Os livros de Ana Maria Amaro são fascinantes, e, essencialmente, pela forma apaixonada como nos oferecem tudo o que estudou e indagou a propósito de Macau, da sua cultura e da sua história. E, por isso, não poderia ter deixado de me entusiasmar a leitura da sua pesquisa a que chamou Introdução da Medicina Ocidental em Macau e as Receitas de Segredos da Botica do Colégio de S. Paulo.

Através do manuscrito das 34 receitas de segredo que se encontra na Biblioteca da Casa dos Jesuítas de Roma, que proporcionou este livro interessantíssimo, podemos perceber que as boticas dos colégios desta ordem religiosa eram das melhores da época, sendo a de Macau de grande importância, o que se conclui pelos remédios que se manipulavam, os quais incluem fármacos do Brasil, de Malaca, da China, da Índia, para além das fórmulas usadas na Europa, e que, claro está, dão-nos uma ideia muito aproximada das maleitas que mais afligiam a população e da procura de cura ou, pelos menos, de alívio para os sofrimentos.
Os males (para além de febres e de tosse que não surpreendem, pelo clima) parece prenderem-se com os olhos, com o estômago ou com a pele, mas, também evidenciam as receitas que havia preocupações com o mau hálito e com a flatulência, com as feridas e a forma de as sarar, e, ainda - e isso deixou-me de queixo caído - com as dores de parto (por causa da sentença bíblica ´parirás com dor´) e com a perda da virgindade, embora se declare que esta se fica a dever a lavagens, esquecendo-se o significado (também bíblico) de conhecer um homem. E curiosa é a manipulação de ingredientes ...
Ora bem; depois dos portugueses terem assentado arraiais em Macau, depois de terem construído as suas casas e as suas igrejas e de terem já constituído famílias estáveis, e depois, também, de ter surgido a Santa Casa da Misericórdia e o seu Hospital, dá nas vistas o famoso Colégio de S. Paulo dos Jesuítas, que, tal como era imperativo nesta ordem religiosa, tinha a sua Enfermaria e a sua Farmácia (ou botica).
Para além dos cirurgiões embarcados, os religiosos foram os introdutores da medicina ocidental em Macau, e, como nos explica Ana Maria Amaro, medicina que não podia, naquela altura, competir com a medicina oriental, tanto pelo seu atraso científico, como pelo desconhecimento das doenças locais (...) passou-se, depois (...) ao envio a Goa e ao Reino, de vários filhos-da-terra, para cursarem medicina. De Goa, também alguns médicos formados na Escola local, passaram a demandar Macau e teria sido, provavelmente, da abertura destes médicos, filhos do Oriente, à terapêutica indiana e chinesa, velhas de milénios, que nasceu a Medicina híbrida que a tradição oral conservou e que, sem dúvida, teve um valor muito marcado na sobrevivência do grupo de portugueses (...).
A botica, já em 1603 estava provida com simples medicamentos da farmacopeia ocidental da mais avançada da época, simples que, em Macau, eram pedidos a Goa e dali, remetidos anualmente. Esta botica era dirigida por um irmão especializado na preparação de medicamentos, o qual, às vezes, em caso de necessidade, era chamado a tratar dos doentes, quer da enfermaria, quer fora do Colégio. (...) Na oficina ou laboratório, nunca faltava a fornalha, a estufa, o alambique de cobre, os almofarizes com as suas mãos de ferro, e outros de diferentes tamanhos, em pedra, além de espátulas, vasos de porcelana, vidro, barro vidrado, e grandes potes chineses (...) e uma biblioteca especializada (...).
Em 1625, não havia, em Macau, nem botica nem mezinhas ao modo português, senão as do Colégio dos Jesuítas. (...) Tal como o Colégio de Goa, o Colégio de Macau tornou-se, desde logo, no centro cultural da Cidade (...).
Alguns dos curiosos nomes, fins e ingredientes das receitas do Manuscrito
Agoa
Febrefuga, o nome dá a entender que é mesmo para ´a fuga´da febre e trata-se de uma receita que usa panos em infusão; sim, ´chá´ feito com panos de seda, o que até há bem pouco tempo era prática da chamada medicina popular, constando em velhos cadernos
de mezinhas e de culinária. Os Jesuítas referiam que era para toda a sorte de febres q entrão com frio.
Agoa otalmica, com o uso
de celidónia, como o faziam o gregos e que ainda hoje é utilizada em caso de
cataratas, a que se alia a ourina de menino, usada, também, em certas
aldeias beirãs.
Agoa
prodigiosa, Balsamo Apopletico, Balsamo estomacal, que preveniam flatos,
acidentes, melancolias, toces, defluxos, e ainda, confortava muito o estomago para além de evitar o mau
hálito.
Cachundê do Japão, Emplastro Vulnenario Magistral, com o uso de ourina recente.
Emplastro p.ª a Gota, feito com leite de mulher, o qual ajudava
a minorar, segundo a tradição, dores articulares, oftalmias e todas as doenças
infantis.
Emplastro Negro, próprio para todas as «castas de chagas,
ainda q sejão velhas, sordidas, e ulceradas.
Linim.to
p.a Empigens e Sarna, ainda
hoje utilizado nos pulsos para tratamento de dermatoses.
Oleo de Apparicio, apropriado p.a
qualquer ferida, ainda que seja penetrante; p.a qualquer queimadura; p.a
qualquer chaga; e p.a dores de qualquer junta.
Pedra Basar Artificial, feita de pérolas
pequenas, cálculo de estômago de cabra, pedras preciosas, chifre de veado, entre outros ingredientes (e muito usado na medicina chinesa).
Pillulas Douradas, Pillulas p.a Facilitar o Parto,
e Pillulas p.a Retenção dos Meses que
serviam para fazer baixar o sangue menstrual por mais rebelde q esteja, mas
tambem p.a restaurar as cores perdidas; e p.a as mulheres q não puderem conceber, deviam ser tomadas por espaço de hu mez ...
Pôz contra Lombrigas, e Tintura Adstringente que serviam para «qualquer qualid.e
de cursos tomada per manham em jejum e à tarde duas ou trez horas depois de
comer, mas, talvez o mais importante é esta tintura ser potente p.a a virgind.e. perdida em lavagens. Mas, tinha esta receita um aviso; era para ser usada com cuidado porque aperta m.to. ...

imagem de uma das páginas do livro,
com uma receita do Manuscrito
A autora esclarece, ainda, que o exercício da medicina foi vedado aos eclesiásticos depois do Concílio de Trento, mas, nos territórios ultramarinos e como as curas facilitavam a conversão (reproduzindo relatos muito curiosos no seu Livro, tidas as curas por milagres), continuaram os Jesuítas a procurar a inovação e a dar apoio ao Hospital dos Pobres, tanto em Macau como no Brasil e em Goa.
A Botica do Colégio de S. Paulo acabou em 1762, data em que foi expulsa de Macau a Companhia de Jesus, tendo sido vendida ao desbarato a um mercador que a despachou para Goa...
1 comentário:
Muito interessante, como farmacêutico aproveito para enviar os parabéns à autora pela sua criatividade e excelente trabalho.
Eduardo
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