


Em todas as sociedades humanas, independentemente do seu estádio tecnológico, verifica-se sempre o mesmo fenómeno: uma estreita relação entre a medicina popular e a magia. (…)
Nos séculos XVIII e XIX, realizavam-se procissões tanto católicas de penitência como budistas de propiciação, para pedir chuva, em anos em que a seca se prolongava por Abril adiante. (…) As procissões de que há notícia eram sempre bem sucedidas, o que enchia de júbilo os chineses e os portugueses de Macau muito devotos, mais ainda do que os próprios europeus. E isto porque ao pensamento medieval que os seus antepassados haviam levado da Europa se aliou o pensamento mítico, próprio do Oriente. Vinda a chuva, seguia-se um solene Te Deum, na Sé, em acção de graças. E isto ainda se fazia nos fins do século XIX / princípios do século XX. A verdade é que os chineses tal como os macaenses luso-descendentes são supersticiosos. Eles próprios o confessam. (…)
Por influência da moderna China e da cultura ocidental, levada directamente da Europa ou introduzida através de Hong Kong, os jovens macaenses vão, a pouco e pouco, perdendo essa mentalidade característica de seus pais e avós, que talvez, e dizemos talvez, a médio ou longo prazo, acabe por extinguir-se. Analisando várias práticas decorrentes em Macau ainda nos anos 70, relativas à doença e à sua cura, é muito difícil, de facto, separar o pensamento religioso do pensamento mágico (…). Este é o caso dos oratórios budista e tauista de Macau e do culto de San Nong e de Vá Tó no velho templo de Lin Fong no extremo ocidental da aldeia de Mong Há.
Aliás, tal ideia, em Portugal, está também subjacente entre o povo relativamente ao responso a Santo António “que faz aparecer as coisas desaparecidas”, à oração a Santa Bárbara, que protege das trovoadas, ao velho culto de São Roque, que, noutros tempos, era considerado protector contra as epidemias (…). Daí, o Catolicismo-folk, religiosidade impregnada de certas crenças em práticas mágicas, pagãs, que perdurou em certos grupos sem, por isso mesmo, diluir a pureza da sua Fé. Talvez se possa considerar um Catolicismo deste tipo aquele que muitas senhoras idosas de Macau praticavam, ainda nos anos 70, com a maior devoção e de que servem de exemplo os “senes” (nome em patuá de Macau de antigas moedas de prata) das caixas de esmolas da Sé, a almofada sobre o qual se apoia o pé do Senhor dos Passos ou os cordões roxos tecidos em seda que esta estátua em roca, vestida de veludo primorosamente bordado, transporta na mão durante as procissões anuais e que são considerados eficazes amuletos com poderes curativos. (…)
Em Macau encontram-se fundidas duas mentalidades com raízes antigas e, por isso, muitas práticas de origem portuguesa encontram-se hibridadas e, mesmo, confundidas com práticas nitidamente orientais. (…) Nos nossos dias, poucos são os macaenses que dizem recorrer às forças transcendentes, em busca da cura pessoal ou dum familiar doente. No entanto, assim como, abertamente, rogam a Deus e aos Santos católicos, pedindo graças e fazendo promessas em momentos de aflição, recorrem, ocultamente, às benzedeiras e, mais raramente, aos bonzos, quase sempre por intermédio de um parente, dum amigo ou dum serviçal chinês. (…)
O Universo, para os chineses, é concebido como um Todo. À mentalidade oriental, que as mulheres asiáticas, levadas para Macau pelos portugueses, transmitiram aos seus filhos, juntaram-se as superstições do Ocidente, às quais os homens doutros tempos seriam certamente muito mais sensíveis. A religião católica teria apagado, sem dúvida, muitas das velhas crenças, principalmente as que se relacionavam com práticas de feitiçaria. Contudo, relativamente às praticas de medicina popular, dificilmente se poderia ter apagado essa mentalidade num grupo que se manteve bastante isolado durante séculos. (...)
As doenças de natureza sobrenatural, que registámos em Macau podem, quanto a nós, classificar-se em dois grandes grupos: “resultantes de castigo divino” e de “origem mágica”. (…) No primeiro grupo incluem-se o “mal de susto”, o “savan” ou “vento sujo” e estados de possessão por espíritos, como seja o caso da epilepsia e de outras doenças neuropsiquiátricas. No segundo grupo há a considerar o “olhado” (“ôlo quente”) e o “mal de inveja” (“boca quente”), além de todos os males resultantes de “bagate” que corresponde, afinal, às verdadeiras práticas de feitiçaria, tal como as concebemos no Ocidente.
