celebra esta festividade, julga que ella foi instituida depois da fundação da Monarquia por um Mandarim que, havendo perdido a sua filha, entrou a procura-la na margem de um rio, ao clarão de lanternas e archotes que levava uma multidão de habitantes; dos quaes se tinha feito estimar.


Mas os Classicos pretendem que, lamentando-se o Imperador Kyé, de que a divisão dos dias e das noites tornava uma parte da vida inutil aos prazseres, mandara por isso construir um Palacio com uma só janella, e onde para, haver luz, estabeleceu uma illuminação continua de tochas e lanternas.


A festa das lanternas celebra-se no decimo quinto dia da primeira lua. Toda a China está então illuminada desde as Cidades até ás mais pequenas Povoações, e as Costas marítimas e margens dos rios estão guarnecidas de lanternas pintadas de mui variadas côres, e de differentes fórmas. Por toda a parte se expoem ao publico diversos espectaculos, fogos d´artificio, e muitos outros divertimentos: cada um dos chefes de familia escreve em grandes caracteres, sobre uma folha de papel encarnado, ou sobre uma tábua envernizada, as palavras seguintes: «Tyen-tisanhyay van-lien chin-tsay», isto é: «Ao verdadeiro governador do Ceo, da Terra, dos tres limites, e das dez mil intelligencias». Esta inscripção, collocava-se tambem sobre uma mesa, em cima da qual se põe trigo, pão, carne, e algumas outras offertas d´esta natureza; prostão-se depois por terra, e offerecem-se á Divindade pedaços de pão perfumado.

O Recreio, jornal das familias, Maio de 1836

Estou tão deslumbrado com o resplandor de mais de mil tochas, accesas á roda de mim, que não posso deixar, antes de concluir esta carta, de divertir-vos com esta festa singular, que se renova todos os annos na China. Principia aos quinze da primeira lua, e dura quatro dias. N´outro tempo se celebrava no Egypto huma festa semelhante; a caso terá passado d´ali aos Chinas? São estes ultimos mui orgulhosos para convir n´isso, e não querem ser devedores de cousa alguma ás outras nações; dão outra origem a este costume. 

Estabeleceo-o, segundo dizem, pouco tempo depois da fundaçaõ do Imperio, hum Mandarim, que tendo perdido sua filha na ribeira d´hum rio, andou em busca d´ella toda huma noite. Com este motivo mandou accender hum grande numero de tochas, e os habitantes do paiz, que o amavaõ muito o seguiraõ em bandos com archotes. Outros dizem que o mesmo Mandarim se afogou, e que o povo, de quem era adorado, o buscou com lanternas. Como quer que fosse, o amor que professavaõ a este Magistrado fez que renovassem esta cerimonia no fim do anno, e estendendo-se pouco a pouco este costume, deo motivo a huma festa geral, que depois se celebrou em todo o Imperio.

N´estes dias se accendem talvez mais de cem milhões de lanternas; he cousa extraordinaria. (...) Accende-se n´ellas huma infinidade de velas ou lampiões, e representaõ-se ali diversos espectaculos para divertir o povo. (...) Ha muitas medianas de figura hexagona, e cada face terá quatro pés de alto, e pé e meio de largo, coberta de seda fina e transparente, sobre a qual estaõ pintadas diversas figuras. 

No mesmo dia se fazem fogos d´artificio, nos quaes tem sobresahido os Chinas; tem a arte de variallos ao infinito, e de representar ao natural toda a casta de objectos. Vêm-se ali arvores inteiras cobertas de folhas e frutas, uvas, maçãs, laranjas de côr particular, de modo que se tomariaõ por arvores verdadeiras, que se illuminaõ de noite, o que nunca executáraõ nossos artifices. Em quanto dura esta festa daõ-se outros espectaculos para divertir o povo; d´hum lado apparecem cavallos galopando, navios á vela, exercitos em marcha, e Reis com suas cortes: do outro, grupos de danças, e outras figuras movidas por engenho. Os movimentos e gestos correspondem perfeitamente ao discurso do Maquinista. Parece que se ouvem fallar as mesmas figuras, e como saõ maiores que nossos titeres, causaõ maior ilusaõ.

O viajante universal, ou Noticia do mundo antigo e moderno de Joseph de Laporte, edição de 1799

Festa das Lanternas - Assim se denomina uma festa que, no dia 15 do 1.° mez do anno chin, ha todos os annos no celeste imperio. É chamada das lanternas porque estas n'esse dia se suspendem aos milhares em todas as casas e ruas. Algumas d´estas lanternas são de muito preço pelas materias de que as fabricão e ornatos de que as revestem; outras distinguem-se pelo tamanho, porque as ha de 15 a 30 pés de diametro, em cujo interior collocão uma infinidade de vellas, o que é d´um bello effeito. 

