A queda da alma

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Calçada das Sortes

(...) Um dos acidentes mais vulgares e também dos mais temidos (...) é o susto provocado por queda, ou por intervenção de pessoa, coisa ou animal estranho ao seu mundo, ou que, inopinadamente, surja no seu caminho (…) a criança perde o apetite, chora sem se perceber porquê, apresenta sintomas de crescente agitação, dá gritos inesperados e sem causa aparente, padece de insónias e, por fim, sobrevêm-lhe vómitos e diarreia, o pulso enfraquece e torna-se mais rápido, acabando por morrer. 

Este mal de susto resulta da queda da alma, ideia que se mantém ainda viva entre muitos chineses e também, curiosamente, entre os povos ameríndios (entre os Kallawaya da Bolívia esta concepção e até o nome da doença são exactamente iguais aos dos chineses). 

Certos locais onde se julga que residem maus espíritos, porque ali se ouvem gritos ou gemidos, tais como fontes, águas correntes, poços, etc., são, naturalmente, muito temidos, tanto pelos ameríndios como pelos chineses e também pelos macaenses (…) doença, conhecida, em "patois" local, por mal de susto ou subissalto. (...)

O chamamento da alma em Macau assume dois aspectos: utilização duma peça de vestuário do paciente, que se agita, à medida que se vai chamando pelo seu nome e o balouçar-do-porquinho, defumação destinada ao tratamento de sustos infantis (...).

Relativamente aos adultos, usa-se, na Bolívia, o banho de flores que foi substituído, em Macau, pelo banho com água da decocção de sete folhas (...). Os banhos de cheiro e as mezinhas de sete folhas são, porém, mais usados em Macau, contra savan, mau olhado e vento sujo, doenças também de caracter mágico. 

Contra mal de susto, a terapêutica mais popular usada pelos portugueses de Macau tanto para crianças como para adultos é, sem dúvida, a ingestão de pó de pedra cordial ou de Gaspar António (preparação à base de minerais, cuja receita seiscentista constituía segredo dos Padres da Companhia de Jesus), preparação que se raspava com uma colher de prata e se tomava com um pouco de água. (...) 

As senhoras macaenses, idosas, que conhecemos nos anos 70, acreditavam que o susto infantil poderia provocar doenças cardíacas no futuro e daí, darem a "chupar" às crianças pedra cordial ou deixarem que à más, ou parentes chinesas mais ou menos próximas, balouçassem o porquinho quando uma criança de pouca idade ficava morum ou tinhosa (chorona, birrenta e sem apetite), embora sem febre, ou com febrinha (febre ligeira) sem causa aparente. (...) 

O balouçar do porquinho é considerado, em Macau, uma prática chinesa (…). Em Portugal, por exemplo, em certas aldeias beiroas, defumavam-se as crianças balançando-as em cruz sobre ervas aromáticas, que se faziam arder sobre brasas acesas (...). O nome de erva do ar parece apontar para uma terapêutica contra mal de ar. E é muito curiosa a coincidência entre esta prática e a concepção que ainda vive entre os macaenses. (…).

Uma adaptação macaense simplificada da prática de balouçar o porquinho consiste em juntar o n'gai héong, grãos de incenso macho (grãos de incenso que lembram grãos de areia) com grãos de alfazema (flores secas de alfazema) e deitá-los sobre carvão em brasa, entoando a seguinte cantilena: Tám chü chái (Balouça-se o porquinho) / Tám ngau chai (balouça-se o boizinho) / Tám chü (Balouça-se o porco) / Tám iéong (balouça-se o carneiro) / Tám tei tou néong (balouça-se o ventre da mulher) (*)Chü kéang (o porco tem medo) /Kau kéang (o cão tem medo) / (segue-se uma série de nomes de animais) / (Nome: F..,. m'kéang!) O menino F.... não tem medo! 

Bate-se uma palmada no chão junto ao fogo, bate-se 2 a 3 vezes no peito da criança, puxa-se-lhe duas vezes pelo nariz e duas vezes pela orelha. Passa-se a mão sobre o fogo e depois sobre o rosto da criança (...). 

Entre a população chinesa de Macau, era também considerada muito eficaz contra o mal do susto, colocar debaixo do travesseiro da criança (ou do adulto) um parão de lenha (ch'ai tou), embrulhado numa cabaia previamente defumada sobre papéis de culto (papéis ouro-prata) e pivetes a arder, entoando-se enquanto se defumava a cabaia da pessoa que sofreu o mal de susto, a seguinte cantilena: F.,.. (nome da criança ou da pessoa em questão) / fai ti fan lôi (volta depressa) / M'sai kéang (não tenhas medo) / Chü m'kéang (não receies o porco) / Ngau m'kéang (não receies o boi) / Kau m'kéang (não receies o cão) / Mau m'kéang (não receies o gato) / Mo Io chai m'kéang (não receies o mouro) / Hak kwai m'kéang (não receies o negro) / Hak kwái tai (aquieta-te, toma-te dócil) / Téang á Pá, á Má, wá (ouve o que diz o teu pai e a tua mãe) / Sap i có cheng san (os 12 bem-estar, isto é, completamente bem de saúde e de boa disposição) / Lo fan (traz contigo). 

