Adolpho Loureiro, o esteta


O prestigiado engenheiro Adolpho Loureiro foi distinguido diversas vezes; ocupou importantes cargos públicos e foi fundador da Ordem dos Engenheiros Civis Portugueses. Chegou a Macau em Setembro de 1883 para se dedicar ao projecto portuário. No ano seguinte ao seu regresso publicou os Estudos sobre alguns portos commerciaes da Europa, Ásia, África e Oceania, baseado no relatório apresentado em Lisboa. Romancista e poeta publica, dez anos depois de ter passado por Macau, No Oriente. De Nápoles à China, Diário de Viagem, com as impressões dos meses que aqui passou e que parecem muito pouco sensatas - se quisermos ser simpáticos com quem se comovia com as borboletas, as árvores e as flores do Jardim da Flora ou do Jardim Camões, pois os relatos que fez do que viu e do que ouviu falar sobre a cidade e sobre as suas gentes mostram-no elitista, preconceituoso ou rezingão, sempre descontente com quase tudo, ora criticando, ora lamentando-se. A forma de se expressar é tão intensa e entusiasmada que acaba por não poder ser levado a sério. Aqui estão algumas dessas impressões:


O dia apresentou-se carregado, abafadiço, desagradavel. (…) Está um calor intenso, e eu transpiro horrorosamente. Começo a receiar que esta destillação me enfraqueça a ponto de não me deixar trabalhar.  

Percorremos uma serie de ruas estreitas e pouco extensas, com casas de apparencia singela, para não dizer mesquinha, com muitas egrejas e antigos conventos, e com sentillenas e casas de guarda em varios logares. Dir-se-ía que me achava em uma pequena aldeia de Portugal, ao ver aquelles exemplares architectonicos, pesados e desgraciosos. O portuguez, o portuguez do chão, conservador, rotineiro, vae para qualquer parte do mundo, mas o seu espirito nacional jamais se deixa influenciar pelo meio em que se encontra, pela natureza, pela arte, pelos novos costumes, pela sociedade em que vae viver. (…) Para lá transporta os costumes do seu paiz, as suas habitações acanhadas e feias, a architectura chata e sem expressão dos seus templos religiosos, o massudo e pesado dos seus edificios publicos e palacios. Assim são as casas burguezas de Macau, que não mostram uma reminesciência ao menos da architectura china; os conventos e palacios, que são no mesmo estylo architectonico dos da nossa epocha de decadencia; e as igrejas, exemplares perfeitos do estylo desengraçado dos jesuitas, ou do recocó do ultimo seculo. 

A Flora é um antigo jardim, com uma pequena casa de campo, tambem em estylo classico, mas pesado e de mau gosto, e em que os marmores e cantarias haviam sido substituidos pelas argamassas, ou pelo barro vidrado. 

Visitámos tambem o seminario, construcção que data de 1640. É um convento jesuitico, feio, desengraçado e com o cunho acanhado dos conventos jesuiticos. 

Denomina-se ´Portas do Cêrco´um monumento pouco elegante e um tanto inexplicavel, que se erigiu onde termina o nosso dominio n´aquella parte da China. É desengraçado e chato.

O mercado da cidade (...) é hediondo e sujo; os becos que lhe dão accesso são estreitos e immundos; as barracas, ou bazares de venda, pequenas e feias.

A igreja de S. Agostinho (...) toda pintada de azul e branco (...). Poucas damas ali estavam, mas todas trajando os dós pretos da China, ou as saraças da India. Eram de aspecto horribile, e davam áquelle ajuntamento um ar funebre, mysterioso e triste. O tecto da igreja é de madeira, e tres ordens de columnas de pedra, irreprehensivelmente lavadas a cal, sustentam arcos que formam tres naves. Tudo tem ornatos, mas do genero architectonico recocó e desenxabido do seculo passado. Dois quadros e algumas estatuas sem valor artistico compunham o peculio artistico do templo. A entrada era por um vestibulo, sem portas nem para-vento para a igreja, e onde se não permittia estar de chapéu na cabeça, mas onde se consentia que se fumasse e conversasse em voz alta.

Ouvi uma musica estranha, desafinada e desagradavel, distinguindo-se no meio de um ruido de ensurdecer uns clarinetes fanhosos, uns pratos ou tam-tans vibrantes, e o batuque de uns tambores com um som agudo e secco. Pela Praia Grande seguia apressadamente uma extensa procissão. Era uma grande quantidade de chins e de creanças... 

É enorme a mendicidade de Macau; velhos, creanças, e cegos especialmente, são em grande numero, e nos domingos fazem verdadeira perseguição ao europeu. Alguns, aleijados, meio nus, horrendos, deitam-se no chão e fazem uma gritaria infernal, n´aquella linguagem chineza, toda monosyllabica e cheia de sons guturaes ou sibilantes.

