A Rua de Camilo Pessanha

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Todo o meu passado me fugiu assim que eu voltei as costas. Agora escuso de tornar a Portugal, escrevera Camilo Pessanha em carta a Alberto Osório de Castro, em 1894, o ano em que chegou a Macau para leccionar no Liceu. 

Mas durante as três décadas que viveu aqui, visitou Portugal quatro vezes. A sua última estada foi, no entanto, abreviada e, de volta ao Oriente, queixa-se numa outra carta: a agitação estéril desse meio lisboeta, (...) esse tumulto, agressivo e vão, por entre o qual andei a ser amachucado e sovado durante cinco angustiosos meses, o que afasta a hipótese de o seu regresso ter sido ditado pela falta de ópio. 

Dias Miguel, contando o episódio do seu regresso, refere que o poeta, acompanhado pela família e amigos, chegado ao Terreiro do Paço e vendo a tripulação chinesa de um navio alemão que o traria de volta, juntou-se aos marinheiros, prescindindo das comodidades de 1ª classe e esquecendo-se de quem tinha feito questão em despedir-se, não tendo feito sequer um aceno.

Em Macau, parece que também foi amachucado e sovado: sabe-se que foi alvo de duras críticas e, durante muito tempo se falou na sua personalidade abúlica, no seu andar trémulo pelas ruas de Macau, precisando do estímulo do ópio para suportar o meio onde não se revia, apesar de haver quem o mostrasse realizado, influente e reconhecido, lembrando que foi juíz, membro de uma loja maçónica, advogado, conservador do registo predial, poeta e que, a um ano de sua morte por tuberculose, reitor substituto do Liceu Português como refere Adelto Gonçalves sobre um dos trabalhos de Paulo Franchetti.

A investigação de Franchetti, O essencial sobre Camilo Pessanha, afasta, na verdade, alguns mitos que foram sendo criados; autor de vários estudos sobre a obra do poeta e sobre o poeta, contesta os biógrafos que o mostram como um homem displicente com seus trajes, desprovido de pontualidade e senso de obrigação, como Penajóia, que até colocou em causa a sua capacidade oratória como jurista e lhe atribuiu uma personalidade abjeta a quem, ao morrer, quase abandonado, coberto de chagas, poucos amigos o teriam acompanhado no enterro.

E lembra José Vicente Jorge, para quem Pessanha tinha profundo conhecimento teórico da língua chinesa e um apreciável manejo da língua falada, e acrescenta que basta olhar as suas fotografias, num rigoroso figurino de época, para se poder concluir que, pelo menos até 1915, se aproximava mais de um dandy do que do mendigo sujo que alguma tradição tentou fixar. Quanto à abulia, Franchetti admite que possa ter alternado momentos de grande energia com outros de prostração, o que é insuficiente para definir a personalidade do poeta.

Outro mito é o de ser um escritor sem escrita, uma fantasia de Ana de Castro Osório, conclui, pois disse, a propósito da publicação de Clepsydra, que não escrevia os seus versos, mas os guardava na memória, pelo que lhe havia pedido que os ditasse. E João de Castro Osório, o filho da escritora, também propagou essa ideia, interessado em mostrar-se como herdeiro do espólio literário do poeta, deixando as suas publicações, no entanto, muito a desejar pela falta de rigor (um caderno de Pessanha depositado no Arquivo Histórico de Macau e a documentação que consta do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa permitiram, a Franchetti, a Carlos Morais José e a Daniel Pires, a fixação dos textos, porque Pessanha colou aí vários recortes de publicações e procedeu à sua correcção).

Na verdade, sob o título A idiosincrasia de Camilo Pessanha e o subtítulo Um poeta estranho (Diário de Lisboa, Abril de 1921), em entrevista a Fernanda de Castro, Ana de Castro Osório revelava como conseguiu publicar a Clepsydra, dizendo: É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. (…) Nele não existe, nem mesmo em estado latente, o mais pequeno desejo de glória, como se Pessanha nunca tivesse publicitado nada.