Os papéis votivos devem ser queimados no próprio local onde a pessoa sofreu o susto, (...) que esta cerimónia pode realizar-se em plena rua. Depois de finda a cantilena embrulha-se o parão na cabaia ou peça de roupa que acabou de ser defumada e entrega-se à mãe (no caso de ser uma criança) a qual deve colocá-la sob o travesseiro da cama, onde o doente repousa (…) deve dizer: Kwai Kwai tei fan m'sai kéang (sossega, não tenhas medo), lat kau fan tau tin kong (dorme um sono descansado até de manhã). (…) 

De notar, nesta cantilena, é a referência aos mouros (antigos guardas da polícia de Macau) e aos negros muito temidos, noutros tempos (...) as crianças macaenses eram ameaçadas com o moçofuzido (escravo cafre fugido) à maneira do papão das crianças europeias. Aliás, qualquer que seja a variante da cantilena, esta cerimónia é um mero "chamamento da alma" de cunho puramente chinês, embora a defumação seja de carácter popular nitidamente português. (…) 

Para defumar ou balouçar o porquinho usava-se um fogareiro de barro em estilo chinês com brasas acesas. Porém, para defumação das casas, as senhoras macaenses possuiam, dantes, uma cassoleta ou defumador geralmente em liga de cobre, com tampa trabalhada e perfurada, dentro do qual se colocavam os aromas e debaixo dele cinzas quentes, que os faziam evolar-se, perfumando-se, assim, os quartos, a roupa, etc. Perfumar consistia, pois, nos tempos antigos, em queimar substâncias aromáticas (...). Contra o mofo e como defensivo contra males de susto, savan e vento sujo, não havia casa portuguesa em Macau, noutros tempos, onde se não queimasse pelo menos bisbim, incenso e/ou alfazema (...)

É ainda frequente entre a população chinesa no caso de queda, bater-se no chão, no local onde a criança tiver caído, para castigar o espírito que poderia tê-la assustado penetrando no seu corpo (há aqui uma confusão nítida entre a queda da alma e o mal de ar). Os portugueses de Macau, tal como os portugueses europeus, costumam fazer o mesmo, mas com objectivo diferente: apenas para sossegar a criança, mostrando-lhe que o local que a magoara, fora, prontamente, castigado. É natural que ambas as práticas tenham uma origem comum. (…)

São várias as mezinhas usadas em Macau para defumação quer de crianças durante a cerimónia de balouçar o porquinho quer contra mau ar, mofo, traças, moscas e outros insectos. Seguem-se algumas das receitas mais populares usadas com carácter mágico contra sustos ou indisposições de crianças. 

Mezinha para defumação contra susto (receita de tradição oral): É frequente verem-se, em Macau, cascas de banana (figo vilão), cortadas em quatro quartos, a secar sobre peneiras de bambu, ou suspensas nas portas, tal como as cascas de tangerina ou de toranja. São destinadas a ser queimadas com alúmen, em lugar das cascas de toranja, nas populares defumações de balouçar o porquinho para tirar susto às crianças. (...)

Defumação com alfazema (receita de tradição oral): Em vez de se usar o azeite verde e as folhas de eucalipto, pode usar-se, apenas, alfazema, que era adquirida nas boticas portuguesas. A alfazema é a Lavandula spica L., originária da Pérsia e do Sul da Europa. Usa-se em defumadoiros de norte a sul de Portugal, em benzeduras e em sortilégios contra malefícios. Em várias aldeias de Portugal é, ainda, costume defumar-se as crianças sobre a lareira, onde se deitam ramos de alecrim sobre as cinzas quentes, balouçando-as em cruz. A correspondência é perfeita. 

Chá de pelo-pé (receita de tradição oral): Esta palavra aparece, por vezes, nos velhos cadernos de receitas de culinária e de mezinhas das senhoras de Macau, sem significado expresso. Ouvimos, às senhoras macaenses, chamar polopé e polopei à casca de toranja, por deturpação de pó lôk pei, nome chinês da casca de jamboa (nome dado em patois de Macau à toranja), cujo nome clássico chinês é'iau. (…) É possível, porém, que pelo-pé seja, aqui, o equivalente a pelo-do-pé isto é, pêlos pubianos que se usavam no Brasil, sob esta designação, como «elixir de amore», portanto, como mezinha de carácter mágico.

Mezinha suzo-barataSuzo-barata é o nome de Macau dado às pequenas bolas pretas que se vendem nas farmácias chinesas, geralmente envolvidas por hastilhas finas de bambu e que não são nem mais nem menos do que excrementos esféricos de escaravelhos. (…) Tanto contra susto como contra mal de ar esta mezinha é muito estimada, tanto na China como em Macau. (…) 

Além da pedra cordial, havia quem usasse, em Macau, pó de aljofre (pérola moída no sá pun, aberto com água ao qual se juntava, por influência chinesa, uma pitada de pó de carirnbos (cinábrio), um produto tóxico, usado em medicina chinesa como antiespasmódico e sedativo em casos de taquicardia de natureza nervosa e ainda no tratamento de convulsões infantis. É, também, considerado pelos taoístas uma substância dotada de poderes sobrenaturais. Este pó cozido com coração de porco (usado homeopaticamente) é, também, considerado muito eficaz contra sustos e futuros males cardíacos. (…)


(*) alusão à má influência que se admite ter uma mulher grávida, à qual se atribui séong hón ou séong ngan, duplo olhar, o que faz lembrar o universal mal de olhado ou quebranto.

A «queda da alma» na concepção popular de Macau, Ana Maria Amaro em Revista da Faculdade de Ciências Humanas, 1989


Ana Maria Amaro remata dizendo que se encontram, em Macau, semelhanças na interpretação das doenças de carácter mágico e na terapêutica entre os chineses e os sul-ameríndios, o que parece ir ao encontro das teses que defendem antigas migrações para o Continente americano, por via marítima ou através das Aleutas. Mas, também, com os portugueses e as suas defumações, ainda praticadas em aldeias portuguesas "balouçando-se em cruz" as crianças sobre ervas aromáticas, contra quebranto, mal-de-lua e outras indisposições consideradas de origem sobrenatural.

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