O china, perseverante, submisso, manhoso, avido de riquezas, mas com um grande sentimento patriotico, sujeitava-se ali os mais rudes trabalhos, praticava mesmo ignomínias e crimes, mas ganhava dinheiro, ensacava, comprava todas as propriedades portuguezas que se vendiam, montava fabricas, estabelecia casas commerciaes, e dentro em pouco era inteiramente senhor de Macau. 

O chim, alem de desconfiado, invejoso e arrogante, tem um movel que o domina e que o arrasta ás acções mais elevadas, assim como ás mais baixas e repugnantes: é o desejo de ser rico. (...) o menor defeito que n´elle se nota é uma grande devassidão e o amor por todos os prazeres physicos, incluindo a comida e o fumo, principalmente do opio. 

Muito perto destas docas é que existem os verdadeiros bairros de San-Kiu e Patane, consistindo em um amontoado de pobrissimas casas de nadeira, cobertas de ola, onde os charcos e os montes de detritos e despejos dão ao local um aspecto repellente e repugnante. E ali vive feliz e pacifica uma geração degenerada e feia.

Uma fabrica de preparação de folhas de chumbo para acondicionamento do chá. É pequena e insignificante. (...). Uma fabrica de cortumes. Parece rica e valiosa, mas os couros têem aspecto de grosseiros e de mal curtidos, e ha ali um fedor horroroso. 

A melhor fabrica das que visitei foi a do china Alo-quay, de desfiação do casulo de seda. É a vapor, e emprega 575 pessoas, pela maior parte raparigas, que mostram tanta destreza no seu serviço, como fealdade nas suas feições e deselegancia no seu porte.

Tudo produz uma impressão desagradavel, para a qual não concorre menos o cheiro nauseabundo que exhalam os chins pelas unturas e perfumes de que usam, nos seus costumes extravagantes. 

Visitei tambem um dia uma fabrica de fiação de seda, sita na rua do Hospital. É um estabelecimento importante e pareceu-me soffrivelmente installado. Emprega grande quantidade de raparigas chinezas, geralmente de uma fealdade inexcedivel. Nem a frescura da mocidade...

Uma tancareira velha, hedionda...

Teimoso e caturra como um chinez .... 

O cruzamento da raça chineza com os europeus dá productos muito differentes, sendo feiissimas as filhas de peninsular, mas geralmente muito formosas as de pae inglez. Tive occasião de ver algumas d´estas chinezas, perfeitamente coradas, com a trança de cabello louro, o que lhes dava um aspecto muito estranho no meio das outras chinezas. 

Pelas ruas encontrava-se muita gente, mas quasi tudo chinezes, que se parecem todos e vestem quasi da mesma fórma. 

No grande pagode estava um fumo insupportavel, do papel e pivetes que se queimavam. Um chim batia cabeça, e prostrava-se (...) havia duas mulheres, que em linguagem fanhosa e guttural recitavam em voz alta uma prelengada, que poderia ser uma oração. (...) Tudo aquillo me pareceu exquisitissimo, á excepção da localidade, que é encantadora, e se prestaria a transformar-se em uma mansão de fadas. 

Tem proximo um pequeno pagode, onde n´aquella occasião uma mulher, levando grande quantidade de eguarias para o seu defuncto, e depois de haver queimado muitos papeis e pivetes que eram outras tantas cartas para o fallecido, se entregava ás garatujas do costume, com o ar de indifferença mais completo, e sem o menor vislumbre de espirito religioso, ou de respeito pela memoria do finado. Dir-se-ia que fazia aquellas scenas por desfastio, se não por escarneo. 

Ao contrario das outras religiões, estes bonzos são muito pouco respeitados e considerados. Entregam-se constantemente nos pagodes a rezas, a genuflexões e a garatujas risiveis (...), são celibatarios, jejuam e habitam geralmente nos templos. Usam uma ampla capa, de côr parda, amarellada, e com um livro aberto diante entoam um canto rouco e monotono, batendo alternadamente com uma varinha em um almofariz, ou em uma escultura de madeira, representando uma cabaça (...) parecem completamente destituidos de fé.

Creados na ociosodade, no luxo e na ostentação, os macaenses cruzaram os braços e foram descuidadosamente gastando o que menos legitimamente haviam ganho. Mas, como succede com os bens de sacristão, aquelles recursos foram minguando, até extinguir-se, e de todas as numerosas e grandes fortunas, que se fizeram então, póde dizer-se que nem uma só sobreviveu. 