Depois da sua morte, um texto que não chegaria a ser publicado na revista brasileira em que era redactora, Ana de Castro Osório vincava a importância da família na divulgação da obra do poeta, mas sem razão, acrescento eu - a revista espanhola Cosmopolis, em Novembro de 1920, por exemplo, dedica-lhe várias páginas, incluindo poemas e traduções.

Assim, a reprodução, em 1984, das páginas do caderno serviu, de acordo com Franchetti, para colocar um ponto final na imagem persistente de Pessanha como um poeta sem escrita. 

Quando morreu, de turbeculose, houve textos para todos os gostos, não esquecendo uns, o seu vício em ópio; outros, o facto de se ter unido à filha da sua concubina depois da morte desta, de ter tido um filho que só tarde perfilhou, ou de ser chamado pelos chineses de pune-tio-ianc-mean (literalmente, o homem da meia-vida ou morto vivo), ou de amendoim torrado (ham-chói fà-san). 

Um texto anónimo, no Diário de Lisboa (3 de Março de 1926) dava a notícia da perda: Morreu um poeta, um grande poeta português - Camilo Pessanha. A noticia veio de longe, do extremo oriente, de Macau (…). Camilo Pessanha que não cabe nas linhas fugidias de uma reportagem como esta, era, sem duvida, o mais bizarro, o mais complexo, o mais extraordinario temperamento lirico do seu tempo. Em Portugal o nome de Camilo Pessanha era sagrado para os raros que o conheciam.

A 4 de Março, n´ A Capital, Mayer Garção escrevia: Quando ontem abri um jornal da noite e dei com a noticia da morte de Camilo Pessanha, pareceu-me ouvir, ao longe, muito ao longe, um som amortecido, e fino, como o duma taça de cristal que se quebra. Toda a impressão da arte de Camilo Pessanha está nesse som (…) nunca conheci poeta que fosse tão simplesmente poeta, tão exclusivamente poeta, como esse cantor das coisas que não teem expressão e das cores que não teem tintas. Estava ali um poeta enorme. Enorme porque era tão delicado como uma ave. (…) Poucos o conheciam (…). Quando, em tempos, eu fiz uma escolha de cem sonetos, todos eles definindo uma originalidade acentuada ou uma moção viva, embora discreta, ao pé dos maiores vates da poesia luso-brasileira coloquei o de Camilo Pessanha. Quasi que fui insultado! Os filisteus reclamaram, com entusiasticos encomios, toda a sorte de conhecidos vates de almanach, e julgaram perdido ou estragado o espaço aplicado a alguns sonetos de Camilo Pessanha, cuja fragancia não aspiravam, cuja harmonia não sentiam, cujo sentimento não conseguiam apreender. (…) Em arte, ser inconfundivel é ser grande.

Estranhamente, são os seus amigos Carlos Amaro, a 16 de Março, logo depois da sua morte, na Ilustração e João de Castro Osório, na Contemporânea, em Maio, que, não querendo que Camilo Pessanha ficasse esquecido, ajudaram à criação de uma imagem desfocada do poeta.

Amaro fala da sua magreza incomparável, na sua marcha inquieta ao longo das ruas, no seu ar de principe e de vagabundo, e das vezes que o viu nos cafés, com a cabeça caída para trás, como que decepada, na bôca um sorriso, só igual ao sorriso que costumam ter os mortos, definindo-o como verdugo de si mesmo, e alude ao desgraçado temperamento, à amargura constante da sua alma agitada, e, por erro ou exagerando, refere que viu 7000 páginas de poesia chinesa traduzida pelo poeta, em Lisboa. Castro Osório preferiu aludir à sua sensibilidade estranha, ao seu amor ferido, à sua falta de preparação literária...

Na Revista Feminina, de S. Paulo, Ana de Castro Osório refere mais uma vez que Pessanha nos deixava um livro, um único livro, e exaltou a sua participação e a da sua família na divulgação da obra, também, através da imprensa. 

Por outro lado, o facto dos seus amigos testamenteiros não se terem preocupado com o destino dos seus bens, desprezados pelo filho do poeta e pela sua meia-irmã, também em nada ajudou.

Franchetti crê, assim, que a forma pela qual os seus versos foram divulgados, a ausência do poeta das rodas literárias e as lendas correntes sobre sua vida confusa, envolta nas brumas do Extremo oriente, tudo contribuiu para fazer de Pessanha um receptáculo privilegiado para as projecções do imaginário da época. (...) Na verdade, as lendas que se criaram em torno do poeta tiveram uma importância que foi muito além de influir na forma como se leram os seus versos (...) a «herança» literária de Pessanha foi claramente objecto de disputa entre diferentes grupos de intelectuais (...) as várias lendas que se criaram em torno do poeta não foram inócuas, mas tiveram, quando das sucessivas versões da Clepsidra, um papel determinante na argumentação que sustentou a legitimidade da edição dos versos em volume. 

E Pessanha, conhecia as críticas que lhe faziam, em Macau? Sim, claro que sim. Em carta a um amigo, desabafa (com uma, que presumo, gargalhada): mantenho o mais impassível desdem pelos julgamentos da opinião pública (á qual até teria um certo gosto de vaidade em escandalizar, se a minha obscuridade m´o não impedisse) – com tantissimos bandalhos que teem n´ella voto de qualidade... ou, quando diz às misérias da minha existência desamparada e vagabunda, têm-se reunido os desprezos, por vezes insolentes, de quem quase sempre me é inferior...

Em 1967, Vitorino Nemésio, na revista Colóquio/Letras, dizia: De Camilo Pessanha não me consta por ora monumento. O seu perfil torturado andou longe de focos e de ateliers. Macau e a China encantaram-no. Nem Coimbra (…), nem a terra do Santo Nome de Deus (essa com mais desculpa) o bronzificarão …

Foi verdade. Sim, por muitos anos. No momento da sua morte, o governo e o Leal Senado andavam empenhados em monumentos que homenageassem dois heróis de Macau: o então reabilitado Coronel Mesquita e Ferreira do Amaral e preocupados com o espaço para colocar a obra de estatuária, uma única, a princípio foi pensada uma única, e com as despesas, dado não haver em Macau bronze suficiente. No entanto, para homenagear Pessanha, a decisão foi a de se atribuir o seu nome a uma rua e a escolha recaíu sobre uma das perpendiculares à Almeida Ribeiro, a Rua do Mastro. Curiosamente, a rua permaneceu, no que era o seu início, com o nome original, mudando, quando cortada pela avenida. Se Camilo Pessanha não fosse estimado, não se compreenderia a decisão ter sido tomada tão poucos dias depois da sua morte ... 

Arnaldo Saraiva, na revista Persona, em 1984, faz-lhe, também, um rasgado elogio: fora ele francês, e teria já traduções em todas as línguas, resmas de teses, multidões de discípulos: o ondulado e alado do seu verso, a variedade dos seus registos, a multiplicidade dos seus tons e sugestões – visuais, sonoras, e até olfactivas -, a sua originalidade intimista, a sua dicção nítida e sóbria, a sua ´concisão epigráfica´, a facilidade com que se abeira dos abismos do amor e da morte, o fulgor discreto das suas imagens e metáforas, tudo isso faz de Camilo Pessanha um mestre da poesia universal. 

Já Fernando Pessoa, em carta que lhe enviara para Macau, começara por dizer que os seus poemas são muito conhecidos, e invariavelmente admirados, por toda Lisboa. É para lamentar - e todos lamentam - que eles não estejam, pelo menos em parte, publicados. 

E acrescenta que os sabe de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte continua de exaltação estética, pedindo-lhe a inserção, em lugar de honra do terceiro número, da sua revista Orpheu, de alguns dos seus admiráveis poemas...

A Rua de Camilo Pessanha


A Rua de Camilo Pessanha é uma das ruas tradicionais da baixa da cidade, com as suas lojas de ferragens, velharias, farmácias chinesas, cabeleireiros, barbeiros, floristas, casas de pasto, botiques, alfaiates, um templo, uma carvoaria; mas aqui destaca-se o edifício da Tung Sin Tong, a instituição de solidariedade social mais antiga da cidade e, a seu lado, o edifício da sua farmácia; e, logo a seguir, já na esquina com a Almeida Ribeiro, também a Casa de Penhores Tak Seng, transformada em museu.

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