O Beco da Pinga

beco da pinga


PINGA É um aparelho que se parece muito com o dos nossos cabazeiros ou vendedores ambulantes de peixe. Nas pingas feitas comummente do uma vara de areca [aliás arequeira] carregam os chingalas em cêstos pendentes das duas extremidades os fretes equilibrados». Rodrigo Felner, em nota a Bocarro. É como a «recoveira» dos peixeiros de Portugal. Também se entende o presente levado em tais cêstos. Vê-se das abonações que o vocábulo é empregado pelos nossos escritores particularmente em relação com Ceilão, como ainda o fazem os ingleses. Mas não é vernáculo; o seu correspondente em singalês é at ou ad. Acho muito provável que o étimo seja o mal. pungah, «transporte de objectos». O termo é corrente em Macau, onde também designa o «varal de cadeirinha». (...)

1707. — «Como qualquer cúlle que carreta a pinga» - P. Manuel de Miranda, O Chronista de. Tissuary, III, p. 164.

1858. — «Vê-se um chim vendedor de ceias ou comidas feitas e quentes, que traz em dois cestos, que se separam em repartimentos, pendentes d'uma vara de bambu (a que, para tal modo de carregar, chamam pinga), e equilibrados sobre o hombro do conductor». — Archivo Pittoresco, i, p. 278.

1869. — «Querê cadera que tem quatro pinga para oito cule; mas como vosso tio gosta muto de figurá, já lembrá de pedi pra convidá oito comandador pra cartá aquelle bem aventurado principe, para vosso tio também pôde entrá no meo». — Dialecto de Macau., in Bol. S.G.L., ii, p. 170.

1884. — «... andores com pagodes de papelão, muitas pingas comestíveis, charolas com idolos».- Adolfo Loureiro, No Oriente, ii, p. 82.

1895. — «... por onde passam os varaes, que aqui teem o nome de pingas. As pingas são ligadas, quasi na extremidade, por uma travessa que os culis apoiam sobre o pescoço como canga». — Conde de Arnoso, Jornadas, p. 107.

1899. — As cadeiras são levadas por dois culis, ou chins carregadores, que appoiam as extremidades dos varaes ou pingas aos hombros e não à maneira usada em Lisboa pelos que transportam doentes nas cadeirinhas». — Ta-ssi-yang-kuó, de Outubro.

1900. - «Hade encontrar o bambú dominando a vida e os costumes dos chinezes, desde o berço feito de bambú, até as varas ou pingas que transportam os palanquins dos grandes poderosos aos yamens, ou os caixões dos defunctos aos cemitérios». — Id., de Abril

Glossário Luso-Asiático, Sebastião Rodolfo Dalgado, 1919

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