O dia de carnaval caíu este anno a 24. Os chinas não conhecem os divertimentos carnavalescos. Por isso esta epocha passa para elles desapercebida, muito embora alguns europeus, mantendo as velhas tradições do seu paiz, façam uma vozeria insupportavel pelas ruas, trajando vestes disparatadas e extravagantes, e empoando, enfarruscando e fazemdo peças uns aos outros e áquelles que encontram. Ó santo espirito do progresso e da civilisação, quando destruiremos nós por completo esses restos do obscurantismo, da selvajaria e do atrazo dos povos? 

Ás vezes, apparecia-nos um verdadeiro bando de jovens macaistas, supprindo a falta de formosura pela elegancia, pela frescura da mocidade, e usando trages de cores vivas e claras, saltando, correndo, fallando n´aquella linguagem nhon inintelligivel para mim, mas que tinha uns accentos maviosos e uma intonação natural, que não deixava de agradar. 

Tive nas proximidades do meu hotel um baile brilhante no dia 27, o qual foi profusamente servido, e onde se reuniu o que de mais distincto havia na cidade. Não direi que as toilettes das damas fossem um primor de gosto, nem mesmo que a formosura tivesse feito muitos esforços para alindar grande numero de senhoras macaistas.

Contrastando as inglezas com os typos de algumas raras nhonhas de Macau, franzinas, de côr baça e amarellada, desengraçados exemplares do cruzamento so sangue chinez com o peninsular. 

As damas são elegantes, mas nem devem muito (salvas honrosissimas excepções) á formosura, nem póde dizer-se que a sua toilette deva levantar invejas á de uma verdadeira parisiense. No emtanto, quando uma nhon, para se entregar ás suas devoções ou visitar as igrejas, se envolve no seu dó preto, e d´entre o manto quee lhe encobre a fronte, despende os olhos, vivos e brilhantes, raios de luz como os que despende o diamante na sombra, quando, traçando elegantemente as saias, deixa ver um pé delicado e adivinhar fórmas esculpturaes, a imaginação do espectador póde crear originaes encantadores, que nem sempre a realidade confirma. É que n´este clima, o cruzamento da raça peninsular com a oriental dá fructos bem desgraçados, emquanto que o cruzamento com os saxões e homens do norte os dá admiraveis de belleza e de finura. 

Damas macaistas. São em geral elegantes, com olhos formosos e vivos, com cabellos assetinados e negros, com mãos e pés delicados e pequenos. As casas são bem mobiladas e com gosto. A recepção, que nos fazem, é amavel. Offerecem ao visitante charutos, chá, vinho do Porto, ou doce. A linguagem nhonha das macaistas é muito engraçada, mas acho grande dificuldade em comprehendel-a. Perguntam-me quasi sempre; ‘Como gostá di Macau´?

Ao pôr do sol fui ao jardim publico, onde tocou a banda do corpo de policia, por ser quinta feira. É toda composta de indigenas de Goa, que executam muito soffrivelmente musicas classicas, peças italianas e composições escolhidas. 

Os nossos camaradas e patricios, que vinham directamente de Portugal, alguns soldados, muitos officiaes e senhoras, e uma grande quantidade de creanças. Para a guarda policial de Macau vinham diversas praças contratadas e individuos angariados, parecendo que á escolha d´elles havia presidido o pensamento de arranjar uma collecção de typos exquisitos, feios, tortos e hediondos. Os andrajos que os cobriam, e os fatos que vestiam, faziam salientar mais o desaire e o desengraçado do physico d´aquelles nossos compatricios. Os governos deveriam ser rigorosos na escolha dos homens que mandam para as suas colonias. Só deveriam ser individuos, que, a par da superioridade intellectual, mostrassem tambem a superioridade physica. Isto para a China teria duplicada importancia, sendo esta nação a que presta mais ardente culto ás fórmas avantajadas, ás constituições robustas, ao talhe herculeo e forte. Mandar-lhe entes rachiticos, pigmeus, raças degeneradas e physicamente acanhadas, que mau effeito isso produz! …

Uma manada de bufalos, esses feios animaes que só são cortezes e domesticos para os que trajam a cabaia china, mas que são ferozes e hostis aos que usam trajes europeus, e que têem uma apparencia simples e innofensiva, pareceu disposta a receber-nos nas pontas das suas armas ...

Contudo, em vésperas de partida, dizia:

Sou um fraco; é uma questão da minha idiosyncrasia. Affeiçoo-me rapidamente ás pessoas e ás cousas com quem trato e lido. (...) Lagrimas, que não me arrancaria a mais pungente dor physica, brotam-me dos olhos, embargam-me a voz (...) o ultimo dia da minha estada em Macau (...) tinha remorsos por quasi desejar não partir ainda...

No Oriente, de Napoles à China, diario de viagem, Adolpho Loureiro, 1896

Questões de idiosyncrasia ...

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