
«(...) Quando desta vida os seres se libertam do corpo material, em espírito respiram o sopro vibratório que dá a atmosfera ao universo. Há quem, por morte violenta, afogamento, abandonado ou faminto na hora de morrer, fique com o seu espírito perdido, sem descanso, talvez entalado entre portas (...). As festividades aos espíritos abandonados começam no primeiro dia da sétima Lua, quando os portões terrestres são abertos para que os espíritos, autorizados a circular livremente, se juntem a confraternizar com os seus vivos familiares, durante todo esse mês. Tal festividade tem origem de um costume ancestral em oferecer num determinado dia sacrifícios aos antepassados. Venerados, aparecem mais tarde também os Deuses que, em conjunto com os Ancestrais e Antepassados, têm sempre quem lhes preste homenagem.
Já os fantasmas, ´gui´ (Kwai, em cantonense), são almas que morreram sem deixar descendência ou que não tiveram um funeral adequado e, como Espíritos Famintos, não têm quem lhes faça sacrifícios. Merecem atenção especial pois formam uma classe desfavorecida; ressentem-se disso e são até capazes de represálias. Espíritos a cujos corpos a que pertencem foram mal enterrados e que não mereceram a atenção dos seus familiares e amigos, muitos tornaram-se famintos e aproveitam a possibilidade de voltar a vaguear por entre o mundo da matéria para espalhar problemas, desastres e doenças. Para aplacar estes espíritos e evitar que façam mal é necessário conceder-lhes atenções que normalmente são reservadas aos deuses e aos antepassados. Por isso, nesses 30 dias do sétimo mês lunar (...) é habitual ver-se nos passeios da cidade de Macau e à frente das casas e lojas, pessoas a queimar pivetes e papéis dos mortos, com oferendas como fruta, vinho, chá e tudo o que pensam que os espíritos gostam.
O fumo, ao elevar-se ao Céu, transporta a mensagem, enquanto se derrama vinho chinês e se espalham algumas moedas pelo chão. Estranha visão que nos abre as portas ao mundo do inconsciente.
São sobretudo as pessoas mais idosas que praticam esse ritual pelos passeios, não deixando de ser seguidas pelos seus netos. Divino lugar à cidade, que são dela os seus habitantes e nesses ritos apresentam-nos por percepções, imagens que ficam na memória, iluminadas com as silhuetas intermitentes de um fogo em papéis votivos.
Servem estas para desamarrar as forças em tensão, que fora da matéria ainda se mantêm ligadas ao mundo do vivo, sem que a deusa do esquecimento, Meng Po, lhes tenha conseguido apagar da memória toda a sua vida anterior.»
José Simões Morais na Revista H, jornal Hoje Macau (nº 2700)
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