Para combater tais doenças recorre-se, nestes casos, à consultas das divindades nos templos ou a uma “mulher de virtude”, pai san pó ou man héong pó, mulheres que servem de medium, estabelecendo a comunicação entre os homens e os espíritos. Como profilácticos contra tais doenças utilizam-se ainda, em Macau, talismãs e amuletos, muitos deles de carácter religioso, quer budista-tauista, quer, ainda, católico. É também frequente recorrer-se à evocação dos santos ou dos Pou Sat, fazendo-se promessas que são pagas em função das curas. (…)
Quer das consultas às divindades que se fazem nos templos budistas e oratórios tauistas quer das consultas dadas pelas “mulheres de virtude” chinesas resultam sempre uma receita que se avia numa farmácia chinesa ou num ervanário e também pequenos amuletos gnósticos pincelados num papel amarelo ou vermelho destinados a afastar as más influências e à preparação de “chás divinos”, os san chá e os sin chá, muito populares na China do Sul.
A arte da adivinhação ou mântica é extraordinariamente diversificada na sua expressão. Aliás, a adivinhação pelos “sinais” é talvez, de todas as práticas divinatórias, a mais complexa, mas também a que se encontra mais difundida pela Terra. Sucedânea da consulta de oráculos e ordálios, a adivinhação operada por diferentes formas tem, de certo modo, mantido o favor do povo e não só do povo menos culto. Encontrámos senhoras macaenses que acreditavam piamente nos sinais, com que Deus prevenia as fiéis de certos acontecimentos que viriam a dar-se e os quais poderiam, assim, em certos casos, vir a ser contrariados. Houve quem nos dissesse que “nos acontecimentos mais banais pode ler-se um sinal premonitório dum evento qualquer”. Quer um “bom evento quer uma desgraça”. É preciso estar-se atento. Uma canção com determinado poema, que se ouve por acaso, é um exemplo deste tipo de sinais.
Outro tipo de adivinhação do mesmo género e que goza de especial favor em Macau é o lançamento dos “pauzinhos divinatórios” nos templos budistas (…). A arte divinatória aprende-se e por isso é, muitas vezes, transmitida de pais para filhos ou/e ensinada dentro dos mosteiros pelos chefes das bonzarias. (…)
Se, no Ocidente, o adivinho se pode considerar um charlatão, entre os povos sem escrita e nas práticas rituais das religiões orientais só muito raramente o poderá ser. O adivinho acredita na sua arte e na inspiração sobrenatural que possui, associando-lhe geralmente, no caso da saúde e da doença, o conhecimento das ervas medicinais. (…)
Uma outra forma especial de comunicação do adivinho com a divindade é o êxtase e a possessão dos espíritos, o que muitas vezes se processa por intermédio dum alucinogénio. Esta forma de adivinhação está representada, em Macau, pelas práticas das pai san pó e man héong pó (…) é através do êxtase e da possessão que a divindade transmite o remédio específico para o mal do consulente. (…)
A consulta às divindades ou aos espíritos protectores pode fazer-se por iatromância nos oratórios tauistas, mas é pelo lançamento das hastilhas divinatórias e dos kuá pui que as benzedeiras e feiticeiras geralmente o fazem, quer nos templos budistas quer nas pequenas e improvisadas capelas das “mulheres de virtude” ou “mulheres de tou”. (…) O bonzo, ou encarregado do templo, em face das fichas que saltam do copo de bambu, ao agitar-se este três vezes seguidas, depois de se acenderem 3 pivetes de culto e de se bater cabeça à divindade invocada, tem de interpretar os verdadeiros enigmas (…); no caso de se tratar duma receita medicinal, esta é fornecida xilografada num papel auspiciosamente cor-de-rosa eosina, a troco de poucos avos. Esse papel é acompanhado de outro menor que apresenta um fu xilografado e que se destina a ser queimado, juntando-se, depois, as suas cinzas à mezinha, que se deve aviar na farmácia e preparar, sob a forma de decocção. (...)
