O Museu Memorial Lin Zexu

Museu Memorial Lin Zexu 1 Museu Memorial Lin Zexu 3 Museu Memorial Lin Zexu 4 
Museu Memorial Lin Zexu 2 Museu Memorial Lin Zexu 5 
Museu Memorial Lin Zexu 6 Museu Memorial Lin Zexu 7 
Museu Memorial Lin Zexu 8 Museu Memorial Lin Zexu 9 
Museu Memorial Lin Zexu 10 Museu Memorial Lin Zexu 11 
Museu Memorial Lin Zexu 12 Museu Memorial Lin Zexu 13 
18 
17 
15 
14

Situa-se no pátio do Templo Lin Fong, na Av. Almirante Lacerda. Este museu destina-se a lembrar a obra de Lin Zexu e a homenagear a sua visita a Macau, em 1839, que teve por objectivo garantir a proibição do comércio de ópio no território administrado pelas autoridades portuguesas e obter a sua neutralidade no que toca ao diferendo que opunha a Grã-Bretanha à China. 

No Museu podem ver-se os instrumentos utilizados para fumar ópio, uma réplica dos barcos de carga que o traficavam e muitos documentos chineses da época. E fotografias, relativamente recentes. Do encontro de Lin Zexu com os portugueses é feita a reconstrução com figuras em tamanho real (no segundo piso, onde nada parece fazer parte do Museu, havendo uma exposição de pintura chinesa e de caligrafia).

Olhando para as imagens representando esse encontro que teve lugar no Templo de Lin Fong, fico com vontade de rir; a forma como os portugueses se apresentam, em perfeito contraste com os representantes da Corte Imperial, muito exuberantes e ricamente trajados, chega a ser cómica. Nem falo do ar humilde, do estarem curvadinhos, o que chama logo a atenção; do que falo é no que não se revela, à primeira, mas se olharmos para os sapatos do português que se encontra sentado, concluímos que são do final do século passado. E de plástico ou de pele de má qualidade, como se tivessem sido comprados em tendinhas do outro lado das Portas do Cerco. E não podemos deixar de achar graça à falta de rigor, ou, se preferirmos, ao comentado que seria o gosto extravagante e vanguardista do português, se o imaginarmos com este calçado a cirandar pelas ruas da cidade, no século XIX. 

E se dermos meia volta e olharmos para os sapatos do outro português (calçado rigoroso no que respeita à época), vemos que estão em muito mau estado: sem capas e com os saltos descolados, como se tivesse ido a pé do Leal Senado ao Templo, por caminhos inóspitos, para se encontrar com tão ilustre representante da Corte Imperial. 

Para além de suados, o que fica provado quer pela pele luzidia, quer pelos cabelos oleosos e despenteados (as suas perucas que parecem ninhos), o que se poderia aceitar pela humidade excessiva de Macau (digo eu, benevolente e divertida com isto), a caspa no cabelo de um deles custa a admitir, fazendo-o parecer mais um estucador no fim da jornada de trabalho do que um digno representante da Coroa Portuguesa. Ainda bem que sou a única visitante do Museu neste momento, concluo; assim, apenas os funcionários acham estranhos os meus risos e os meus olhares insistentes para os bonecos … 

Mas voltemos a Lin Zexu, lembrado que é como um grande erudito, um burocrata conhecido pelo seu rigor e integridade e dedicado à luta contra o comércio de ópio. Tentou, na província de Cantão (para onde foi nomeado Comissário Imperial, em 1838) deter a importação de ópio, comercializado pelos ingleses. Bloqueou os portos a navios europeus e apreendeu o ópio, usando a força depois da sua tentativa de fazer com que os concessionários o trocassem por chá. O consumo (não medicinal) de ópio era proibido desde 1729, mas o Império foi sendo afectado pela sua importação desmesurada. 

O que se realça da sua luta contra o comércio do ópio é a carta dirigida à Rainha Vitória, num texto cheio de conceitos morais de Confúcio, dizendo: «Deixe-nos perguntar, onde está a V. consciência? Ouvi dizer que o fumo do ópio é estritamente proibido no V. país, pois o dano causado pelo mesmo é claramente compreendido. Como não é permitido fazer mal ao Vosso próprio país, então, ainda menos deveria ser permitido transferir o mal para outros países» … 

Os argumentos defendidos por Lin Zexu são muito válidos; de facto, a China fornecia a Grã-Bretanha de mercadorias de grande valor como chá, porcelanas, especiarias e seda, e a Grã-Bretanha enviava à China, em contrapartida e nas suas palavras, veneno. Entende-se, pois, porque Lin Zexu se tornou um herói nacional. 

E interessante é registar que apesar do antagonismo entre chineses e ingleses, o sinólogo inglês Herbert Giles (co-criador de transliteração Wade-Giles), elogiava e admirava Lin Zexu, tendo escrito que «era um estudante excelente, um oficial justo e misericordioso e um verdadeiro patriota». 

As Guerras do Ópio, cujo desfecho foi desfavorável à China, tiveram como consequência a abertura de vários portos ao comércio internacional e a cedência da ilha de Hong Kong aos ingleses, acabando por ser prejudicial também a Lin Zexu, que foi substituído no cargo e exilado, embora tenha sido reabilitado.

Sem comentários: