A Travessa do Tudum


TUDUM Dá-se êste nome em Macau, e também o de dó a uma capucha preta, que é usada pelas senhoras. O primeiro é de origem chinesa, ao que parecce. Gonçalves Viana (Apostilas). 
Não é de origem chinesa, mas malaia, tudung, «véu, bioco». Também designa o chapéu-de-sol indígena, em Macau. 
1904.- «As folhas grandes e seccas (de caniço aquático) usam-nas para cobrir os chapeos de sol tudum, e para embrulhar a catupa». João Maria da Silva, Repositorio, p.72 

Glossário Luso-Asiático de Sebastião Rodolfo Dalgado, 1919


Era o caso dos carregadores de cadeirinhas, que usavam chapéus de palha de grande circunferência (os tuduns), e alpercatas em vez de sapatos, que calçavam sem meias.

História dos portugueses no extremo oriente, Oliveira Marques, 1998


Mais adiante vão duas mulheres macaenses, envolvidas nas saraças: singular mantilha ou cobertura, sómente usada em Macau. É um grande panno ou coberta quadrilonga, de tecido d´algodão, pintado de ramagens, ou em listas de côres vivas e flamejantes, apresentando como barra certos desenhos em bicos, que se podem dizer classicos, porque os deve ter toda a saraça genuina.

Mesmo as mais tafulas macaenses, depois de vestidas, ás vezes ricamente, cobrem-se com a desgraciosa saraça, que lhes envolve a cabeça e o corpo, e lhes esconde o rosto quando ellas querem. Já um velho bispo de Macau declamou n´uma pastoral contra similhante uso, dizendo que as mulheres com saraça pareciam papagaios derrubados; e, quanto a nós, tinha razão o bom do bispo. 

Archivo pittoresco, semanario illustrado, vol I (1857-1858) 





imagem da capa do livro de Ana Maria Amaro
e imagem de uma mulher macaense, John Thompson (1837-1921)

A mais antiga notícia que encontrámos relativa ao traje usado pelas nhonhonha, (1) as filhas dos portugueses, no Oriente, foi-nos legada por Fernão Mendes Pinto que o descreve como o de sereias:«(…) & assentados à mesa forão servidos de moças muyto fermosas, e ricamente vestidas ao modo dos Mandarins que a iguaria que punhão cantavão ao som dos instrumetos, que outras tangião, & a pessoa de Antonio de Faria foy servida cõ oito moças muito alvas & gentis molheres, filhas de mercadores honrados, que seus pais por amor de Mateus de Brito, & de Tristão de Sá trouxèrão da cidade, as quaes todas vinhão vestidas como sereas, que a mòdo de dãça fazião o serviço da mesa ao som de instrumentos musicos (...).» 

Frei Gaspar de São Bernardino, em 1606, também se referiu às saraças (...) o pano enrolado à cintura era, de facto, uma forma de vestir quase universal na Ásia tropical, na Insulíndia e em África. (...) 

Peter Mundy, no século XVII, descreveu também os trajes de Macau referindo-se aos quimonos (...). Este quimono deve corresponder ao quimão ou baju, que, nas mulheres ricas, talvez quando havia em casa pessoas estranhas, era em tecidos ricos e fartamente decorados. Quando saíam íam encerradas em suas cadeirinhas e provavelmente envolvidas nas suas saraças. Parece não haver dúvida quanto ao hábito de andarem, em Macau, as mulheres veladas, com o rosto encoberto, desde os primeiros tempos da fundação da cidade porque são muitos os documentos que se referem a este uso. (...) 

A. E. Van Braam Houckgeest, em Maio de 1795, se referiu, assim, às mulheres macaenses: «Em Macau um estrangeiro não vê nunca ou quase nunca o rosto de uma mulher, sobretudo da primeira classe; porque, quando elas saem, transportam-nas ordinariamente num Orimon (espécie de palanquim japonês) que é inteiramente fechado e onde elas vão sentadas no fundo, e quando caminham pelas ruas, a sua cabeça vai, totalmente, coberta com um pedaço de pano pintado das Índias, que se abaixa e com o qual elas escondem tão prontamente a fronte, à aproximação de um homem, que a custo se tem tempo de distinguir a cor da sua pele». (...) 

O traje antigo era conservado por tradição e por economia, principalmente numa altura em que a maior parte das famílias macaenses se debatia com a miséria uma vez que o comércio apoiado no trato do mar estava em franco declínio. (2) (...) A saraça (...) parece poder-se concluir que este nome era atribuído ao véu ou espécie de mantilha com que as mulheres cobriam a cabeça e o busto. (...) 

Entretanto, com o século XIX e com ligações mais frequentes com a Europa e entrada no Território de algumas senhoras embarcadas em Lisboa, chegou a Macau o uso de novas modas tais como os chapéus, entre os quais os chapéus de abas largas que tanto furor faziam em Paris. (...) 

Em 1871, o Barão de Hübner acentuou as características do traje das mulheres macaenses como expressão de diferentes estatutos sociais. Segundo este viajante «as beldades macaenses vão à igreja todas endomingadas segundo o mau gosto ibérico, em cadeirinhas, (3) todas envolvidas nas suas capas de seda negra, seguidas das suas governantas e criadas malaias. Ajoelham-se sentadas nos calcanhares como em Portugal, rezam e abanam-se com os leques. As servas são mais escuras e de olhos mais fendidos que as amas, porque têm mais sangue malaio ou chinês nas veias. São também menos gordas do que elas e levam na cabeça capas de Calicot (4) de cores muito brilhantes». 



capote feminino, Açores, Museu Nacional do Traje e da Moda


Viúvas na praia, Bonifácio Lozano,1946

Museu Dr Joaquim Manso


Nessa altura também em Portugal eram usados biocos e mantilhas para o mesmo fim. (...) Depois da Guerra do Pacífico, o dó, como muitos outros usos antigos, foi abandonado. Os refugiados que ocorreram a Macau e as vicissitudes por que passou aquele Território varreram muitos dos velhos preconceitos e provocaram na mentalidade dos jovens uma radical transformação. 

1) nhonha – feminino de nhom. Nome antigo dado em Macau aos filhos dos europeus e de mulheres asiáticas ou euro-asiáticas.Esta palavra consta, nesta acepção, de vários documentos dos séculos XVII e XVIII. A forma plural, antiga, de nhonhonha. 
(2) Expulsos os portugueses do Japão em 1638 e suspenso o comércio com as Filipinas, depois da Independência de Portugal em 1640, o comércio macaense decaíu. 
(3) Este uso das cadeirinhas em estilo chinês, transportadas por dois cules (carregadores chineses), vinha já de trás. Qualquer pessoa que se prezasse nunca caminhava a pé, pelas ruas de Macau, mas sim nas cadeirinhas, com cortinas de seda e pequenos estores (…) 
(4) Calicot - pano de algodão branco, leve e delgado, que se fabricava originalmente, em Calecut de onde vem o seu nome. 

O traje da mulher Macaense: da saraça ao dó das Nhonhonhas de Macau, Ana Mª Amaro, 1989

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