Entre as “mulheres de virtude” chinesas o instrumento divinatório mais utilizado é o pui kau. O pui kau é um objecto constituído por dois pedaços de madeira rectangular com cerca de l,5 x 5cm, perfurados num dos lados e ligadas por um fio. Mais frequentes são os pui kau encurvados, com a forma de dois chifres simétricos, com uma das superfícies plana e a outra convexa. (...)
O operador, para consultar as divindades por este meio, deve atirar ao ar as duas metades e observar a posição em que caírem. (...) O pui kau é lançado ao ar por três vezes, para se poder fazer uma interpretação considerada válida. (…) Este processo emprega-se vulgarmente nos templos, mas é o único que as benzedeiras adoptam sem, contudo, consultarem qualquer tratado. Nos anos 1960-1970, a pai san pó do Bairro Tamagnini Barbosa, em Macau, era assim que procedia, cada vez que entrava em êxtase.
Tal como nos templos, no final de cada sessão os consulentes recebiam dois papéis xilografados. Num deles estava xilografada uma receita que devia aviar-se numa farmácia tradicional e com ela preparar uma decocção curativa, isto é, um chá medicinal, que, neste caso, é um san chá, “chá espiritual” ou “sobrenatural”, por ter sido ditado não por um médico ou curandeiro mas por um Espírito Superior. No outro, um pequeno papel, geralmente amarelo ou roxo, estava xilografado a vermelho, um fu, sinograma muito estilizado e metafórico, muito do agrado dos bonzos tauistas. Este papel deveria ser queimado e ingeridas as suas cinzas com o san chá. Estes chás assim preparados com as cinzas dos fu incorporadas, são os xian cha ou “chás dos imortais”, de inspiração tauista. Aliás, estas cinzas têm por única finalidade potenciar os shen cha que as divindades haviam ditado, entrando no “ciclo vital do doente”.
Alguns fu de maiores dimensões e caligrafados a pincel com cinábrio sobre papéis rectangulares amarelos eram também fornecidos pelos bonzos tauistas para reforçar os poderes dos shen chá e dos xian cha, colados nas cabeceiras das camas, nas portas ou paredes dos quartos ou noutros pontos considerados os mais favoráveis.
Ana Maria Amaro em Shen Cha e Xian Cha de Macau, O Sobrenatural na Medicina Popular da China do Sul, Revista de Cultura, Abril de 2003
Nos séculos XVIII e XIX, realizavam-se procissões tanto católicas de penitência como budistas de propiciação, para pedir chuva, em anos em que a seca se prolongava por Abril adiante. (…) As procissões de que há notícia eram sempre bem sucedidas, o que enchia de júbilo os chineses e os portugueses de Macau muito devotos, mais ainda do que os próprios europeus. E isto porque ao pensamento medieval que os seus antepassados haviam levado da Europa se aliou o pensamento mítico, próprio do Oriente. Vinda a chuva, seguia-se um solene Te Deum, na Sé, em acção de graças. E isto ainda se fazia nos fins do século XIX / princípios do século XX. A verdade é que os chineses tal como os macaenses luso-descendentes são supersticiosos. Eles próprios o confessam. (…)
Por influência da moderna China e da cultura ocidental, levada directamente da Europa ou introduzida através de Hong Kong, os jovens macaenses vão, a pouco e pouco, perdendo essa mentalidade característica de seus pais e avós, que talvez, e dizemos talvez, a médio ou longo prazo, acabe por extinguir-se. Analisando várias práticas decorrentes em Macau ainda nos anos 70, relativas à doença e à sua cura, é muito difícil, de facto, separar o pensamento religioso do pensamento mágico (…). Este é o caso dos oratórios budista e tauista de Macau e do culto de San Nong e de Vá Tó no velho templo de Lin Fong no extremo ocidental da aldeia de Mong Há.