É tradicção do paiz, que algum tempo depois do estabelecimento do imperio um mandarim estimado pelas suas virtudes perdêra uma filha, que amava ternamente. Poz-se elle a procural´a de dia e de noute pelas margens do rio onde lhe havia desapparecido. O povo que sentia a sua afflicão seguia-o na busca, e de noute trazia-lhe archotes e lanternas para melhor o coadjuvar. A esta circumstancia, que se aproxima dos mythos d´Osiris e de Cêres, se deve a origem da festa das lanternas na China.

Almanach de lembranc̜as Luso-Brazileiro para o anno de 1863


dia dos namorados
Travessa da Paixão

Na verdade, segundo o calendário lunar chinês, aparece a primeira lua cheia do ano novo no 15º dia e celebra-se a Festa das Lanternas que marca o início da Primavera. É, também, o dia dos namorados e, este ano, coincide com o dia dos namorados no Ocidente (o dia de S. Valentim), que é a 14 de Fevereiro, o que não sucedia há 19 anos. Por isso, foi o dia escolhido por muitos para celebrarem o seu casamento. 

Esta festividade celebra-se desde a dinastia Han (206 a.C–221 d.C) e muito popular nas dinastias Tang e Song. Consta que na província de Cantão os solteiros procuravam as hortas durante a noite, de onde tiravam verduras pois estas lhes dariam sorte em conseguir um bom casamento, já que a palavra verdura ou legume é homófona de casamento e, ainda, porque há legumes que soam, em cantonense, como outras palavras auspiciosas, escolhiam aquelas verduras, por brincadeira, que soavam ao que preferiam acrescentar ao casamento desejado ou à noiva idealizada, como alfaces, cujo som soa a fortuna, ou cebolinho, que soa como inteligência... 

Uma das brincadeiras ligadas a esta festividade é colocar-se charadas em papéis colados às lanternas. Diz-se que a origem deste costume está em Hu, um homem muito rico que apenas tratava com delicadeza as pessoas influentes. Um dia, conta-se, recebeu a visita de um homem que aparentava ser de alta condição social e que vinha acompanhado de um menino pobre, e que lhe pediu dinheiro emprestado. Hu satisfez esse pedido, mas recusou uma refeição pedida pelo menino pobre. Então, este decidiu, já que estava a aproximar-se a Festa das Lanternas, fazer uma enorme e aí escrever uma charada, voltando a casa de Hu. Muita gente seguiu o rapaz e leu o que escrevera. E que era isto: ´tem o corpo fino de cor de prata; não pesa quase nada e os seus olhos, que ficam no fim das costas, só vêem as roupas das pessoas´.

Hu, saindo de casa atraído pelas lanternas, perguntou ao rapaz porque se ria dele, revendo-se na charada, e este explicou-lhe que a solução da adivinha era uma agulha de coser! Todos se riram e espalharam a história pela aldeia e, a partir do ano seguinte, toda a gente imitou o rapaz, escrevendo adivinhas nas lanternas ...

Outras das curiosidades desta festividade é o facto de, na mesma altura do ano, haver uma festa em Portugal com um nome igual, e que também marca o início da Primavera. Melhor explicada se encontra por Raimundo Esteves numa das suas crónicas intituladas A Ronda dos Meses no meu paiz de tradições e romarias, publicadas na Revista Atlântida, mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil, e, nesta vez, a 15 de fevereiro de 1918. Ora, vejam:


Fevereiro

O «Dia das Candeias», como soem chamar-lhe, tem a origem seguinte: A velha lei judaica impunha às mães a apresentação, nos templos, dos filhos recem-nascidos. Nossa Senhora foi pois com seu Filho a um templo, a fazer a praxista oblação das rôlas. Deus hava porêm anunciado a um velho justo, Semeão, a vinda do Messias. E o bom do homem, correndo ao encontro da Virgem, apresentou êle próprio o Menino aos sacerdotes, dizendo: - «que podia morrer em descanso, porque já seus olhos haviam visto a Luz!»

Em memória dêste feito era uso antigo darem-se às gentes, neste dia, luzes, candeias, velas ardendo. O costume enraizou-se, e com moer dos anos passou a chamar-se ao dia 2, o «Dia das Luzes» e o «Dia das Candeias». As festas constam de folguedos em tôrno de capelas, com pavios e rolas de cera ardendo em meio de risos e cantigas...

Diz se que: - Se a Senhora da Luz chorar, está o inverno a acabar; se a Senhora da Luz rir, está o inverno para vir ...

Lavradores há que tomam em conceito farto êste rifão velho. E se nos três primeiros dias de Fevereiro chove, sinal que o inverno vai terminar, fazem ir pelos campos dobrada azáfama de serviços. Há a certeza de tempo firme. E cavam-se vinhas, semeia-se linho, grão de bico, milho de rega em terras altas e sêcas. Se ao contrário faz tempo lindo, se em seu comêço Fevereiro traz dias casulados de azul e oiro, há apreensões graves e sérias. E com o temor das inverneiras, o lavrador retrai-se e limita-se à empa das vinhas, dos enxertos de garfo, à monda dos trigais temporãos ...

Afinal, não somos tão diferentes. Como julgamos, insensatamente.

2014

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