Aliás, tal ideia, em Portugal, está também subjacente entre o povo relativamente ao responso a Santo António “que faz aparecer as coisas desaparecidas”, à oração a Santa Bárbara, que protege das trovoadas, ao velho culto de São Roque, que, noutros tempos, era considerado protector contra as epidemias (…). Daí, o Catolicismo-folk, religiosidade impregnada de certas crenças em práticas mágicas, pagãs, que perdurou em certos grupos sem, por isso mesmo, diluir a pureza da sua Fé. Talvez se possa considerar um Catolicismo deste tipo aquele que muitas senhoras idosas de Macau praticavam, ainda nos anos 70, com a maior devoção e de que servem de exemplo os “senes” (nome em patuá de Macau de antigas moedas de prata) das caixas de esmolas da Sé, a almofada sobre o qual se apoia o pé do Senhor dos Passos ou os cordões roxos tecidos em seda que esta estátua em roca, vestida de veludo primorosamente bordado, transporta na mão durante as procissões anuais e que são considerados eficazes amuletos com poderes curativos. (…)
Em Macau encontram-se fundidas duas mentalidades com raízes antigas e, por isso, muitas práticas de origem portuguesa encontram-se hibridadas e, mesmo, confundidas com práticas nitidamente orientais. (…) Nos nossos dias, poucos são os macaenses que dizem recorrer às forças transcendentes, em busca da cura pessoal ou dum familiar doente. No entanto, assim como, abertamente, rogam a Deus e aos Santos católicos, pedindo graças e fazendo promessas em momentos de aflição, recorrem, ocultamente, às benzedeiras e, mais raramente, aos bonzos, quase sempre por intermédio de um parente, dum amigo ou dum serviçal chinês. (…)
O Universo, para os chineses, é concebido como um Todo. À mentalidade oriental, que as mulheres asiáticas, levadas para Macau pelos portugueses, transmitiram aos seus filhos, juntaram-se as superstições do Ocidente, às quais os homens doutros tempos seriam certamente muito mais sensíveis. A religião católica teria apagado, sem dúvida, muitas das velhas crenças, principalmente as que se relacionavam com práticas de feitiçaria. Contudo, relativamente às praticas de medicina popular, dificilmente se poderia ter apagado essa mentalidade num grupo que se manteve bastante isolado durante séculos. (...)
As doenças de natureza sobrenatural, que registámos em Macau podem, quanto a nós, classificar-se em dois grandes grupos: “resultantes de castigo divino” e de “origem mágica”. (…) No primeiro grupo incluem-se o “mal de susto”, o “savan” ou “vento sujo” e estados de possessão por espíritos, como seja o caso da epilepsia e de outras doenças neuropsiquiátricas. No segundo grupo há a considerar o “olhado” (“ôlo quente”) e o “mal de inveja” (“boca quente”), além de todos os males resultantes de “bagate” que corresponde, afinal, às verdadeiras práticas de feitiçaria, tal como as concebemos no Ocidente.
Para combater tais doenças recorre-se, nestes casos, à consultas das divindades nos templos ou a uma “mulher de virtude”, pai san pó ou man héong pó, mulheres que servem de medium, estabelecendo a comunicação entre os homens e os espíritos. Como profilácticos contra tais doenças utilizam-se ainda, em Macau, talismãs e amuletos, muitos deles de carácter religioso, quer budista-tauista, quer, ainda, católico. É também frequente recorrer-se à evocação dos santos ou dos Pou Sat, fazendo-se promessas que são pagas em função das curas. (…)
Quer das consultas às divindades que se fazem nos templos budistas e oratórios tauistas quer das consultas dadas pelas “mulheres de virtude” chinesas resultam sempre uma receita que se avia numa farmácia chinesa ou num ervanário e também pequenos amuletos gnósticos pincelados num papel amarelo ou vermelho destinados a afastar as más influências e à preparação de “chás divinos”, os san chá e os sin chá, muito populares na China do Sul.
A arte da adivinhação ou mântica é extraordinariamente diversificada na sua expressão. Aliás, a adivinhação pelos “sinais” é talvez, de todas as práticas divinatórias, a mais complexa, mas também a que se encontra mais difundida pela Terra. Sucedânea da consulta de oráculos e ordálios, a adivinhação operada por diferentes formas tem, de certo modo, mantido o favor do povo e não só do povo menos culto. Encontrámos senhoras macaenses que acreditavam piamente nos sinais, com que Deus prevenia as fiéis de certos acontecimentos que viriam a dar-se e os quais poderiam, assim, em certos casos, vir a ser contrariados. Houve quem nos dissesse que “nos acontecimentos mais banais pode ler-se um sinal premonitório dum evento qualquer”. Quer um “bom evento quer uma desgraça”. É preciso estar-se atento. Uma canção com determinado poema, que se ouve por acaso, é um exemplo deste tipo de sinais.
Outro tipo de adivinhação do mesmo género e que goza de especial favor em Macau é o lançamento dos “pauzinhos divinatórios” nos templos budistas (…). A arte divinatória aprende-se e por isso é, muitas vezes, transmitida de pais para filhos ou/e ensinada dentro dos mosteiros pelos chefes das bonzarias. (…)
Se, no Ocidente, o adivinho se pode considerar um charlatão, entre os povos sem escrita e nas práticas rituais das religiões orientais só muito raramente o poderá ser. O adivinho acredita na sua arte e na inspiração sobrenatural que possui, associando-lhe geralmente, no caso da saúde e da doença, o conhecimento das ervas medicinais. (…)
Uma outra forma especial de comunicação do adivinho com a divindade é o êxtase e a possessão dos espíritos, o que muitas vezes se processa por intermédio dum alucinogénio. Esta forma de adivinhação está representada, em Macau, pelas práticas das pai san pó e man héong pó (…) é através do êxtase e da possessão que a divindade transmite o remédio específico para o mal do consulente. (…)
A consulta às divindades ou aos espíritos protectores pode fazer-se por iatromância nos oratórios tauistas, mas é pelo lançamento das hastilhas divinatórias e dos kuá pui que as benzedeiras e feiticeiras geralmente o fazem, quer nos templos budistas quer nas pequenas e improvisadas capelas das “mulheres de virtude” ou “mulheres de tou”. (…) O bonzo, ou encarregado do templo, em face das fichas que saltam do copo de bambu, ao agitar-se este três vezes seguidas, depois de se acenderem 3 pivetes de culto e de se bater cabeça à divindade invocada, tem de interpretar os verdadeiros enigmas (…); no caso de se tratar duma receita medicinal, esta é fornecida xilografada num papel auspiciosamente cor-de-rosa eosina, a troco de poucos avos. Esse papel é acompanhado de outro menor que apresenta um fu xilografado e que se destina a ser queimado, juntando-se, depois, as suas cinzas à mezinha, que se deve aviar na farmácia e preparar, sob a forma de decocção. (...)
Entre as “mulheres de virtude” chinesas o instrumento divinatório mais utilizado é o pui kau. O pui kau é um objecto constituído por dois pedaços de madeira rectangular com cerca de l,5 x 5cm, perfurados num dos lados e ligadas por um fio. Mais frequentes são os pui kau encurvados, com a forma de dois chifres simétricos, com uma das superfícies plana e a outra convexa. (...)
O operador, para consultar as divindades por este meio, deve atirar ao ar as duas metades e observar a posição em que caírem. (...) O pui kau é lançado ao ar por três vezes, para se poder fazer uma interpretação considerada válida. (…) Este processo emprega-se vulgarmente nos templos, mas é o único que as benzedeiras adoptam sem, contudo, consultarem qualquer tratado. Nos anos 1960-1970, a pai san pó do Bairro Tamagnini Barbosa, em Macau, era assim que procedia, cada vez que entrava em êxtase.
Tal como nos templos, no final de cada sessão os consulentes recebiam dois papéis xilografados. Num deles estava xilografada uma receita que devia aviar-se numa farmácia tradicional e com ela preparar uma decocção curativa, isto é, um chá medicinal, que, neste caso, é um san chá, “chá espiritual” ou “sobrenatural”, por ter sido ditado não por um médico ou curandeiro mas por um Espírito Superior. No outro, um pequeno papel, geralmente amarelo ou roxo, estava xilografado a vermelho, um fu, sinograma muito estilizado e metafórico, muito do agrado dos bonzos tauistas. Este papel deveria ser queimado e ingeridas as suas cinzas com o san chá. Estes chás assim preparados com as cinzas dos fu incorporadas, são os xian cha ou “chás dos imortais”, de inspiração tauista. Aliás, estas cinzas têm por única finalidade potenciar os shen cha que as divindades haviam ditado, entrando no “ciclo vital do doente”.
Alguns fu de maiores dimensões e caligrafados a pincel com cinábrio sobre papéis rectangulares amarelos eram também fornecidos pelos bonzos tauistas para reforçar os poderes dos shen chá e dos xian cha, colados nas cabeceiras das camas, nas portas ou paredes dos quartos ou noutros pontos considerados os mais favoráveis.
Ana Maria Amaro em Shen Cha e Xian Cha de Macau, O Sobrenatural na Medicina Popular da China do Sul, Revista de Cultura, Abril de 2003






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